Síria mais uma vez

15/04/2018 - 21:58 - Atualizado em 15/04/2018 - 22:07

Edilson Adão Candido da Silva é autor de Oriente Médio: a gênese das fronteiras (Zapt) e Geografia em Rede (FTD) e mestre em ciências pela USP.

Apesar da guerra de palavras entre Trump e Putin que antecedeu aos ataques à Síria na sexta-feira à noite, a investida militar norte-americana (com apoio de Reino Unido e França) não deixou de causar certa estranheza.

Os ataques acontecem em um contexto de jogo de versões entre os dois lados envolvidos na sangrenta guerra civil. Há indícios de que efetivamente houve lançamento de armas químicas contra civis na cidade de Douma: os Estados Unidos acusam Bashar al Assad de ser o responsável pelos ataques com cloro à população, a Síria afirma que os rebeldes fabricam relatos mentirosos, enquanto que a Rússia rebate informando que especialistas investigaram as ruas de Douma e que os alardes são falsos e uma armação britânica. O Irã informa que a Síria está em vantagem na guerra contra os rebeldes e não cometeria esse erro infantil. Repete-se a velha máxima: na guerra, a primeira vítima é a verdade.

Douma era o último bastião da região de Goutha Oriental, próxima à Damasco sob controle dos rebeldes até ser reconquistada pelas tropas oficiais de Assad. Esse é o quadro local do presente momento desse estúpido confronto que já perdura por sete anos e produziu quase meio milhão de mortes. Mas é claro que não é o cenário local quem explica tudo; devemos ampliar o leque ao contexto regional e principalmente global. 

O Oriente Médio atravessou todo o século XX e adentrou ao XXI como um dos principais pontos nevrálgicos do mundo. Seja pela importância energética por guardar as maiores riquezas mundiais de petróleo, seja pela irradiação cultural em ser o berço das três maiores religiões monoteístas do planeta. Os atores envolvidos são muitos e complexos e a atual guerra não é fácil de entender, muito menos de resolver.

Num primeiro plano, o confronto direto se dá entre o governo sírio e os obscuros rebeldes apoiados pelo ocidente. Considerar o quadro confessional interno da Síria marcado por forte disputa entre a minoria alauíta que ocupa o poder há décadas e a maioria sunita alijada dele é pedra angular para a compreensão dos fatos. Há ainda xiitas e cristãos que se postam ao lado de Assad e temem que a maioria sunita alcance o poder; há relatos de que “os cristãos rezam por Assad”. Dentre os rebeldes sírios há diversos grupos extremistas sunitas; os mais conhecidos, o agora enfraquecido Estado Islâmico e a Frente al Nusra. Bom lembrar que na oposição a Assad tem de tudo: de liberais progressistas exilados na França a violentos grupos jihadistas; não é uma oposição homogênea.

Some-se a isso os atores regionais. Turquia, Irã e Arábia Saudita estão diretamente envolvidos na guerra, cada qual defendendo interesses próprios. O grande temor turco é o sucesso de um Estado Curdo que a Europa se esqueceu de desenhar após a Primeira Guerra Mundial. Irã e Arábia Saudita travam um duelo particular dentro da Síria, cada qual defendendo seu interesse na porta do Golfo. E é bom lembrar que a maior potência militar do Oriente Médio e uma das maiores do Mundo, Israel, acompanha atentamente as movimentações; nesse caso, como sempre, o interesse maior é garantir suas aquisições territoriais.

Outro aspecto regional a se considerar: Estados Unidos e Israel preocupam-se em demasia com o eixo xiita que começa em Damasco com o alauísmo, uma derivação xiita, passa pelo Sul do Líbano (com o Hezbhollá), atravessa o Iraque sob governo xiita atualmente e termina em Teerã, a capital da Revolução Islâmica.

Na esfera global, os dois herdeiros da Guerra Fria parecem repetir uma tática conhecida já utilizada na ordem bipolar. Enquanto todos temiam por um confronto que nunca aconteceu, as potências capitalista e socialista dividiam o mundo entre si e compartilhavam o poder. Putin e Trump não estão muito distantes disso nos dias de hoje. Ou alguém acha que para realizar esse ataque de ontem o presidente norte-americano não “combinou com os russos?”

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