Em Cananeia, ex-ativista fala sobre a sua prisão

Ex-ativista italiano pode ter sua condição de refugiado revogada e ser extraditado

12/10/2017 - 11:37 - Atualizado em 12/10/2017 - 12:11

Battisti voltou para Cananeia no domingo após deixar a cadeia em Corumbá (Foto: Divulgação - Rinaldo Rori)

Dione Aguiar*

O ex-ativista de esquerda e acusado de terrorismo na Itália Cesare Battisti chegou em Cananeia, no Vale do Ribeira, Litoral Sul de São Paulo, no começo da semana (domingo à noite). Dormiu na casa de um amigo. E na segunda logo cedo foi de bicicleta até a rua Francisco Chagas, número 203, no centro da Cidade. A casa é de amigos de São Paulo. O endereço é o mesmo que informou à Justiça Federal quando deixou a cadeia em Corumbá (MS).

Battisti foi detido no último dia 4 por equipes da Polícia Rodoviária Federal em um táxi boliviano. Ele foi flagrado com US$ 6 mil e € 1.300, segundo informações da Polícia Federal, sem a declaração obrigatória que deve ser feita à Receita Federal para transportar altos valores.

Depois deste episódio, o presidente Michel Temer decidiu revogar a condição de refugiado de Cesare Battisti e extraditá-lo caso o Supremo Tribunal Federal (STF) não dê a ele um habeas corpus preventivo. Antes de assinar o decreto, o presidente vai aguardar o julgamento do Supremo do pedido feito pela defesa de Battisti. 

Em Cananeia, aparentemente tranquilo, Battisti falou sobre os últimos dias. Segundo ele, a ideia era passear no Mato Grosso do Sul, pescar no Pantanal com mais dois amigos, e aproveitar para fazer compras num shopping chinês, já na Bolívia. O dinheiro, aproximadamente R$ 23 mil, seria dele e dos dois amigos “Ninguém sai pra viajar sem dinheiro nenhum, nem posso dizer se era tudo isso mesmo, porque no momento da prisão fizeram um montante”, disse Battisti.

O ex-ativista relatou os momentos que antecederam sua prisão, e disse que tudo não passou de uma “armação”. “A gente foi pescar, eu, o Vanderlei e o Paulinho. Nós iríamos até um shopping comprar coisas de couro, vinhos e material de pesca. Tudo isso eles já sabiam, a gente falou. Por isso eles já estavam preparados para pegar a gente”, afirma.

Battisti ainda contou que não resistiu à prisão e que ficou em uma cela sozinho. “Foi muito feio. Eu fiquei na delegacia por três dias. Não podia ficar lá. Uma cela sem luz, no chão, sujo e fedido. Tiraram tudo de mim. Consegui uma toalha no final. Tinha provocações. Eles estavam em uma espécie de euforia. Quando chegou o habeas corpus, parecia um enterro. Todo mundo com cara feia”. 

Durante a entrevista Battisti mostra indignação, diz que não tinha a intenção de fugir do Brasil e fala sobre sua condição atual como imigrante. Reforça que não estava fugindo, pois tem direito de sair do País quando quiser. “Eu sou um imigrante com visto permanente no Brasil. Eu posso sair desse país quando e como quiser. Eu tenho todos os direitos que tem o brasileiro, não sou refugiado. Sou um imigrante. Isso é uma mentira”.

Ainda contendo a indignação ele se defende. “Eu estava fugindo de quê? O único país onde estou protegido é aqui. Não conheço ninguém na Bolívia. O decreto do ex-presidente Lula não pode ser revogado, e depois de cinco anos acabou o prazo. Estou em prescrição, não tem como. Se eles estão achando que podem me mandar para a Itália, vai ser de forma ilegal”.

Armadilha

Battisti insiste na teoria de que havia uma armadilha para pegá-lo. Isso porque a abordagem dos policiais foi feita a 200 km da fronteira. Durante a entrevista, ele reforçou que está há 13 anos no País e nunca tentou sair.

Sobre sua condição (decreto que o mantém no País) e uma possível mudança com o Governo Federal atual Battisti acredita que não terá problemas. Diz que hoje vive dos livros que escreve e conta com a ajuda dos amigos para se manter financeiramente. Está como hóspede na casa de um casal de amigos e não pretende ir embora da Cidade. Uma prova disso é a casa que está construindo em um bairro de Cananeia.

“Estou construindo uma casinha em Cananeia, mas vou ter que esperar. Apesar de algumas manobras meio estranhas para me mandar para a Itália”, conclui. A casa que Battisti está construindo, no Bairro do Carijó,  já está com alicerce pronto e a estrutura levantada. O imóvel tem seis cômodos.

Italiano constrói casa de seis cômodos em Cananeia (Foto: Divulgação/Rinaldo Rori)

Concluindo e tentando aliviar a tensão, Battisti afirma que daqui para frente vai tocar a vida, recomeçar, que sabe que a Itália está fazendo pressão para que ele volte, mas que vai retomar a vida em Cananeia. “Tenho um filho pequeno no Brasil que depende de mim, estou escrevendo um outro livro e não pretendo deixar esta Cidade e nem o País”.

(*)Dione Aguiar é repórter da TV Tribuna no Vale do Ribeira

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