Baixada Santista tem número recorde de policiais militares assassinados

Foram 11 PM mortos por criminosos em 2017; parentes contam o drama por trás das estatísticas

10/03/2018 - 14:45 - Atualizado em 10/03/2018 - 15:13

Corpo do cabo Barros na marginal da Via Anchieta, em 2017 (Foto: Vanessa Rodrigues/A Tribuna/Arquivo)

A Baixada Santista teve, em 2017, quantidade recorde de policiais militares assassinados. Foram 11 PMs mortos por criminosos, o maior número dos últimos 15 anos. 

Os dados são da própria Polícia Militar e foram obtidos por A Tribuna por meio da Lei de Acesso à Informação. O período analisado é de 2003 a 2017.

O número do ano passado é superior às baixas ocorridas, por exemplo, em 2006, quando as forças de segurança pública estiveram sob ataque da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). Naquele ano, houve oito mortes - mesma quantia de 2011, 2012 e 2014.

Em 7 de dezembro, as maiores marcas foram superadas quando o soldado Bruno Fabiano Bicudo Vaz tornou-se a nona vítima da violência contra a Polícia Militar ao ser morto com tiro na cabeça em Itanhaém, enquanto estava em frente à casa de um amigo, também PM.

O recorde negativo cresceu em dezembro, com outras duas ocorrências, elevando para 11 o número de agentes assassinados - nove à paisana e dois aposentados. Nenhum, portanto, morreu em serviço.

Quem sofre

Por trás das estatísticas, porém, há histórias. De trajetórias interrompidas e famílias devastadas pela ausência, resultado da criminalidade no Estado, sob gestão do governador Geraldo Alckmin (PSDB).

"As vidas dos meus filhos e a minha mudaram do dia para a noite", diz a agente administrativa Vivian Pereira Rangel, de 34 anos, esposa do soldado George Luis de Brito Rangel, assassinado em 13 de setembro ao ser baleado em frente a uma padaria na Náutica 3, em São Vicente.

Ele chegou a ser socorrido ao Hospital Municipal (antigo Crei), mas não resistiu aos ferimentos, para desespero da mulher. "Meu mundo caiu no chão literalmente, porque eu caí no chão e desabei".

"Em toda morte você fica desorientada, mas principalmente quando é uma morte bruta. Uma pessoa sadia e com dois filhos para criar, tirada de mim do nada, só por ser policial militar", lamenta Vivian.

Além da falta afetiva, a perda financeira também pesou, já que, após a morte, o salário do PM para de ser depositado. A família enfrenta uma espera média de quatro meses para conseguir a pensão.

"Meus filhos mudaram de escola e eu tive que sair de casa. Estou morando com meus pais, porque as contas apertaram e precisei de ajuda financeira", conta a viúva.

Aniversário

Para a família do soldado Bruno Fabiano Bicudo Vaz, o assassinato dele doeu ainda mais nessa quinta-feira (8), quando o jovem completaria 24 anos. 

"Até hoje a gente está totalmente sem chão. Ele representou tudo para nós", arremata o pai do rapaz, o padeiro Saulo Fabiano Vaz, de 41 anos. "Nós nunca tínhamos sentido a tristeza e agora lidamos com isso diariamente. Foi uma destruição".

Segundo Saulo, o filho veio para a Baixada Santista por conta de uma namorada, de quem acabou se separando depois, e esperava a transferência para o Interior de São Paulo, onde a família mora, para voltar a ficar perto dos pais e da irmã, de 17 anos. "Sempre tivemos um elo muito forte entre nós quatro".

Bruno ajudava muito no sustento da casa da família e hoje Saulo tem dívidas no cartão de crédito. Ele está desempregado - a mulher trabalha - e ainda não conseguiu a pensão pela morte do filho. "É uma burocracia exagerada. A PM faz de tudo para você desistir de pedir".

Caindo a ficha

Mãe do soldado Bruno Dantas Rodrigues, da Polícia Militar Rodoviária, assassinado em 17 de setembro, em Guarujá, a servidora pública Rose Silva, de 49 anos, diz não ter assimilado a perda.

"Nós ainda não caímos na realidade. São cinco meses em que está muito difícil. Ele era um filho e um pai maravilhoso", relata, com emoção.

Muito abalada, a esposa de Bruno, que estava com ele no momento do ataque, só voltou ao trabalho em janeiro deste ano após um período afastada. No dia do crime, a mulher, que também é PM, baleou e matou um dos suspeitos.

Rose critica o descaso do Governo do Estado com a segurança pública. "Ultimamente a violência está muito grande, então os policiais estão à mercê dos bandidos".

Irmã de Danton, Dione lamenta morte violenta durante tratamento de câncer (Foto: Fernanda Luz/A Tribuna)

Expectativa e morte

Os parentes do policial militar reformado Danton Carvalho da Silva estavam otimistas quanto à recuperação dele de um câncer no intestino, mas uma dupla de motocicleta o matou na frente de casa, no Jóquei Clube, em São Vicente, em 30 de dezembro do ano passado.

"Ele estava chegando em casa de carro e tinham dois homens em uma moto esperando-o. Os meninos da moto o chamaram e o Danton ainda respondeu. Ele virou de costas e descarregaram a arma", relembra a irmã do aposentado, a gerontóloga Dione Carvalho da Silva, de 57 anos.

O PM estava em tratamento de um câncer no intestino. "Estávamos trabalhando a ideia de perdê-lo para a doença, mas chegamos a ter uma esperança, porque meu irmão estava engordando. O assassinato foi um soco no estômago. Puxou o tapete da família inteira. Foi tenebroso".

Dos dois suspeitos pelo homicídio, um teria morrido em confronto com a Polícia Militar tempos depois e o outro continua foragido, apesar de estar com prisão decretada, de acordo com a irmã de Danton.

Mistério

Para a técnica de enfermagem Kelly Cristina Ferreira Barros, de 34 anos, o sofrimento de perder o marido, o cabo Luís Fernando da Silva Barros, durou ainda mais.

Ele, que trabalhava no setor de inteligência da Polícia Militar, ficou desaparecido por 12 dias antes de ser encontrado morto às margens da Via Anchieta, em Cubatão, em 6 de abril de 2017.

Passado quase um ano, o homicídio de Barros permanece um mistério. O laudo do Instituto Médico-Legal (IML) não apontou a causa da morte e não se descobriu a motivação do crime nem os autores.

"É revoltante que, no caso de uma pessoa com ele, com 16 anos colocando e honrando a farda, não se sabe o que aconteceu e o por quê. Eu não tenho essa resposta e não posso dar essa resposta para minha filha de 12 anos".

Kelly acredita que o autor do crime não é qualquer criminoso, porque "bandido é burro e deixa rastro". "Quem fez é alguém muito inteligente. Meu marido era um cara muito correto e honesto e talvez tenha morrido por isso".

Kelly guarda com carinho fotos do marido, assassinado no ano passado (Foto: Luigi Bongiovanni/A Tribuna)

Respostas

Em passagem por Santos nesta semana, o secretário de Estado da Segurança Pública, Mágino Alves Barbosa Filho, declarou que a preservação de vidas "é a preocupação número 1" do governo estadual.

"Todo policial é orientado a como se portar em uma situação de risco. Temos enorme preocupação. Um policial sabe como reagir, mas às vezes tem a dificuldade de poder realizar o confronto da melhor forma possível", disse.

Procurada por meio da assessoria de imprensa, a Polícia Militar negou as entrevistas pedidas por A Tribuna com um porta-voz da Corregedoria e com o comandante da corporação na Baixada Santista, o coronel Rogério Silva Pedro.

A PM preferiu se manifestar apenas por nota e disse que há "orientações constantes dos comandantes às suas tropas quanto a segurança nos deslocamentos do quartel para a residência e vice-e-versa".

Na nota, a Polícia Militar destacou ainda que os agentes podem aderir à Diária Especial de Jornada Extraordinária Militar (Dejem), abrindo mão de horários de folga para trabalhar fardados, como forma de complementar a renda e fugir dos bicos.

A Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP) alegou que a PM mantém estrutura de amparo aos policiais e seus familiares. "Desde a proteção aos direitos do policial vitimado até o amparo psicológico e médico, a instituição se empenha no sentido de garantir o suporte a seus integrantes'.

Além disso, a secretaria informou que a Corregedoria da PM tem uma equipe dedicada a "acompanhar e atuar para o esclarecimento dos crimes contra os policiais".

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