Após 30 anos, visitação em arquipélago volta a ser permitida

Arquipélago de Alcatrazes, em São Sebastião, será aberto ao público a partir de 2018

19/09/2017 - 09:12 - Atualizado em 19/09/2017 - 19:05

Abertura, em caráter experimental, terá visita embarcada e mergulho autônomo (Fotos: Rogério Soares/AT)

O canto da Saracura se mistura ao som do mar batendo no rochedo. São as boas vindas a quem chega. No paredão, com vegetação baixa, albatrozes, fragatas, atobás e outras espécies aproveitam o sol forte da manhã, na segurança de um santuário chamado Ilha de Alcatrazes.

Mas para quem vê de perto o paraíso, que fica a cerca de 35 quilômetros do centro de São Sebastião, no Litoral Paulista, o difícil é escolher onde fixar os olhos. Afinal, se no céu azul a revoada dos pássaros é um espetáculo, nas águas límpidas ao redor da ilha, a maior do Arquipélago de Alcatrazes, tartarugas e peixes de diversas espécies e tamanhos surgem a todo instante.

Um show que, a partir da temporada 2018, será aberto para quem quiser conhecer um dos cenários mais espetaculares do Brasil: a chamada Fernando de Noronha Paulista.

E é de dentro da lancha, que vai contornando a ilha em velocidade baixa, que se pode ter a sensação de estar em um mundo perdido, onde o tempo não passa. Nos rochedos, vão surgindo figuras que parecem saídas das mãos de um artista – mas tudo foi esculpido pela natureza. Uma delas, no lado sul da ilha, tem a forma de leão.  

O arquipélago é formado por nove ilhas, quatro lajes e dois parcéis 

“No período de pico da reprodução das aves, a ilha reúne cerca de oito mil fragatas, dois mil atobás e muitas outras. No mar, temos várias espécies, com destaque para raias e cações, que também utilizam a área para reprodução”, explica Geraldo de França Ottoni Neto, analista e oceanógrafo do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

A ilha também é o habitat de espécies raras, como a jararaca de Alcatrazes (Bothrops alcatraz), que é endêmica (restrita) ao local. Esse, aliás, é um dos motivos de as futuras visitas ficarem restritas ao entorno da formação de rochas, que tem cerca de 4 quilômetros de comprimento e formato de Y.

Visitas

Diante da importância ambiental da ilha e do Arquipélago dos Alcatrazes, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) propôs a abertura da visitação em caráter experimental com visita embarcada e mergulho autônomo. As atividades só poderão ser desenvolvidas por empresas e profissionais autônomos autorizados pelo ICMBio.

Conforme prevê o plano de manejo, a prestação dos serviços para visitação em Alcatrazes só poderá ocorrer após a instalação de poitas – espécie de píeres flutuantes – para a parada segura das embarcações cadastradas.

Serão instaladas dez poitas com capacidade de receber 20 pessoas para mergulho autônomo em cada uma delas. Haverá também passeios de barcos, onde os visitantes terão a chance de observar ninhos de fragatas, golfinhos, baleias migratórias e de outras espécies que frequentam o Refúgio de Vida Silvestre de Alcatrazes – o nome da reserva. 

O local tem cerca de 70 mil hectares, incluindo o trecho de mar, ilhas e pradarias de areia 

O ICMbio, responsável pela preservação e estudo da fauna e flora existentes na Ilha e no Arquipélago, elaborou as regras e, por meio da Portaria 582/2017, seguirá como principal agente na luta pela preservação ambiental da área.

Conscientização 

A última página de uma história de mais de três décadas da luta de ambientalistas pela preservação do Arquipélago de Alcatrazes chegou ao fim. A área, transformada no Refúgio de Vida Silvestre de Alcatrazes em 2 de agosto de 2016, foi oficialmente aberta à visitação dia 13, quando os ministros do Meio Ambiente, José Sarney Filho, e da Defesa, Raul Jungmann, assinaram a Portaria 582. A cerimônia aconteceu na Delegacia da Capitania dos Portos em São Sebastião, no Litoral Norte.

“São mais de 30 anos de luta e estar à frente deste processo é uma honra. O processo de visitação será gradativo. Antes, será feito o cadastramento das empresas que vão operar as embarcações”, explica a chefe do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) Alcatrazes, Kelen Leite. Existe proposta de, futuramente, a área ser aberta a embarcações particulares. Isso vai depender dos resultados desta primeira fase.

O presidente do ICMBio, Ricardo Soavinski, destacou que a liberação do arquipélago, e em especial da Ilha de Alcatrazes, para visitas vai cooperar com a conscientização sobre a importância da preservação ambiental. “Isso fortalece a ideia de que temos de proteger o meio ambiente. Além disso, vai gerar renda. Quando você organiza bem a visitação, a biodiversidade é valorizada”, defende Soavinski.

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