Cidades da Baixada Santista ainda não são adequadas aos idosos

Fórum "A Região em Pauta" debateu tema diante de auditório lotado

18/07/2018 - 12:21 - Atualizado em 18/07/2018 - 12:24

Auditório ficou lotado para debate sobre adequação das cidades aos idosos (Foto: Vanessa Rodrigues/AT)

Faixa de pedestre bem sinalizada, com acesso de guia rebaixada, é essencial para evitar a queda de um idoso na rua. Mas o risco de um atropelamento continua se o tempo do semáforo não for suficiente para que ele vá de um lado ao outro da via. Parece elementar, mas essa ainda é uma das diversas falhas da atualidade nas políticas públicas das cidades brasileiras para torná-las mais acessíveis, inclusivas e seguras à terceira idade.

Exemplos como este foram ilustrados pela arquiteta Tatiana De Girolamo Moysés, pesquisadora da área de envelhecimento ativo e saudável, no fórum Terceira Idade que A Tribuna promoveu na terça-feira (17), no auditório TV Tribuna, como parte do ciclo de debates A Região em Pauta.

Durante o painel Arquitetura e velhice: cidades planejadas e qualidade de vida, Tatiana citou estudo feito pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), no ano passado, cuja conclusão foi que 97,8% dos idosos caminham a uma velocidade média de 2,7 quilômetros por hora. Entretanto, os semáforos para travessia de pedestres calculam como base o ritmo médio de 4,2 quilômetros por hora.

O dado aponta uma realidade empírica nos demais municípios quando qualquer cidadão, como você, leitor, recorda-se de algum momento no qual teve de dar aquela corrida quando o bonequinho vermelho começou a piscar.

Indicadores deste tipo ganham dimensão ainda maior considerando que os idosos já são hoje mais de 261 mil na Baixada Santista e até 2030, chegarão a 386 mil, ou 19,7% da população estimada para daqui a 12 anos na região.

Curitiba, neste quesito, é um caso de sucesso. "Lá foi criado um cartão para idosos e portadores de necessidades especiais em que a pessoa usa na hora de atravessar a rua e o intervalo do semáforo aumenta automaticamente de 20% a 30% em favor do pedestre", contou Tatiane.

Jasson Leonídio dos Santos, militar aposentado de 83 anos que assistiu ao debate de nesta terça-feira, já foi atropelado duas vezes, uma delas devido ao tempo da travessia com sinal verde para pedestres ter sido bem inferior ao necessário para que ele fosse de um lado ao outro da avenida.

O aposentado chama a atenção, também, para as calçadas do Centro, que tiveram o piso de pedras substituído por piso liso, prático porém escorregadio quando molhado. "É preciso repensar isso", opinou ele.

Tatiana Moysés ressaltou ainda que a velocidade média nas ruas também tem que ser repensada a partir da ótica do planejamento urbano com foco nos idosos. Pesquisa da Fundação Seade de 2014 apontou que acidentes de trânsito são a primeira causa de morte entre pessoas de 60 e 74 anos. "E o risco de atropelamentos aumenta muito quando a velocidade das vias é superior a 50 quilômetros por hora".

A pesquisadora reconhece o avanço das cidades nas últimas décadas, com a criação de espaços públicos para estimular o convívio, algo segundo ela diretamente ligado à qualidade de vida da terceira idade, e às medidas de acessibilidade. No entanto, conforme Tatiana, as cidades foram planejadas para o automóvel e de maneira geral ainda são hostis aos idosos.

Cuidados dentro de casa

Se os acidentes dentro de casa também figuram entre as principais causas de ocorrências envolvendo idosos, conforme dados da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, é preciso tomar uma série de medidas para minimizar riscos.

"As soluções são acessíveis e estão normalmente na loja mais próxima ou no comércio de materiais de construção", ressaltou Milton Luiz Costa Junior, arquiteto santista que falou sobre o assunto no fórum de nesta terça-feira.

Banheiros merecem maior atenção. Nos boxes, ele recomenda pisos antiderrapantes, ou aqueles adesivos ásperos caso não haja possibilidade de trocar o revestimento. Ou até mesmo tapetes com ventosas ou tablados de madeiras plásticas. Barras e alças de segurança próximos ao vaso sanitário são indispensáveis.

No quarto, camas convencionais, em vez da box (mais alta), e interruptores ao lado da cama e na altura da cômoda representam alguns dos cuidados para evitar quedas e a locomoção no escuro. Tapetes devem receber emborrachamento na parte de baixo e o guarda-roupa pode ter lâmpadas embutidas.

Outro recurso interessante é a iluminação nas paredes acima dos rodapés, principalmente nos corredores, para iluminar o caminho até a cozinha no meio da madrugada, por exemplo.

Não há remédio para memória

Esqueça tudo que você ouviu sobre substâncias para melhorar a memória. Cafeína, fósforo ou qualquer princípio ativo pode ser promessa de uma turbinada no cérebro, mas não existem remédios capazes de melhorar essa função cognitiva. A afirmação é do geriatra Alberto Macedo Soares, um dos convidados do fórum, que participou do painel Memória e Criatividade.

"Não há medicamento para a memória, existe remédio para a doença que ocasionou o problema de memória", reiterou o médico. Segundo ele, vitaminas antioxidantes têm sido comercializadas e compradas em larga escala principalmente por pessoas da terceira idade, mas não existe comprovação científica do efeito.

“Se não identificou uma causa, não tem que tomar nada. Existe algo chamado RAM, que é a Reação Adversa a Medicamentos, uma definição dos efeitos colaterais a que uma pessoa que está tomando mais de três medicamentos por dia está exposta”, alertou ele.

O segredo para manter saudável essa função cognitiva está na realização de atividades corriqueiras de treino do cérebro, na interação social e, também, no bom humor, complementou a gerontóloga Valéria Lasca, psicóloga especializada em exercícios para a memória e co-autora do livro Exercite sua Mente.

“Alterações do humor em quadros depressivos ou de ansiedade dificultam a memorização. Afetividade e interação social auxiliam a saúde do cérebro”.

Entre as atividades benéficas, principalmente em idosos, estão aprender uma nova língua, voltar a tocar um instrumento musical, escrever e verbalizar para alguém a história de um livro que leu ou um filme a que assistiu. Uso de computadores também são aliados nesta tarefa.

O que os idosos precisam?

Atenção, diálogo e um profundo entendimento sobre as suas necessidades. Quem dá a receita é Helle Alves, 92 anos, autora do livro Envelhecer Não Doi (2003) e membro da comissão que criou o Estatuto do Idoso. Mais do que uma cidade planejada para a terceira idade, uma casa adaptada ou medicina especializada, Helle entende que uma sociedade que os compreenda é tão importante quanto os avanços.

“Ainda falta a compreensão do que é envelhecer. Quando o idoso faz aniversário, todos o abraçam, beijam, o deixam na ponta da mesa e viram para conversarem entre si. Há um problema de interação, comunicação, que causa o isolamento”.

Veja Mais