70% dos médicos já sofreram agressão no trabalho, diz associação

Para a APM, casos decorrem da falta de políticas públicas eficazes nas áreas de segurança, educação e saúde

12/09/2018 - 11:32 - Atualizado em 12/09/2018 - 11:32

Alguns fatores precipitam casos de agressão, como longa espera por atendimento (Foto: Nirley Sena/AT)

Pesquisa divulgada nesta terça-feira (11) pela Associação Paulista de Medicina (APM) aponta que sete em cada dez médicos já sofreram algum tipo de violência no ambiente de trabalho. A entidade cita ainda que menos da metade das unidades médicas (46,2%) conta com equipes de segurança.

Os dados reforçam que os casos de ameaças e agressões contra médicos já fazem parte da rotina no atendimento a pacientes em postos de saúde, hospitais e consultórios. Para a organização de classe, a violência contra a categoria decorre da falta de políticas públicas eficazes nas áreas de segurança, educação e saúde.

A imensa maioria dos profissionais alega sofrer agressões verbais (70,87%), como xingamentos e ofensas. Ataques físicos correspondem a 15,7% dos casos, enquanto truculência psicológica (ameaças) foi citada por 12,9%.

Conforme o levantamento, a maioria dos casos foi registrada em unidades públicas: 70,87% se deram em serviços do Estado. Apenas 22,4% dos registros tiveram como local complexos hospitalares privados e outros 6,72% ocorreram em consultórios particulares.

Demora no atendimento e diagnóstico contraditório são os principais motivos. Um em cada três médicos foi agredido devido ao tempo de espera. Já em 21,29% dos casos a violência teve como motivação eventual discordância com o atestado dado pelo profissional.

A categoria indica que os familiares são os principais atores da animosidade (50,42%). E os enfermos foram os agressores em 43,42% das vezes. 

Gargalo

Para o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), os médicos são submetidos a condições precárias, reflexo do gargalo no sistema público. Isso gera filas e sobrecarga em unidades de urgência e emergência, o que favorece a violência.

“Os médicos são vistos como responsáveis pelo atendimento em todas as dimensões dos serviços de saúde. Ocorre que também atribuem a nós, equivocadamente, mazelas provocadas por má administração, falta de recursos e o descompromisso de uma parcela de maus políticos e gestores. Do jeito que está organizado o SUS, seremos sempre nós, médicos, os alvos”, afirma o presidente da APM, José Luiz Gomes do Amaral.

Ele acredita que um dos motivos que leva a esse cenário é o distanciamento na relação entre médicos e pacientes. Afirma que episódios de violência se tornaram comuns com a tentativa de desviar para os profissionais a insatisfação que a sociedade possui com as falhas da assistência. “É assim que eles tentam esconder a incompetência e se eximir de seus deveres”, completa.

Encaminhamento pífio

O atual estudo, entretanto, resume que apenas uma pequena fração dos profissionais agredidos fizeram denúncias. Dos médicos que relataram ser vítima de violência, apenas 59 tiveram algum encaminhamento por parte dos órgãos que receberam as queixas.

Em alguns casos foram abertos inquéritos, em outros a resolução aconteceu trocando o profissional responsável pela assistência do paciente. E 7% dos infratores sofreram algum tipo de penalidade – sendo apenas advertências ou multas.

“São consequências diretas dos problemas enfrentados pela população, que tem a expectativa de atendimento frustrada”, garante o diretor da APM, Florisval Meinão. Para ele, os números seriam maiores se fossem ouvidos os demais trabalhadores do setor, como os enfermeiros.

LEIA MAIS

<