Conexão Irlanda: Dublin vive crise imobiliária e cresce o número de sem-teto

Nesta edição da coluna, Camila Natalo fala sobre a bolha imobiliária do país europeu

15/08/2018 - 16:56 - Atualizado em 15/08/2018 - 17:10

Grupo de ativistas habitacionais ocupa uma propriedade (Foto: Arquivo pessoal)

Dublin é um destino que atrai muitos turistas, tanto que, no ano passado, cerca de 9 milhões de pessoas visitaram a capital da Irlanda, um aumento de 3,2% em relação a 2016. No entanto, as recentes publicações do Departamento de Turismo da Irlanda (Fáilte Ireland) sugerem que ainda existe muito a ser melhorado.

Enquanto foi divulgado um aumento de 6,7% nas visitas a Dublin no primeiro semestre deste ano, apenas 24% dos entrevistados disseram que voltariam à capital. De acordo com o <FI5>Fáilte Ireland, o aumento de mendigos na cidade está no topo da lista de reclamações de turistas, seguido por um custo-benefício desfavorável.

A chefe do Departamento, Keelin Fagan, disse ao jornal irlandês Independent que, embora Dublin ainda seja considerada um destino seguro, a questão implícita é um ponto a se prestar atenção. “Ainda somos considerados um destino seguro, o que é brilhante – mas a questão do aumento da mendicância é um ponto que precisamos ficar de olho”, disse. Fagan reafirmou que os preços dos hotéis em Dublin são os terceiros mais altos da Europa e que a capital corre o risco de se tornar um destino muito caro.

 

Já não é segredo que a capital da Irlanda atualmente vive em uma bolha imobiliária, com preços de imóveis e alugueis disparados, com a crise de acomodações. Essa crescente, com certeza, é um dos fatores que contribuem para o aumento de pessoas morando nas ruas e da superlotação em abrigos, repúblicas e hostels.

No início do mês, inclusive, um grupo de ativistas habitacionais ocupou uma propriedade no centro da cidade, onde mais de 20 estrangeiros, incluindo brasileiros, haviam sido despejados em maio.

A desocupação ocorreu após uma inspeção dos bombeiros, que levantou questões sobre o risco de incêndios na propriedade, segundo o porta-voz do Conselho Municipal de Dublin.

Peter Dowley, que representa os locatários do Renters Union de Dublin, disse que a ocupação se fez necessária, já que existe uma enorme crise imobiliária na Irlanda. “Há tantas pessoas sendo expulsas de suas casas e tantas casas desocupadas. Já é hora de assumirmos uma propriedade vaga e exigir que o Conselho Municipal a compre. Locatários não têm garantia de posse. Precisamos de segurança a longo prazo ”, reiterou.

Juliana Sassi, membro da filial de Dublin da Brazilian Left Front, um grupo de esquerda que ajudou inquilinos despejados da propriedade em maio, disse que estudantes e trabalhadores brasileiros na Irlanda têm sido explorados no mercado de aluguel de Dublin. “Temos um problema de comunicação e de conhecer nossos direitos, então estamos em pior situação. A superlotação é normal. Nas casas as pessoas vivem em 20 pessoas por casa, com beliches em todos os lugares ”, lembrou.

Além da ocupação, na primeira semana deste mês, uma outra notícia envolvendo uma família de sem-tetos tomou conta das manchetes dos jornais por aqui. A foto de seis crianças dormindo em bancos de atendimento de uma unidade da Garda de Dublin, a força policial civil. A mãe, que se sentia incapacitada por não poder fazer mais pelos seus filhos, disse que foi enviada à unidade quando as equipes que ajudam pessoas sem-teto não conseguiram encontrar acomodação de emergência para a família, que está desabrigada há um ano.

Anthony Flynn, da Inner City Helping Homeless, um grupo de voluntários que ajuda pessoas nessa situação, diz que essa família não foi a única a ser aconselhada a se abrigar em uma delegacia de polícia. “Cerca de oito outras famílias foram levadas às estações de Garda por falta de alojamento na cidade”. 

E a crise não para por aí. Com a vinda do papa Francisco para Dublin, marcada para o próximo dia 26, as famílias desabrigadas que vivem em hotéis pela cidade, mantidas pelo Governo, podem ser removidas da capital devido à demanda turística do evento, segundo Eileen Gleeson, diretora do órgão responsável por desabrigados em Dublin (DHRE), informou ao jornal Irish Times.

Eileen ainda proclamou que não havia necessidade de as pessoas ficarem nas estações da Garda enquanto procuravam alojamento de emergência. Mas fica a questão: a quem e a que lugar elas poderiam recorrer? Resta saber quais serão os próximos passos para resolver os problemas da crise imobiliária e do aumento do número de sem-teto por aqui. 

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