Acne severa sem tratamento pode resultar em depressão em jovens

Especialistas comentam como lidar com o problema e se tratar corretamente

10/09/2018 - 07:20 - Atualizado em 10/09/2018 - 17:25

Pesquisas revelam que acne atinge cerca de 56,4% dos brasileiros (Foto: Divulgação)

A cena é comum e acontece com quase todo adolescente: ao acordar e lavar o rosto, ele se olha no espelho e se depara com uma "visitante" bem indesejável: a acne, ou espinha.

Segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), a acne é uma condição de pele que surge quando os folículos capilares são obstruídos por secreções gordurosas e células mortas da pele. Essa obstrução inflama as glândulas sebáceas, provocando as lesões que tanto incomodam. A condição é mais grave na adolescência, pois o desenvolvimento dos hormônios sexuais faz "explodir" a produção dessas secreções.

Pesquisas da SBD revelam que a acne é o problema dermatológico mais comum do Brasil, atingindo cerca de 56,4% das pessoas, sendo ainda a maior razão pela qual os brasileiros vão aos consultórios de médicos dessa especialidade - uma ótima notícia, segundo a médica dermatologista Maria Augusta Bolzan.

"A orientação médica é fundamental para qualquer grau de acne, pois lesões mais graves podem deixar marcas. Para tentar evitá-las, o melhor a se fazer é procurar um médico logo no inicio do surgimento das lesões, mesmo que pareçam leves, e assim iniciar o tratamento correto".

Ou seja: as acnes não são todas iguais. Maria Augusta explicou para A Tribuna On-line as diferenças entre os tipos. Confira:

  • Grau I: acnes onde só se tem a presença de comedões, os populares cravos.
  • Grau II: é quando já há a presença de pústulas, ou seja, lesões com pus.
  • Grau III: acontece quando existem nódulos, quer dizer, lesões caracterizadas pela inflamação e que se expandem por camadas mais profundas da pele, podendo levar à destruição de tecidos, causando cicatrizes.
  • Grau IV: é quando as pústulas se tornam cistos e abscessos, que são maiores e muito inflamados; vão para camadas mais profundas da pele, causando cicatrizes e muita dor. 

Além das marcas físicas

Mas engana-se quem pensa que os efeitos colaterais da acne ficam apenas na pele: eles também afetam o psicológico - especialmente nos jovens. A própria SBD alerta que a espinha, quando surge antes da fase adulta, pode tornar seu portador em alguém "inseguro, tímido, deprimido, infeliz, com rebaixamento da autoestima e com consequências sérias que podem persistir pelo resto da vida".

Isso ocorre pois a adolescência já é, por si só, um período da vida com muitas mudanças, no corpo e no comportamento. Além de conviver com a explosão de hormônios que muda tudo em si, precisa lidar com a convivência entre outros jovens, o que leva à necessidade de se sentir aceito. É tanta pressão que em alguns casos, corre-se o risco de os jovens não conseguirem segurar a barra sozinhos.

Foi o que mostrou, por exemplo, um levantamento feito esse ano. Pesquisadores analisaram uma plataforma médica britânica e, a partir de informações de 134 mil homens e mulheres com acne e 1,7 milhão sem a condição, concluiu que quem as possuía eram 63% mais propensos a ter depressão no ano em que começaram a ter as erupções.

Mas os alertas não são recentes: outro estudo, em 2010, liderado por pesquisadores noruegueses que entrevistou quase 4 mil jovens de 18 a 19 anos, já alertava: meninas com acne grave tinham duas vezes mais tendências suicidas que aquelas sem espinha ou com acne leve, sendo que a propensão aumentava para três vezes mais entre os meninos.

Ajuda psicológica é opção

Para a psicóloga Jocylett Whately, um dos maiores obstáculos enfrentados pelo jovem com acne severa é a dificuldade de se encaixar em grupos de afinidade. Isso acontece porque o fato de se sentir diferente mina sua autoestima, prejudicando sua aproximação a esses grupos.

"A adolescência já é, por si só, uma fase difícil, de mudanças, desafios e conquistas. Por isso, os pais devem ficar muito atentos a qualquer mudança de comportamento dos filhos", afirma.

Outra questão fundamental a se observar de perto é como é a vida escolar do jovem com a condição, devido a possíveis situações de bullying que possam estar sofrendo silenciosamente. "Isso vai piorar muito a sua situação emocional", alerta Jocylett, que recomenda aos pais manterem contato contínuo com a equipe escolar (direção, coordenadoria, professores) para detectar rapidamente qualquer sinal de que o bullying esteja ocorrendo.

Cabe aos pais, ainda, estarem presentes na vida do jovem com acne severa. Só assim será possível diferenciar qualquer sinal de tristeza do início de uma possível depressão, por exemplo. Uma boa medida preventiva é elevar a autoestima do adolescente com pequenos gestos, segundo a psicóloga: "Valorizar suas qualidades com palavras positivas, sempre elogiá-lo, nunca brincar ou apelidá-lo em fazendo referência à sua aparência", exemplificou.

No entanto, quando nenhum desses esforços positivos fizer efeito, e a família perceber que o jovem não consegue lidar sozinho com sua imagem, se afastando do meio social, de sua família e amigos, é preciso acender o sinal amarelo: é hora de pedir ajuda especializada. Jocylett deu algumas dicas de sintomas que alertam para um possível diagnóstico de depressão:

  • Perda de interesse nas atividades do dia-a-dia
  • Indiferença ao afeto
  • Fortes oscilações de humor
  • Sono constante sem motivo
  • Tristeza constante sem motivo

Sem desespero

A situação pode parecer grave, mas tem solução. Além de oferecer todo o apoio ao jovem com acne, é importante garantir a ele o mais importante: tem tratamento. E é importante que ele procure um dermatologista assim que surgir o problema, sem deixar o quadro piorar. Afinal, sempre é melhor prevenir do que remediar.

Maria Augusta explica que a gravidade da acne é medida com exames laboratoriais periódicos e acompanhamento. Além disso, afirma que quando seu grau é mais severo, poderá ter que ser tratada com medicamentos orais, como antibióticos ou isotretinoína. "Esta última, inclusive, é disponibilizada pela rede pública sendo, portanto, acessível a todos", esclarece.

Mas fica o alerta: todo medicamento só pode ser utilizado após uma avaliação minuciosa do paciente, pois cada tipo de acne reage de forma diferente a um princípio ativo específico.

A isotretinoína foi a salvadora, por exemplo, da estudante Daiane Lima, de 18 anos. Ela mora em Carapicuíba, no interior de São Paulo, e utilizou o Youtube para divulgar a evolução dos seus cinco meses de tratamento, que foi feito em 2016. Somados, os vídeos acumulam mais de 180 mil visualizações e centenas de comentários de jovens, que buscam informações sobre o medicamento e seus efeitos colaterais.

Daiane divide com os seguidores do seu canal, o Hey Beautiful Curls, todos os detalhes sobre o tratamento. Entre eles, os mais conhecidos: a "fase de piora", que é um aparente agravamento das acnes antes de a melhora começar a ficar visível; e o grande ressecamento da boca e pele causado pelo remédio. Ela também reforça, continuamente, a importância de se manter hidratado e do uso do protetor solar. Fazer o tratamento corretamente foi fundamental para o seu sucesso: a melhora na pele de Daiane foi enorme. 

Maria Augusta concorda com a influência do estilo de vida na gravidade da acne, mas pondera: não é algo decisivo. "Ainda se discute muito se a alimentação pode influenciar no aparecimento ou agravamento da acne, mas parece sim ter um papel de piora em alguns indivíduos predispostos. Já exposição em excesso à luz artificial pode estar relacionada às manchas na pele, principalmente nas áreas mais inflamadas, que são mais suscetíveis". Ou seja, todo cuidado é pouco para que o tratamento seja bem feito e dê certo!

Durante o tratamento

Além de fazer o tratamento corretamente, outros cuidados são recomendados a quem tem acne severa e não quer que a cura demore mais do que o necessário. Um deles é sempre manter a higiene com a pele, usando os produtos recomendados pelos dermatologistas. Aí, se encaixam sabonetes especiais ou mesmo tônicos, que ajudarão a pele a não sentir demais o ressecamento que geralmente o tratamento provoca.

Além disso, um bom filtro solar pode ajudar a evitar que o sol cause manchas na pele, principalmente do rosto. Mas recomenda-se se informar sobre qual a melhor marca para se usar.

Já para a noite, alguns tópicos são bons para complementar o tratamento dos antibióticos ou da isotretinoína. Exitem vários no mercado, à base de vários princípios ativos como o peróxido de benzoíla, ácido retinoico ou ainda o ácido salicílico. O dermatologista é quem saberá qual o melhor para cada caso.

Outra aliada, essa sim de uso bem incentivado, é a maquiagem corretiva. A doutora Maria Augusta recomenda: "É uma ótima opção! Tanto pela melhora estética, quanto por reforçar a proteção à luz visível". Ela completa ainda, dizendo que o uso é livre. "Lavando bem o rosto antes de dormir, tá liberado".

O "pós" também é importante

É importante lembrar que o tratamento da acne severa não é como uma mágica, onde basta fazê-lo para que nunca mais seja necessário tomar nenhum cuidado. Muitas vezes, é necessário repensar a rotina e alguns hábitos de vida para prevenir a volta da "inimiga".

Para saber um pouco mais sobre tratamento pós-acne, a Reportagem conversou com Loma Sernaiotto, uma publicitária de Santos que vive há três anos em Seul, capital da Coréia do Sul. Ela conseguiu se curar das acnes graves com que convivia e, desde então, passou a cuidar da pele e estudar cosmetologia orgânica. Tudo o que ela descobre e experimenta é publicado no seu blog, o Sernaiotto.

Durante muito tempo, Loma sofreu silenciosamente com as suas acnes, escolhendo tentar esconder o problema a enfrentá-lo. "Eu editava minhas fotos para esconder as espinhas e evitava usar camisetas brancas, pois elas manchavam de sangue das acnes que estouravam nas costas. As inflamações eram grandes, doíam demais", conta.

Loma conviveu por anos com suas acnes, até que em
2013 ela decidiu dar um basta (Foto: Arquivo pessoal)

Mas, em 2013, ela decidiu mudar a situação. Procurou uma esteticista e fez um tratamento por meses, que surtiu efeito. Em seguida, continuou cuidando da pele com produtos do mesmo princípio ativo, o ácido acetilsalicílico, e as manchas das espinhas que ela estourava também saíram. "Senti um alívio. Nem sei se é a palavra. Comparei fotos, e chorei vendo a diferença", lembra ela. 

Após a cura, Loma passou a tomar cuidados que antes não tinha: deixou de usar maquiagens pesadas e começou a tratar a pele. Mas foi na Coreia do Sul que ela, realmente, levou isso a sério. "Aqui as mulheres se previnem contra tudo: sol, envelhecimento, acne. Elas impedem que os problemas apareçam", comenta. 

Desde então, a publicitária aprendeu a "ler" de que a sua pele precisa. Segundo ela, testar produtos é importante, pois o tempo passa e as necessidades da pele também mudam. Além disso, alguns cuidados são importantes para evitar a volta da acne, especialmente na alimentação. "Controlo as frituras, a açúcar e o leite, mas sem paranoia. Dá pra comer de tudo. O período pré-menstrual também é um problema", revela.

Além disso, a receita é simples: hidratação, proteção solar e limpeza. "Tem sido o meu dia a dia. De vez em quando alguma acne pode surgir, mas nunca mais do jeito que era", conclui.

  • Ela não é "coisa da idade"; pode deixar lesões e tem cura
  • É totalmente fundamental procurar orientação médica para tratar a acne
  • Soluções como borra de café ou pasta de dente não fazem bem!
  • Nem todo cravo vira espinha, mas não o ignore
  • O remédio para acne do seu amigo pode não funcionar em você
  • Pele oleosa tem mais chances de ter acne; fique de olho
  • Não, atividade sexual não causa espinha
  • Seus hormônios e genética são os maiores causadores das suas espinhas. Sem neura!
  • Açúcar em excesso agrava a acne. Que tal um chocolate 70% cacau?
  • Não cutuque suas espinhas, se não quiser ficar com cicatrizes 
  • Não se se sinta mal por causa das acnes; elas não dizem nada sobre quem você é!
  • Se a tristeza chegar mesmo assim, não tenha medo de pedir ajuda

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