Conexão Espanha: Terra de imigrantes

Nesta edição da coluna, Janaina Lemos fala sobre os imigrantes ambulantes de Barcelona

16/08/2018 - 15:40 - Atualizado em 16/08/2018 - 16:10

Imigrantes ocupam parte da calçada para oferecer produtos falsificados (Foto: Arquivo)

Pleno verão, temperaturas altas, cidade lotada de turistas de todos os cantos do mundo e o comércio bombando... Barcelona vive uma crise já antiga, a venda ambulante. Por aqui, em geral, como já mencionei antes, os chamados manteros são africanos que ocupam parte da calçada para oferecer produtos falsificados dos mais diversos: camisas, uniformes de times de grandes equipes esportivas, tênis, óculos de sol, chapéus, cangas, todos artigos que imitam marcas famosas. Donos de lojas estão furiosos ao sentir a vertiginosa queda nas vendas e o aumento considerável na concorrência que esses vendedores representam.

Esses ambulantes já protagonizaram, inclusive, episódios de violência, como o ocorrido recentemente em plena Plaza Catalunha, quando um turista norte-americano foi atacado por um grupo de manteros após uma discussão por espaço na calçada. O problema, porém, é bem maior do que parece.

Esses vendedores são refugiados africanos, sem cidadania europeia e que, muitas vezes, sustentam suas famílias que ficaram na pobreza do continente vizinho e não têm oportunidades de trabalho regular por aqui. E é então que conhecemos a gravidade da situação: somente neste ano, mais de 54 mil africanos chegaram ilegalmente à Europa. Mais de 22 mil deles estão na Espanha.

O que para eles é uma fuga da fome, da violência, da pobreza e de péssimas condições de vida representa um imenso risco de morte, representado por apenas 67 quilômetros de Mar Mediterrâneo. Desde o começo de 2018, foram 1.453 mortos em um trajeto tão curto.

Arriscam-se em busca de condições dignas e do tão atraente euro. Os destinos favoritos são Itália e Espanha, pela proximidade, e o governo espanhol tem sido bastante amigável na acolhida. A questão é que a repatriação não é tão simples e, uma vez nutridos e saudáveis, se deparam com a restrição nos postos de trabalho.

Emprego por aqui, em geral, é algo formal, com documentos e contrato, porque as multas são colossais pelo trabalho irregular. Sem muita saída, os imigrantes descambam no contrabando dessas peças que vendem pelas ruas. Estendem suas mantas nas calçadas e expõem produtos sem garantia alguma de qualidade a preços bem abaixo do mercado, claro! E os comerciantes, pagadores de impostos, gritam contra a permissividade do governo e as perdas em suas vendas.

Sim. Existe lei que proíbe as mantas e o comércio de falsificações, mas é visível a vista grossa da polícia e os confrontos são inevitáveis. O fato, que já conhecemos, é que sempre existe o público. Os turistas se aglomeram para escolher entre os produtos expostos nas calçadas, enquanto reclamam da falta de espaço para caminhar.

A sinuca de bico do governo, ou uma delas, está aí: deixar de estender as mãos a estes seres humanos que, bravamente, encaram a morte de frente num pequeno barco para tentar a vida; ou criar uma política de trabalho a estes imigrantes que chegam ilegais, sem eira nem beira ou bandeira.

O presidente Pedro Sánchez ainda enfrenta franquistas (sim, eles ainda existem aqui) para tentar retirar o corpo do ex-ditador Francisco Franco da cova onde está enterrado, no Vale dos Caídos, em Madri, monumento criado em homenagem às vítimas do pior conflito já vivido no país, a Guerra Civil Espanhola. Ainda encara os independentistas, que ameaçam com a retirada de apoio no Congresso. E tenta permanecer no cargo até o fim do mandato, ano que vem, contra a campanha da oposição por eleições gerais já!

Enquanto isso, o sol arde e o que não falta é gente pra aproveitar o verão!

JANAINA LEMOS É JORNALISTA E ESCREVE NA COLUNA CONEXÃO QUINZENALMENTE, ÀS QUINTAS-FEIRAS.

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