"A casa agora está um silêncio só", relata pai de jovem agredido em bar

Lucas Martins de Paula, de 21 anos, está em coma induzido há cinco dias, na Santa Casa; seguranças são acusados de violência

12/07/2018 - 21:20 - Atualizado em 12/07/2018 - 21:26

Rapaz é estudante de Engenharia Elétrica
(Foto: Arquivo Pessoal)

“O Lucas sempre foi um menino muito brincalhão e agora, a casa está um silêncio só, um vazio muito grande”. O relato emocionado é do inspetor de qualidade Isaías de Paula, de 52 anos, pai do universitário Lucas Martins de Paula, de 21 anos, espancado por seguranças no Baccará Bar & Grill, no Embaré, em Santos, na madrugada do último sábado (7).  

Desde o episódio, o jovem, estudante de Engenharia Elétrica, está internado em coma induzido na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Santa Casa. Por conta dos ferimentos, Lucas passou, nos últimos dias, por dois procedimentos operatórios de drenagem de hematoma intracraniano (coágulo de sangue no cérebro). 

“O quadro dele é estável, apesar de grave. A sedação é profunda e o objetivo dos médicos é diminuir essa medicação aos poucos. Por enquanto, como a pressão intracraniana ainda está oscilando muito, estamos sem previsão de quando ele sairá do coma”, comenta o pai do rapaz, que torce para que em breve o caçula possa retornar para casa. 

À Reportagem, Isaías relatou que assim como todo pai, no dia em que Lucas avisou que sairia com os amigos, pediu para que o filho ficasse em casa. “Era dia de jogo e como o Brasil tinha perdido, falei pra ele não sair, mas ele disse que só sairia à noite. Umas 18h levei ele na casa de um amigo e, de lá, saíram para esse bar. Foi a última vez que vi o Lucas acordado”. 

O universitário está no quarto ano de Engenharia Elétrica. Seu primeiro contato com a profissão ocorreu ainda na adolescência, quando passou a frequentar um curso técnico na mesma área. Foi então que surgiu a paixão pela profissão. 

“Ele já estava com uma MEI (microempresa), prestando pequenos trabalhos nessa área. Ele é tão dedicado que há uns 15 dias tinha começado um curso online de programação, voltado para a sua área de atuação”, conta com orgulho o pai do rapaz. 

Força-tarefa da Prefeitura após o caso intimou bar a fechar por irregularidades (Foto: Fernanda Luz/AT)

Irmã recebeu a notícia 

Na noite em que Lucas foi brutalmente agredido por funcionários da casa noturna, Isaías conta ter recebido a triste notícia por meio da filha mais velha, Thays, de 28 anos, que não mora mais com eles.  

“A gente que tem filhos, sempre que eles saem, têm medo de que algo aconteça. E o Lucas sempre teve o hábito de nos avisar para onde ia. Sempre que chegava, mesmo quando já estávamos dormindo, ia na porta do quarto nos avisar que havia chegado, que estava tudo bem. Nesse dia, o susto foi muito grande”. 

Após a agressão, que teria envolvido pelo menos sete funcionários da casa, amigos do universitário chamaram o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que removeu o rapaz para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Central. 

“Quando cheguei ao hospital, o Lucas já estava entubado. Ele estava muito machucado. Tinha marcas na região do peito do abdômen, mas principalmente na cabeça. Ficamos muito triste de ver ele daquele jeito e por ver eles (casa) denegrindo a imagem do meu filho. Ele não é uma pessoa ruim. É um rapaz carinhoso, brincalhão, que estuda. Foi uma atitude truculenta dos seguranças, pessoas despreparadas para trabalhar”, lamentou. 

Diferença em comanda 

Amigos do universitário relataram que a confusão teria iniciado ainda no interior da casa, quando Lucas questionou uma diferença de R$ 15, referente a uma cerveja long neck, lançada em sua comanda. 

“Eles estava com dois casais e na hora que foram acertar a conta, o Lucas estava em uma área reservada da casa, não sei se um camarote. Chamaram ele para falar dessa diferença”. 

Na sequência, um dos garçons da casa foi chamado e confirmou o pedido. Após o desentendimento, um dos seguranças da casa foi chamado. “A gente não sabe quem começou a agredir o Lucas, só sabemos que a confusão começou ali dentro do estabelecimento”. 

Enquanto os amigos do universitário realizavam os pagamentos, incluindo o do jovem agredido, funcionários da casa o levaram para o lado de fora do bar. Lá, pelo menos sete homens terciam cercado o jovem. As agressões envolveram socos e chutes. 

“Os meninos, amigos dele, também foram agredidos. Ainda deixaram o meu filho jogado lá fora. Falaram para jogar num Uber e tirar do local”. O socorro, segundo conta o pai, foi acionado pelos próprios amigos do rapaz, que após a agressão, ficou desacordado. 

Investigação 

O episódio foi registrado na Central de Polícia Judiciária (CPJ), como “lesão corporal dolosa” (agressão), mas é investigado pelo 3º DP de Santos. Responsável pelo inquérito policial do caso, o delegado Luiz Henrique Ribeiro Artacho avalia o conjunto de provas para decidir se pede ou não a prisão temporária de três seguranças da casa noturna.

Os funcionários foram reconhecidos pelos amigos do universitários. Um deles imobilizou Lucas, enquanto outro o nocauteou com um soco no rosto. O terceiro é chefe da segurança, que presenciou a violência e nada fez para impedi-la, embora tivesse o dever legal de agir para evitá-la. 

Computadores da casa já foram apreendidos e passarão por perícia. O objetivo é detectar eventual filmagem que possa ser útil às investigações. Força-tarefa da Prefeitura também intimou o bar a fechar, na última terça-feira (10), por irregularidades. 

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