Conexão França: Visão invertida

Nesta edição da coluna, Paulo Simões conta a mudança de visão de quem sai do País

15/05/2018 - 14:54 - Atualizado em 15/05/2018 - 15:04

É verdade que o simples ato de viajar – para onde for –, abre a mente, expande a nossa alma e nos torna seres mais empáticos. O que dirá então quando você muda de país e, depois de anos fora, retorna a sua terra natal para passar uns dias? Mesmo que de maneira muitas vezes moderada, o choque cultural, normalmente, se inverte. O que antes parecia sem graça, ganha cores. O que não incomodava passa a incomodar e vice-versa. 

No meu caso específico, depois de alguns dias de volta a Santos para comemorar meu aniversário e o Dia das Mães, pude sentir na pele diversas dessas reações. Os chapéus de sol da orla da praia ganharam maior valor. As pessoas se tornaram mais barulhentas e indiscretas. As casas mais coloridas. A arquitetura mais bagunçada. E a cada abraço de cumprimento que recebo, uma mistura de desconforto e bem-estar. Não que eu me sinta mais parisiense do que santista ou mais francês do que brasileiro. Nem que eu tenha perdido as minhas raízes. Longe disso! As referências e o meu olhar sobre as coisas que mudaram. 

Na França, seja num parque, restaurante, na casa de amigos, ou no trabalho, existem sempre muitas “regras de etiqueta”. Como elas não estão escritas e nem estampadas em lugar algum, você as sente, ou não, num primeiro passo em falso que você dá! Experimente falar alto ou chegar num jantar de amigos com as mãos vazias. Entrar num restaurante sem dizer nada e escolher uma mesa para sentar. Posso dizer a vocês, sem sombra de dúvidas, que a reprovação será direta! 

No Brasil, no entanto, as regras são outras. Mas elas existem também, claro. Nessa passagem, em particular, duas delas me chamaram a atenção em especial. Estranhei ao ouvir frases como: “já está escuro. Tome cuidado na rua”. Ou quando estava dentro do carro e minha mãe me disse: “levanta o vidro, filho, aqui é perigoso”. Seguimos protocolos para não sermos assaltados. Triste realidade. Mas nada novo ou de que eu não soubesse. E a segunda foi a pressão familiar. Foi curioso lembrar que não repetir o prato pode ser considerado falta de respeito com quem preparou a refeição!

E o que falar das recepções calorosas? O mundo se surpreende ao ver a nossa habilidade em acolher pessoas com outros hábitos sem tantos julgamentos. Ponto para o Brasil! Confesso que eu, já desacostumado com sorrisos despretensiosos, tenho me derretido por alguns durante esse meu retorno pontual à Baixada Santista. E dessa qualidade, nós podemos, sim, nos orgulhar. Mas por que agimos dessa forma? Os franceses sempre me perguntam: será que é sincero?

Eu respondo: é cultural. Somos condicionados a mostrar “educação” com um sorriso no rosto, um toque no ombro e uma entonação de entusiasmo nas frases. Eles, em contrapartida, são condicionados desde pequenos a não incomodar. A serem discretos. Acredito também que vemos as pessoas com menos barreiras num primeiro contato do que os franceses. Todos são gente como a gente numa primeira impressão. Lógico que as questões sociais, religiosas e políticas nos divide consideravelmente em seguida. Na França, a intimidade vem com o tempo. Para vocês terem uma ideia, o pronome pessoal “tu” é usado somente para pessoas íntimas e o “você” para o restante. Viu só?

O que eu espero é que nós consigamos diminuir o doentio complexo de inferioridade que está impregnado no discurso da maioria dos brasileiros e, também, a ilusão de pensar que tudo que é bom está na Europa ou fora do Brasil. Cada país está correndo sua própria maratona. Cada um está no seu tempo. Sorte a nossa de não sermos árvores e termos a possibilidade de nos deslocarmos. De viajarmos.


Paulo Simões é santista, jornalista e vive há mais de dois anos na França, após ter residido no canadá, em portugal e na inglaterra. Ele escreve na coluna conexão quinzenalmente, às terças-feiras. 

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