Show de criatividade e sensação de dever cumprido marcam Carnaval 2018

Escolas de samba do Grupo Especial encerraram segunda noite de desfiles na Passarela do Samba

04/02/2018 - 06:58 - Atualizado em 07/02/2018 - 14:55

Amazonense narrou na avenida a história da escrava Anastácia (Foto: Vanessa Rodrigues/AT)

Oito escolas se apresentaram entre a noite de sábado (3) e a madrugada de domingo (4) no último dia do Carnaval Santos 2018. Todas, sem exceção, ressaltaram a alegria redobrada e a sensação de dever cumprido após a redução de verba às agremiações. 

Teve enredo de batuque, de história do Brasil passando por personagens da escravidão à cultura nordestina, entre outros. Algumas agremiações chamaram a atenção por se diferenciarem  com figurinos de pedrarias e penas, como a Amazonense, Sangue Jovem e Brasil. No restante, a festa teve reaproveitamento de materiais de escolas de outros Carnavais e muita criatividade para fazer bonito na passarela. 

A situação financeira difícil fez sobrar também para a torcida, que só encheu a passarela Dráusio da Cruz depois das 23h30, deixando metade da festa mais esvaziada. Apesar disso, teve gente que chegou com mais de duas horas de antecedência para guardar lugar, afinal, este é  segundo ano de Carnaval sem arquibancada e, quem chegava depois, via festa mais longe.   

Mordomia mesmo só para os moradores dos prédios vizinhos, que curtiram o próprio camarote. Outros, também numa espécie de espaço VIP, não estavam tão confortáveis assim, como Wando Rabelo, motorista de 55 anos e Selma Heck, de 62. Os dois, assim como outros, estavam em cima do muro que divide a rua e o residencial Santos, ao lado da entrada da passarela do samba. "Antes a Prefeitura dava convites para gente que mora aqui do lado. Esse ano não teve, então tivemos que vir para cá", contou o motorista, em cima do muro. 

O prefeito de Santos, Paulo Alexandre Barbosa, sabe que as escolas lamentaram a situação financeira para o desfile e destacou que esse foi o Carnaval da criatividade. "Esse ano, a grande vitória foi manter o desfile das escolas de samba. Muitas cidades do Brasil inteiro cancelaram  festa e, aqui em Santos, por se tratar da maior festa popular brasileira que é o Carnaval, resolvemos fazer o esforço para manter, mas de acordo com a realidade da Cidade, não fazendo nada que a gente não possa cumprir. Fizemos uma festa mais modesta, mais realista, mas mantivemos o evento".

Real Mocidade ficou com a missão de abrir a noite de desfiles (Foto: Vanessa Rodrigues/AT)

Crítica, história e festa nos enredos

Somente escolas do grupo especial se apresentaram no último dia. Na ordem, entraram na passarela do samba Real Mocidade Santista, União Imperial, Brasil, Sangue Jovem, Mocidade Amazonense, Vila Mathias, Unidos dos Morros e X-9, a campeã 2017.

A primeira escola a entrar na avenida sábado foi a Real Mocidade, com 15 minutos de atraso, mas ostentando o orgulho de cantar o símbolo da escola: o leão, no enredo Leão da África à Nossa Realeza.

A comissão de frente, coreografada por Juscelino Paiva, foi um dos grandes destaques. Levou à avenida 12 componentes que representaram os leões do Xangô. Outros leões fizeram parte da apresentação, como o Leão do Mar, em alusão ao Santos Futebol Clube, o Leão da Caneleira, também sobre o futebol mais regional, o do bairro da Caneleira, além da homenagem ao som do Maracatu, dança folclórica de origem africana. 

Musa da União Imperial, Sheila Carvalho também participou de desfile (Foto: Vanessa Rodrigues/AT)

A segunda a encantar o público foi a União Imperial, penúltima colocada no último Carnaval. Mostrou na avenida que conseguiu corrigir as falhas dos últimos anos e disputar de igual para igual. A agremiação colocou a alma do samba na avenida, contando de forma didática a história do samba e a travessia do batuque pelo mar. Até para dar destaque ao que cantaram, a bateria fez alusão aos tambores africanos e surpreendeu os foliões  com uma paradinha comandada pelo mestre Fábio Renato, conhecido como Manguinha.

A terceira da noite, a Brasil, assustou. Entrou na avenida com 23 minutos de atraso. A agremiação inicialmente resolveu fazer mistério sobre os motivos que levaram ao atraso. Mas não houve como esconder: minutos antes de o relógio começar a marcar o tempo, ainda não havia carro alegórico na entrada da concentração.

Quando o carro carro abre-alas entrou na avenida, estava com a asa da arara, que era o destaque, danificada. No fim do desfile representantes da escola culparam a organização do desfile, contando sobre a demora para subir os componentes nos carros com os guinchos e sobre uma parada em uma blitz que teria atrasado os componentes. Além disso, o carro teria tido problemas de manobra antes de entrar. Ainda assim a apresentação foi emocionante, com críticas à atual situação econômica e política do Brasil  e um carro emblemático, com um homem com as mãos estendidas ao céu.

Bravura nordestina foi tema do samba-enredo da Sangue Jovem (Foto: Vanessa Rodrigues/AT)

Logo depois veio a Sangue Jovem, que não poupou adereços para celebrar os nordestinos. Com o enredo Em vida de viajante: A Bravura da Peste na São Paulo de Nóis Tudim. Mesmo com um orçamento de Carnaval menor e reaproveitamento de materiais de outros Carnavais, o que se viu na avenida foi um desfile coeso com o tema, mas muito rico em detalhes. Pedrarias e penas utilizadas nas fantasias dos foliões chamaram a atenção. 

A Amazonense deu sequência à festa santista, colocando na avenida a vida da escrava Anastácia, uma das mais importante figuras femininas da história negra. Quinta escola a desfilar pelo Grupo Especial, a agremiação repetiu o feito do último Carnaval, levando à avenida um desfile quase impecável, com destaque também para as fantasias usadas pelas passistas, ricas em pedrarias e penas.

O único momento que a escola demonstrou nervosismo foi na saída de um dos carros alegóricos, que precisou ser parado antes da linha final de julgamento. Indo na diagonal, ele poderia bater na coluna de saída da passarela. Mas não houve falha. 

Na antepenúltima a desfilar, a Vila Mathias, vice-campeã do último Carnaval esperou 15 minutos para começar o desfile e concluiu com 53 minutos - dois a menos que o limite. Para disputar o título este ano, a agremiação trouxe à avenida um tema bastante polêmico, sugerido pelo historiador e carnavalesco, Alex Santos: a história de Cananeia, que pode ter sido a primeira cidade brasileira descoberta pelos portugueses.

E para que a história da cidade, localizada no Vale do Ribeira, pudesse ser resumida em pouco menos de uma hora de desfile, a escola, mesmo com poucos recursos, abusou da criatividade. Logo na comissão de frente, uma surpresa aos foliões. Além dos bailarinos que compõem o setor, uma oca indígena simbolizando os guardiões da floresta, foi levada à avenida.

Unidos dos Morros decidiu reeditar samba enredo nos 40 anos da escola (Foto: Vanessa Rodrigues/AT)

A Unidos dos Morros, que veio na sequência, surpreendeu. Colocou na avenida a reedição de um samba enredo composto há 40 anos O Bem-me-quer Malmequer dos Grandes Amores. 

Logo na comissão de frente, mais uma atração que chamou a atenção. Para falar de amor, bailarinos representaram a dança da sedução e a traição da serpente, com Adão e Eva na avenida. 

Fechando o desfile, a atual campeã X-9 falou dos nordestinos. Atual campeã,  agremiação não abusou de pedrarias e penas, mas levou fantasias com tecidos de muito brilho e alegorias articuladas.

Todas as escolas serão avaliadas por 27 jurados nos quesitos bateria, harmonia, evolução, enredo, samba de enredo, fantasias, alegorias e adereços, mestre-sala e porta-bandeira e comissão de frente. 

A apuração das notas está marcada para terça-feira (6), ao meio-dia, no Teatro Municipal.

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