Bailes funk crescem na Baixada Santista e preocupam

Eventos conhecidos como pistões estão se tornando comuns em Peruíbe, Guarujá, Mongaguá e Cubatão

17/10/2017 - 15:05 - Atualizado em 17/10/2017 - 15:05

A Praia do Centro, em Peruíbe, foi palco de um baile no
 final de semana; houve relatos em Mongaguá e Guarujá

A falta de dinheiro para se divertir em uma balada e a facilidade de curtir funk com os amigos em locais a céu aberto são fatores que contribuem para o aumento dos chamados pistões e fluxos (ou mandelas, como conhecidos em algumas cidades da Baixada Santista).

Eventos desse tipo são uma espécie de baile funk feito nas ruas com carros tunados, ou seja, equipados com caixas de som potentes. O que diferencia ambos é que nos pistões há apresentação de MCs e DJs, como ocorre em algumas comunidades de Guarujá.

Se por um lado a diversão está garantida para esse público, muitos moradores do entorno dessas festas ficam incomodados com o som alto e com o lixo deixado pelos frequentadores. Isso sem contar com o uso de drogas e o consumo de bebidas entre adolescentes.

No último final de semana prolongado, alguns relatos de cenas como as descritas acima foram feitos por leitores de A Tribuna em três cidades: Guarujá, Mongaguá e Peruíbe.

A madrugada de sábado, em um dos principais pontos turísticos de Peruíbe, a Praia do Centro, foi “um verdadeiro pandemônio”, segundo um dos habitantes da área, que pediu para não ser identificado.

Além do som alto, essa pessoa observou um grande número de adolescentes consumindo bebida alcoólica livremente, uso de entorpecentes, cenas de sexo explícito e até mesmo um show de exibicionismo de motociclistas, empinando seus veículos.

“A Cidade está virando uma terra de ninguém. Estamos observando essa situação todo o final de semana. Há pouco mais de um mês, uma menina saiu alcoolizada dessa festa e acabou sendo estuprada por um grupo”, ressaltou.

Ele afirmou que a Polícia Militar (PM) e a Guarda Municipal permaneceram no local por alguns minutos, mas, após os homens deixarem o local, “a bagunça” foi reiniciada. “Na madrugada de domingo, a coisa foi quatro vezes pior e sem a presença das autoridades. Eles fecham a avenida. Esse tipo de situação afasta os turistas. A pessoa de bem que vem para cá fica horrorizada”, desabafou. 

Em Mongaguá, moradores reclamam dos bailes realizados no entorno da Plataforma de Pesca Amadora, geralmente aos fins de semana. Segundo relatos recebidos por A Tribuna, há consumo de drogas e álcool, e ocorre prostituição, além do som alto. 

Nas redes sociais, é possível encontrar páginas com fotos e vídeos das festas, assim como a troca de informações entre os frequentadores que organizam esses eventos. 

Vila Edna é um dos locais com mais
denúncias sobre os pistões (Foto: Reprodução)

Crime mandou parar

Há algumas semanas, a Reportagem recebeu reclamações dos constantes pistões realizados aos fins de semana na entrada da Vila dos Pescadores, em Cubatão, da meia-noite até as 7 horas. Segundo relatos, o som era tão alto que podia ser ouvido no Jardim Casqueiro.

“Esses eventos ocorreram por quatro meses seguidos na comunidade, mas parou nas últimas semanas. Isso teria sido uma determinação do crime organizado, porque a situação estava incomodando a comunidade”, citou uma das pessoas, que pediu para sua identidade não ser revelada.

O leitor explicou ainda que o grande volume de lixo deixado pelos frequentadores e o fato de as pessoas urinarem em qualquer local contribuíram para o incômodo das famílias da Vila dos Pescadores. Os proprietários de veículos do bairro também reclamavam que seus carros eram riscados e amassados nessas festas.

Esse cidadão reclamou demais da conduta da PM e da falta de empenho em resolver a situação. “Ligava no 190 e pediam para eu acionar a Guarda Civil, mas expliquei que Cubatão não tem essa corporação. O assistente insistiu comigo e passou um número de telefone que não existia”, afirmou.

Procurada, a Polícia Militar não respondeu até o fechamento desta Reportagem.

Preconceito 

Integrante do projeto Santos Funk do Bem, o DJ Anderson Silva acredita que os artistas não têm muitos espaços para fazer apresentações. Quando essa oportunidade aparece, ele citou que os órgãos públicos criam obstáculos para tentar impedir os eventos, o que não ocorre com outros gêneros musicais. 

Na avaliação dele, as autoridades deveriam estabelecer um diálogo com as lideranças do funk para a definição de regras e até mesmo de espaços para a realização de eventos. “Acredito que falta mais conversa entre as partes, o que ajudaria a diminuir esses conflitos com a comunidade”, destacou ele, que trabalha com funk desde 1994. 

Sobre a questão do consumo de drogas e bagunça nos pistões e fluxos, Lisboa aponta que os comentários estão carregados de preconceito, porque esse tipo de situação pode ser verificada em qualquer aglomeração de pessoas.

Mongaguá

A Diretoria de Segurança de Mongaguá informou que os eventos não são pistões, por não terem proporção tão grande. Todo evento de grande aglomeração é supervisionado pela Guarda Civil Municipal, PM e departamentos de Trânsito e de Fiscalização do Comércio. 

“Todos os finais de semana são promovidas forças integradas durante toda a noite, envolvendo estes entes, a fim de preservar a paz e promover o adequado convívio social”, justificou a Prefeitura. A Administração explicou que foram registrados episódios isolados e sem novas ocorrências nos bairros Vera Cruz, Itaguaí e Centro. 

Peruíbe

No caso de Peruíbe, a Secretaria de Defesa Social garantiu que houve “uma reunião de multidão que vez ou outra produziram som em altura excessiva, através de som automotivo”. A Guarda Municipal (GM) não foi informada sobre casos de consumo de entorpecente na Praia do Centro. 

Para coibir os excessos, a prefeitura está implantando o monitoramento por câmeras naquele trecho e está sendo estudada a ampliação dos postos da GM e ações conjuntas de fiscalização com a PM. A Administração citou que já recebeu reclamações de bailes funk na Avenida Padre Vitalino Bernini, no bairro Caraguava, “onde a PM já agiu com ações de Choque, única maneira para dispersão da multidão que ali se aglomera”.

Cubatão

Já Cubatão justificou que a fiscalização e o controle da emissão de ruídos provenientes de aparelhos de som é de responsabilidade da PM. Porém, a Prefeitura citou que tem colaborado na busca de solução para este tipo de problema, incluindo os bailes funks em vias públicas que, na maioria das vezes, acontece em bairros periféricos da cidade. 

“A Secretaria Municipal de Segurança Pública disponibilizou técnico do Comdec (Comissão Municipal de Defesa Civil) com decibelímetro para as medições que, inclusive, já resultaram em apreensão de equipamento, por parte da PM. A Companhia Municipal de Trânsito (CMT) também disponibilizou agentes para apoio às ações da PM e o pátio está à disposição para eventuais apreensões decorrentes”.

Proibidos, bailes seguem em Guarujá

Embora haja uma decisão do juiz Cândido Alexandre Munhóz Pérez, da Vara da Fazenda Pública de Guarujá, para que a Prefeitura fiscalize e impeça a realização dos pistões, a sentença não foi o suficiente para barrar esse tipo de evento no Município.

A Tribuna recebeu relatos da realização de um grande baile funk durante todo o feriado prolongado na Avenida Raphael Vitiello – antiga Avenida Brasil –, no fundão da Vila Edna. A festa começava por volta da meia-noite e durava até pouco mais depois das 7 horas.

“Você não tem noção do que rolou por aqui: consumo de drogas, menores de idade bebendo álcool à vontade e sexo explícito. Tudo isso acontece perto da Escola Estadual Dona Coralina Ribeiro dos Santos Caldeira”, justificou um morador do bairro, que pediu para não ser identificado. 

Segundo ele, a PM esteve no local na madrugada de sábado, por volta das 3h30, e o pessoal dispersou. Menos de meia hora após a corporação deixar o local, a festa continuou, com o som ainda mais alto, e terminou por volta das 8 horas.

O evento, inclusive, impede a circulação dos ônibus naquela região. “Um grupo fica na entrada do bairro para impedi-los de avançar. Os moradores que vivem no final da Vila Edna são obrigados a chegar a pé até em casa. Parece que a multa dada à Prefeitura não está resolvendo nada. Também estamos cansados do pouco caso da PM em relação a esse tipo de situação”, desabafou. 

Promotor confirma

Responsável por ingressar com a ação civil pública para proibir os pistões em Guarujá, o promotor de Justiça de Meio Ambiente e Urbanismo do Município, Osmair Chamma Júnior, explicou que já foi informado da realização de, pelo menos, três eventos desde a publicação da liminar (decisão antecipada e provisória) .

O representante do Ministério Público Estadual (MPE) foi notificado sobre a realização, no domingo, de um baile funk na Rua Santo Amaro, no bairro Prainha, e ainda aguarda o detalhamento das outras ocorrências anteriores.

A sentença prevê a aplicação de sanção de R$ 100 mil à Administração Municipal para cada pistão registrado em Guarujá, mas essas multas apenas podem ser dadas no final da ação judicial.

“No momento, estamos coletando as provas para comprovar que a liminar não vem sendo cumprida. Para evitar esse tipo de evento pela Cidade, as autoridades precisam estar mais presentes nas ruas, mas não é isso que vem ocorrendo como deveria”, disse o promotor.

Denúncia

O promotor de Justiça de Meio Ambiente e Urbanismo de Guarujá, Osmair Chamma Júnior, afirmou que qualquer cidadão pode denunciar a realização dos pistões no Município pelo e-mail: pjguaruja@mpsp.mp.br. 

O ideal é que, primeiramente, o caso seja relatado à Polícia Militar pelo telefone 190. O relato sobre o dia e o momento exato da ligação feita à PM pode ser feito ao Ministério Público Estadual de forma anônima. É interessante que o cidadão envie ao órgão fotos e vídeos dos pistões.

Força-terefa

A Prefeitura informou que a força-tarefa municipal esteve na Vila Edna, com o apoio da PM, porque a Guarda Civil Municipal (GCM) não tem armamento, e que mantém o trabalho de fiscalização de forma estratégica. Para que se evite a realização dos pistões, a Administração pede que a população denuncie pelo telefone 153.

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