Conexão Portugal: O turismo cresceu. E também mudou

Nesta edição da coluna, Luiz Plácido fala sobre mudanças e barateamento do turismo no país

20/09/2018 - 15:03 - Atualizado em 20/09/2018 - 15:15

Turista atual privilegia uma viagem rápida e barata, com direito a muitas selfies (Foto: Pixabay)

O número de turistas cresceu substancialmente com a chegada dos voos low cost, que eliminam custos derivados de serviços tradicionais oferecidos aos passageiros, com base numa simplicidade que permite à companhia oferecer passagens a preços menores do que os habituais, de empresas como a Ryanair e EasyJet. Há ainda as plataformas digitais de reservas de viagens e a comparação de preços, que tornaram qualquer viagem mais fácil de ser gerida. 

E com o fenômeno da internet e das mídias sociais, o hábito do turista também mudou. Deixou de ser algo mais apreciativo, mais demorado e atrelado com a história de cada lugar e passou a ser uma espécie de fast food, onde a viagem tem que ser rápida e barata e onde tirar uma selfie no lugar de destaque da cidade visitada é mais importante do que conhecer a origem e o significado daquele lugar.

Foi abordando este tema que a revista alemã Der Spiegel lançou, na última semana, um artigo intitulado Paraísos perdidos: como os turistas estão a destruir os locais que amam. E além de cidades como Barcelona (Espanha) e Veneza (Itália), o artigo utilizou como base a cidade do Porto, em Portugal, citando como exemplo desta mudança no turismo a Livraria Lello, situado na Rua das Carmelitas, bem próxima à Torre dos Clérigos – espaço famoso devido às visitas frequentes de J.K. Rowling quando viveu na cidade nos anos de 1990 e que serviu de inspiração à saga de Harry Potter. 

O estabelecimento é centenário e é conhecido como a “catedral dos livros”, mas há muito tempo que a fonte de renda da livraria deixou de ser os livros. O artigo explica que, há quatro anos, a Lello estava à beira da falência. “Não tinha falta de visitantes. O problema era que as pessoas compravam cada vez menos livros”. Foi então que alguém sugeriu que a loja deveria começar a cobrar uma taxa de entrada de € 5,00, que poderiam ser debitados na compra de algum livro. E a partir daí, a loja não parou mais de faturar. Com uma média diária de 4 mil visitantes, subindo para 5 mil nos meses de verão, a livraria recebeu no ano de 2017 um total de 1,2 milhão de visitantes e faturou com visitas mais de € 7 milhões, de pessoas que visitam a livraria não para comprar um livro, mas para tirar uma foto de si mesmo dentro da livraria.

A Der Spiegel diz que a Livraria Lello, “em última análise, parece mais um museu ou um cenário de teatro do que um local real que vende livros”. E é por isso que a dá como um exemplo “da natureza predatória do turismo moderno – um estilo de viagem que devora todos os lugares bonitos”.

Nas longas filas da livraria, aguardam pela sua vez pessoas de todos os lugares do mundo, mas quase nenhum portuense, o que faz a revista indagar quando da última vez que um residente da cidade foi à Lello e, quando ele resolver fazê-lo, terá que aguardar também na fila e pagar os mesmos € 5,00?

O artigo exemplifica ainda a “destruição” dos locais mais bonitos dos destinos turísticos, com a “transformação em museus e parques temáticos” e a criação de “zonas para turistas, onde os moradores até podem trabalhar, mas certamente não vivem”. E exemplifica: “os turistas sentam-se em restaurantes tradicionais desprovidos de moradores enquanto observam outros turistas”.

A Der Spiegel conclui que “os residentes são os maiores perdedores”. E destacou que, em algumas cidades europeias, os moradores já começam a sentir-se ameaçados pela invasão turística. Em Maiorca (Espanha), ativistas escreveram “vão para casa” em locais frequentados por turistas. Em Palma, atiraram excrementos de cavalo e, em Veneza (Itália), autoproclamados piratas impediram a entrada de navios de cruzeiro no porto local. Fato é que nem as cidades e nem o setor turístico estavam preparados para o aumento causado pela massificação do turismo, principalmente dentro da Europa.

Luiz Plácido é jornalista, apresentador do programa Destino Portugal (transmitido no canal de tv a cabo Travel Box Brazil) e proprietário da agência  de turismo Destino Portugal Viagens. Ele escreve na coluna Conexão quinzenalmente, às quintas-feiras.

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