Após cair em buraco, deficiente visual gasta mais de R$ 14 mil em apenas dois meses

Luzia Teresa Rocha Rachid, de 53 anos, caiu em buraco da Sabesp em São Vicente e deste então aguarda ajuda da empresa

15/12/2017 - 22:00 - Atualizado em 15/12/2017 - 22:16

Professora caiu em um buraco de esgoto no dia 19 de outubro (Foto: Fernanda Luz/AT)

"Eu dependo de todo mundo. A minha casa não está preparada para uma cadeira de rodas. Hoje, não posso mais fazer minha comida. Eu já não enxergo, não dá pra ficar sentada cozinhando. Só queria minha vida de volta", o desabafo é da professora da rede pública de ensino, Luzia Teresa Rocha Rachid, de 53 anos, que quebrou o tornozelo no último dia 19 de outubro, após cair em um buraco de esgoto da Sabesp que estava malsinalizado, no Centro de São Vicente.

Logo após a cirurgia no tornozelo, Luzia entrou na justiça pedindo ressarcimento pelos valores gastos. Isso porque, desde o acidente, a vida da professora virou do avesso. Nos últimos dois meses, ela já gastou mais de R$ 14 mil com despesas de cuidadoras, remédios, alimentação, transporte para médicos e fisioterapia. "Fiz empréstimo no banco e peguei dinheiro com conhecidos. A Sabesp ficou de me ajudar, mas até agora não apareceu". 

Luzia conta com a ajuda da cuidadora para poder fazer as refeições e ajudar na casa (Foto: Fernanda Luz/AT)

Se não bastasse a falta de comunicação da empresa, a professora teve o pedido de tutela antecipada negado pela justiça de São Vicente. No despacho, o juiz Mário Roberto Negreiros Velloso alega que: "Não se trata de fratura incomum, quiçá toda família já viu algum integrante conviver com tal situação. É de fato um transtorno, mas nada que justifique um cuidador 24 horas, e mais o custeio de uma empregada para preparo de alimentos e limpeza da casa".

Ainda de acordo com as informações no despacho, o magistrado reitera que a professora afirmou ter deficiência visual e, que isso, pode ter contribuído para o acidente. "A autora afirmou na inicial ter deficiência visual, não se sabe em qual grau, nem extensão. Possível que sua condição pessoal tenha contribuído para o infortúnio, sem culpa da ré".

A decisão ainda não foi concluída e Luzia aguarda um parecer favorável da Justiça. 

Casa de Luzia não é preparada para o uso de cadeira
de rodas (Foto: Fernanda Luz/AT) 

'Acredito na Justiça'

Deficiente visual há 30 anos, ela levava uma vida normal. Lecionava para pessoas com deficiências visuais e intelectuais, praticava esportes como stand up paddle e tinha sua própria independência. No entanto, depois da cirurgia, perdeu sua autonomia. "Eu espero que a Sabesp cumpra com a honra dela, que ela veja o erro e assuma. E, espero  que  a Justiça analise melhor este caso. Que revejam a legislação em relação às normas de segurança. Eu confio na Justiça".

Para ela, o acidente poderia ter acontecido com qualquer pessoa. "Eu não cai porque sou cega. Esse foi o único acidente que sofri até hoje. Peço ao juiz, que olhe pra mim não com uma pessoa com uma cegueira, mas como uma cidadã".  

Dificuldades

Sem poder andar, Luzia sente falta da rotina. "Sinto falta do meu trabalho, de caminhar na praia, de ir ao mercado. Agora tomo remédios. Não consigo dormir. Penso que estou caindo em um buraco. Os médicos me passaram remédios para o emocional". 

Além dos problemas por conta do acidente, a professora sofre com a saudade que sente da família que mora em Caraguatatuba, no Litoral Norte. "Infelizmente minha mãe tem alzheimer e está na cama. Ela vive com sonda e sente minha falta,  e eu a dela. Meu irmão que cuida de nossa mãe. Esse ano, passarei as festas de fim de ano sozinha, pois não poderia visitá-los". 

Resposta

A Reportagem entrou em contato com o Tribunal de Justiça para poder entrevistar o juiz, porém os magistrados não podem se manifestar pois são vedados pela Lei Orgânica da Magistratura (Loman). 

Já a Sabesp, informou por meio de nota, que fez contato com a moradora logo após a ocorrência e se colocou à disposição da mesma. Como a munícipe optou por recorrer à Justiça, a companhia agora aguarda uma notificação judicial sobre o caso.

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