Cólica menstrual forte pode ser sinal de endometriose

Muito comum, doença pode afetar 15% das mulheres e causar problemas graves

12/08/2018 - 17:29 - Atualizado em 13/08/2018 - 22:29

Quando a doença piora, as cólicas surgem também fora do período menstrual (Foto: Arquivo)

Cólicas fortes são muitas vezes encaradas como normais entre as mulheres. Mas nenhuma dor, principalmente se forte, é normal. Ela pode ser um indicativo de endometriose, doença oriunda da menstruação que, não raro, só é descoberta com a infertilidade – que ocorre em cerca de 55% dos casos.

Quando a doença piora, as cólicas surgem também fora do período menstrual. Em uma escala de zero a dez, os médicos explicam que a dor da doença seria sete, ou seja, causa muito desconforto, provocando dias de cama e consequentes faltas no trabalho.

Mesmo assim, diversas pesquisas mostram que, em média, as mulheres demoram cerca de sete anos para ter o diagnóstico da doença. Estes dados foram confirmados este ano por uma pesquisa do Grupo de Apoio às Portadoras de Endometriose e Infertilidade (Gapendi), juntamente com o ginecologista Edvaldo Cavalcante, especialista no tratamento clínico e cirúrgico da endometriose. 

No total, 3 mil mulheres entre janeiro e fevereiro deste ano foram entrevistadas e 38% das pacientes demoraram de cinco a oito anos para ter a confirmação da doença. 14% levaram mais de oito anos. A média mundial é de sete. E 74,8% das mulheres precisaram visitar mais de três especialistas para receber a confirmação. Sete em cada dez delas tiveram de passar por cirurgia.

O que é

De acordo com o  chefe do ambulatório de endometriose do Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Marco Aurelio Pinho de Oliveira, endometriose é uma doença muito comum. Pode afetar 15% das mulheres e causar problemas graves.

“A endometriose é a doença da menstruação. Quando a mulher menstrua, parte do sangue sai pela vagina e outra parte fica dentro da barriga. Isso é para todas. Mas algumas, até 20% delas, desenvolvem a doença”, explica o especialista.

Apesar de ser apenas sangue liberado para o próprio corpo, pode haver complicações. “Para explicar de forma mais fácil, posso dizer que esse sangue gruda nos órgãos, parece que botou cola lá dentro. Ele se acumula anatomicamente em cima da vagina e intestino, entre o útero, intestino e bexiga, pega ligamentos, ovários, trompas, bexiga e quando a mulher deita, os líquidos podem correr para apêndice, intestino, diafragma que é o músculo da respiração acima do fígado. Pode causar, por exemplo, pneumotórax, dores, obstrução intestinal, pode entrar e dilatar o rim”, explica Marco Aurélio, sobre as complicações mais graves. 

O tratamento consiste em fazer a mulher parar de menstruar, para a doença não progredir. Isso é feito, geralmente, com pílulas anticoncepcionais ou hormônios orais ou por dispositivo intrauterino – essas medidas só devem ser interrompidas se há o desejo de engravidar. 

Mitos e verdades

Nem toda dor e cólica menstrual é endometriose. E 10% das pacientes com a doença não têm qualquer sintoma. Há quem diga que menstruação irregular ou pouca menstruação seja sinal de endometriose. Marco Aurélio diz o contrário. “O perigo é para quem tem fluxo forte. Quanto mais sangue, mais pode ficar na pelve”.

Outra mentira famosa é de que o parto normal cura a endometriose. “Mito. A gravidez é um ótimo tratamento, pois a mulher para de menstruar durante a gestação, e por meses, enquanto amamenta. Mas depois, a doença volta”, conta o especialista. “Por isso é tão importante diagnosticar”. 

Cirurgia simples é indicada para reverter quadro

Apesar de a endometriose causar infertilidade nos casos mais graves, engravidar naturalmente é possível, após reverter o quadro com tratamentos cirúrgicos, via laparoscopia.

Segundo a Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, o procedimento é minimamente invasivo e funciona como no tratamento de outras doenças: são feitas pequenas incisões na região abdominal, para a entrada do aparelho que leva uma câmera. Por ele, o médico se guia durante a cirurgia. A incisão serve para cauterizar e retirar aderências do endométrio – o tecido que, quando não sai na menstruação, se aloja e causa doença. 

Saudável

Entre os riscos, nos casos mais graves, às vezes é preciso retirar órgãos que tenham sofrido, como bexiga e partes do intestino. Se o aparelho reprodutor estiver saudável é possível a mulher engravidar naturalmente algum tempo depois da cirurgia.

O procedimento médico é realizado com anestesia geral e a alta geralmente ocorre um dia depois. A recuperação exige repouso que varia de uma a mais semanas.

Patrick Bellelis, ginecologista e obstetra especialista em endometriose e membro da diretoria da SBE (Associação Brasileira de Endometriose e Ginecologia Minimamente Invasiva), explica que o diagnóstico precoce é essencial no sucesso do tratamento caso o sonho seja a maternidade.

“Há relatos de mulheres que conseguiram engravidar naturalmente. O caminho é complexo, porém realizável, já que, em muitos casos, a infertilidade pode ser revertida. Na cirurgia por via laparoscópica é promovido o alívio da dor e estagnação da doença”, detalha Bellelis.

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