Após morte de crustáceos, moradores de Peruíbe dão lição de amor à natureza

O problema já persiste há pelo menos quatro dias na faixa de areia da praia do Centro

03/06/2017 - 07:50 - Atualizado em 03/06/2017 - 13:42

Gabriel de 14 anos não se deu por vencido e salvou

este gavião da lama (Fotos: Carlos Nogueira/AT)

Em meio à lama que apareceu, na última quarta-feira (31), em cerca de 2,5 quilômetros de extensão da praia de Peruíbe e que tem chamado a atenção de moradores e especialistas ambientais, um garoto deu uma lição de amor à natureza. Na última sexta-feira (2), com os pés atolados na sedimentação de textura argilosa, Gabriel Paixão, de 14 anos, não se deu por vencido até salvar um filhote de gavião que estava preso no lodo.

Após a árdua tarefa de retirar o pássaro do local e lavá-lo, com a ajuda do comerciante Henrique Arruda Rodrigues, de 28 anos, o estudante teve o cuidado de levar o pássaro para a unidade da Polícia Militar Ambiental do Município. Até o fechamento desta edição, a origem da lama ainda era desconhecida, e a Prefeitura aguardava a ida de técnicos da Companhia Ambiental do Estado (Cetesb) ao local. Eles coletariam material para análise.

Na praia, alheio aos detalhes técnicos do fenômeno, depois de salvar o filhote de gavião, Gabriel continuou no meio da lama na tentativa de retirar peixes, siris e crustáceos. “Vou fazer o possível para salvar o maior número de bichos. Eles fazem parte da natureza e não merecem morrer no meio da lama”.

Para o comerciante Henrique Arruda, a iniciativa de Gabriel mereceu todos os elogios possíveis. “A gente fica emocionado vendo um menino com esse sentimento. Não dá para ficar parado. Por isso, decidi ajudá-lo”, comentou.

Emocionada

Ao saber da atitude de Gabriel, a doutora em Ecologia e diretora do Departamento de Agricultura e Meio Ambiente da Prefeitura de Peruíbe, Katia Pacheco, também ficou emocionada. “É muito bonito ver uma iniciativa tão nobre”, declarou. Sobre o fenômeno, ela explicou que o que chama a atenção é o volume de material que chegou à praia.

“Aparentemente, é um fenômeno natural. Desta vez, no entanto, o que chama a atenção é o volume de material, que é bem maior em relação a outras vezes. Em uma primeira análise, é um acúmulo de sedimentos provenientes de fundo de rio. No início da semana, tivemos vento forte, e o mar esteve muito revolto. Isso pode ter causado maior movimentação deste material”, avaliou a diretora.

Katia descartou a possibilidade de o material ter se deslocado da região de Cananeia, segundo comentários que se espalharam pela Cidade desde o surgimento da lama na praia.

“Não dá para afirmar que há possibilidade de o material ter sido trazido pelo mar de Cananeia. Lá, as correntes marítimas são diferentes”. Ela destacou ainda que, pelas características, a lama não parece ser produto de dragagem. “O material de dragagem tem outras características”, explicou.

 

Lama escura tomou conta da faixa de areia e do mar. Animais foram encontrados mortos

Outros órgãos

Procurada, a Sabesp enviou nota informando que o ocorrido não tem relação com o sistema de esgotos da empresa. “A Sabesp informa que o caso apontado na Praia do Centro de Peruíbe não tem nenhuma relação com o funcionamento do sistema de esgotamento sanitário operado pela companhia no Município”, salientou.

A Tribuna conversou com o promotor de Justiça de Peruíbe, Thiago Alcocer Marin, que acompanhará o caso. “Estamos solicitando informações à Prefeitura, à Sabesp e à Cetesb. A meta, agora, é saber a origem deste material”.

A Cetesb foi procurada, mas até o fechamento desta edição não deu resposta.

Estudante leva animais a aquário

Se o menino Gabriel chamou a atenção por desencadear uma verdadeira operação resgate na praia, de uma forma mais discreta, Camargo Leandro da Hora Novaes, de 38 anos, estudante de Biologia, também fez a sua parte.

“Estou recolhendo ermitões (crustáceos que vivem em conchas), moluscos e bolachas marinhas. Encontrei muitos deles vivos. Estou retirando da lama. Daqui, vou deixar um tempo no Aquário (Municipal), como uma espécie de quarentena. Depois, vou devolvê-los ao mar”. Ele fez a coleta no trecho de praia próximo ao Rio Preto.

 

Quem pesca com frequência no lugar estranhou o volume de lama grossa e de crustáceos

Acostumado a jogar redes em vários trechos da praia, o que chamou a atenção do pescador Eduardo Pereira dos Santos, de 21 anos, foi o volume de lama. “Às vezes, é comum o surgimento de lama na beira da praia. Isso ocorre quando o mar está muito grosso. Agora, nunca tinha visto com tanto volume assim”, comentou.

Caminhando na Praia, o técnico em ar condicionado Edison Roberto da Silva, de 59 anos, mostrou-se surpreso com o fenômeno. Ele foi um dos moradores que ouviram a notícia de que a lama teria vindo de Cananeia. “Moro aqui há dez anos e nunca tinha visto isso. Os comentários são de que teria ocorrido algum problema em Cananeia e, com o mar revolto, o material foi trazido aqui para Peruíbe”.

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