Campanha apela por voto mais consciente nas eleições desse ano

Objetivo é mostrar ao eleitor a importância de conhecer o passado e caráter dos candidatos

22/04/2018 - 18:11 - Atualizado em 22/04/2018 - 18:11

 

Especialistas propõem cuidado na hora de escolher candidato a deputado nas eleições (Foto: Wilson Dias/Agência Brasil)

Demonstrando insatisfação com os atuais parlamentares e pedindo mudanças na composição do Congresso Nacional, mais de 30 entidades brasileiras se uniram na campanha Um Novo Congresso É Necessário. É Possível. E Vai Ser pelo Voto. O objetivo é que o eleitor tenha em mente a necessidade de pesquisar o histórico dos candidatos e não votar em quem trabalha com barganha política ou tem problemas com a Justiça.

Um dos organizadores do movimento, o arquiteto e ativista social Chico Whitaker, afirma ser necessário que a população conheça melhor as ações de deputados federais e senadores e não se concentre apenas no chefe do Executivo.

“De nada adiantará eleger o melhor candidato a presidente da República, se a maioria do novo Congresso – diferentemente do atual – não for composta por parlamentares que se preocupam com os problemas do País e não com interesses pessoais de poder e riqueza”, afirma Whitaker.

Para o coordenador técnico do Fórum da Cidadania de Santos, Célio Nori, pesquisar os candidatos é a melhor maneira de eleger políticos comprometidos com as causas populares. Ele acha que dados como o tempo de mandato do parlamentar e quais projetos aprovou são importantes.

“A grande maioria da população não está satisfeita com seus representantes, há uma profunda crise de representatividade política no Congresso Nacional. E a importância dos parlamentares não é percebida no dia a dia pela população. Para agir, o Executivo precisa do aval do Legislativo, mas hoje existe um conluio entre os poderes que precisa acabar”, diz.

A professora do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP), Maria Aparecida de Aquino, lembra que não adianta somente votar e esquecer quem se escolheu. “É extremamente desagradável a pessoa não saber em quem votou. Pesquisar a vida privada do candidato e a atuação parlamentar é o mínimo. No impeachment da (então presidente) Dilma (Rousseff), o mundo inteiro ficou horrorizado com a categoria dos nossos representantes”.

Público e privado

O presidente da Subseção de Santos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Luiz Fernando Afonso Rodrigues, orienta verificar o passado dos candidatos, tanto na vida pública quanto na particular. E jamais votar em quem tem complicações na Justiça.

“Esses, naturalmente, devem ser afastados da vida política. O voto tem um peso, uma responsabilidade muito grande. Devemos eleger candidatos com histórico de boas administrações, sem condenações ou questionamentos. Exigir candidaturas idôneas”, ressalta Rodrigues.

O jornalista e especialista em Finanças Públicas Rodolfo Amaral explica que é mais fácil fiscalizar os atuais parlamentares: basta entrar no site da Câmara e verificar seus projetos e ações no mandato.

“Os novos, devemos conhecer seu currículo profissional e também o eventual envolvimento com entidades de classe em geral. Mas é conveniente, em ambos os casos, ver as propostas que eles vão defender em campanha, seja no seu site ou no material de divulgação”, orienta.

Para o presidente da Comissão Contra Caixa Dois nas Campanhas Eleitorais da OAB São Paulo, Luciano Caparroz Pereira dos Santos, um dos autores da Lei da Ficha Limpa, o eleitor precisa escolher muito bem os seus representantes no Legislativo, pois é por meio deles que as leis são criadas e editadas.

“Temos que pensar nos interesses coletivos. Não adianta trocar voto por cesta básica, por bens materiais momentâneos e eleger maus representantes. O eleitor deve olhar a vida do candidato, considerar se ele tem vários processos. Hoje é muito fácil: pela internet é possível saber”.

"Não mudará tanto"

A insatisfação com a política e com os escândalos de corrupção não deve causar um impacto tão expressivo na renovação do Congresso Nacional, que gira, historicamente, em pouco mais de 40%. A menos que a campanha pela mudança dê muito certo, especialistas acreditam que a propaganda eleitoral restrita e o poder econômico de quem já está dentro do sistema favoreçam várias reeleições.

O presidente da Comissão de Direito Eleitoral da OAB-Santos, Rogério Mehanna, acha que os índices já refletem uma insatisfação costumeira com os deputados, pois quase a metade costuma mudar em cada eleição. “A tendência é que suba agora em 2018, mas nada que chame tanto a atenção. Acredito que não teremos um percentual muito mais alto”, considera ele.

Para o professor universitário de Ciência Política e Direito Constitucional Leandro Matsumota, as pessoas analisam os candidatos a presidente e governador e não percebem que votam sempre nos mesmos para o Legislativo. “A população demonstra um sentimento muito forte por mudança, vai para as ruas, mas isso não se reflete no Congresso e voltam os mesmos. É contraditório”.

Para o especialista em Finanças Públicas Rodolfo Amaral, os caciques partidários vão concentrar os recursos de campanha nos nomes mais tradicionais. “A chance dos novos será a de produzir um conteúdo eleitoral atrativo nas redes sociais. Contudo, também há risco de congestionamento de propaganda nas mídias sociais”.

O presidente da Comissão Contra Caixa Dois nas Campanhas Eleitorais da OAB-SP, Luciano Caparroz, alega que, embora a renovação exista, ela não é feita com qualidade. “A gente muda para os mesmos. Porque é o filho do deputado que assume, o irmão, o pai... Sempre alguém do mesmo grupo que já está no poder e tem toda a estrutura de recursos. Precisamos de uma renovação qualificada”.

A historiadora Maria Aparecida de Aquino tem a mesma visão. “A renovação é extremamente baixa, porque percebemos que o poder passa de geração para geração. Não adianta só trocar as pessoas, é preciso analisar quem são aqueles que estão colocando os seus nomes, a que grupo pertencem. E deveria se repensar também quantas legislaturas um político pode ter, para não se reeleger eternamente”, salienta.

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