Conexão Japão: Kokuseki, o dilema da nacionalidade única

Nesta edição da coluna, Yukio Spinosa fala sobre a lei que proíbe múltipla cidadania no Japão

22/09/2018 - 16:35 - Atualizado em 22/09/2018 - 16:51

 Naomi, de 20 anos, venceu a americana Serena Williams (Foto: Toshifumi Kitamuta/AFP)

Dois dias após o terremoto de magnitude 6,6 que trouxe caos à ilha de Hokkaido, numa sequência de desastres naturais que incluiu um tufão destruidor, a tenista Naomi, de apenas 20 anos, vence americana Serena Williams, um ídolo de sua infância, durante o US Open. No Twitter, o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, é um dos primeiros a enviar congratulações à atleta, cujos avós são de Hokkaido. Naomi é filha de um haitiano com cidadania americana e uma japonesa.

Por questionar o conservadorismo da sociedade, a mídia tradicional inicia debate sobre o ato de nacionalidade, a lei que proíbe múltipla cidadania aos japoneses. No caso de Naomi, por ter dupla cidadania, americana e japonesa, de acordo com esta lei, a partir dos 22 anos, ela terá que optar por apenas um país.

De acordo com informações do Ministério da Justiça, cerca de 890 mil pessoas possuem mais de uma cidadania, além da japonesa. Neste número, estão incluídos aqueles que já tiveram sua outra cidadania retirada ou que ainda possuem duas cidadanias ou mais, baseados em seus direitos de nascimento, de 1985 a 2016.

Em dois anos, Naomi pode ser forçada a renegar sua cidadania americana para competir nas Olimpíadas de Tóquio representando o Japão, assim como sempre fez, desde o início de sua carreira, atendendo ao desejo de seu pai, Leonard Françoais. O avô da atleta, Tetsu Osaka, 73, disse à rede de tevê NHK que chorou quando a neta ganhou o US Open e que espera vê-la campeã das Olimpíadas.

Não bastasse ter de conviver com boatos sobre as relações com a família japonesa, o constrangimento que Naomi tenta evitar sempre que é entrevistada por repórteres nipônicos é motivado pela definição velada do que é ser japonês. O youtuber conhecido como Tobita nota que sempre há gente dizendo “ela não é japonesa”, principalmente nas mídias sociais, onde as pessoas não precisam usar o tatemae, um artifício de esconder suas verdadeiras opiniões, praticando algo semelhante ao “politicamente correto”.

Para Tobita, ser japonês é mais do que uma questão étnica ou cultural. É uma questão moral. É entender e seguir a cultura e a ordem social; ser grato e respeitoso com relação a este país e seu povo, fazer esforços para ser parte da sociedade e contribuir para o país de alguma forma.

No momento em que o Japão enfrenta acentuado declínio populacional, escassez de mão-de-obra e dificuldades para manter o sistema de pensão aos aposentados devido à baixa natalidade, cada vez mais, estrangeiros serão encorajados a se naturalizarem. Preservada a unidade cultural, sem a qual o Japão não seria o mesmo país, a cor da pele, nacionalidade e nível de conhecimento do idioma são questões menos importantes, já que na segunda geração, todos se tornam japoneses.

A decisão que Naomi está prestes a tomar terá influência na geração dos filhos dos imigrantes brasileiros que, na mesma idade, poderão optar por se tornarem cidadãos japoneses. Uma vez que o Brasil permite a dupla cidadania, cumprir ou não o ato de nacionalidade será seu primeiro teste moral como cidadão do país que acolheu seus pais, de volta à terra de seus avós. 


YUKIO SPINOSA É JORNALISTA, INTÉRPRETE, TRADUTOR E CONSULTOR PARA PROSPECÇÃO DE PRODUTOS DA INDÚSTRIA JAPONESA.

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