Conexão Argentina: Disparada do dólar gera medo e faz lembrar 2001

Nesta edição da coluna, Samuel Rodrigues fala sobre a atual crise do país

13/09/2018 - 16:15 - Atualizado em 13/09/2018 - 16:26

Moeda americana tem grande peso no sistema financeiro argentino (Foto: AFP)

Sempre quando alguém se despedia dizendo “até amanhã” ao jornalista Hamilton Iozzi, que trabalhou por 35 anos em A Tribuna, ele logo emendava: “se houver amanhã!”

Na semana passada, não pude deixar de lembrar do ex-companheiro de redação, falecido em 2014, quando o dólar passou de 30 para 40 pesos em apenas dois dias na Argentina.

Porque diante de um cenário tão caótico, houve quem duvidasse seriamente do futuro por aqui. A moeda americana, de grande peso no sistema financeiro argentino, acabou se acomodando na casa dos 38 pesos após intervenções do Banco Central, mas não sem antes semear temores e incertezas – e derrubar a própria perspectiva de crescimento econômico.

O medo, agora, é que a inflação acompanhe o ritmo, já que os “verdes” influenciam o preço dos combustíveis, por exemplo.

Todo esse movimento do dólar fez lembrar por aqui os temores sentidos durante a crise de 2001, quando houve mortes e saques em meio à turbulência político-econômica. Na província de Chaco, no norte, um garoto de 13 anos foi morto pela polícia com um tiro no peito, durante a tentativa de um grupo de 50 pessoas de saquear um supermercado. Nos últimos 10 dias, houve tentativas de saques também nas províncias de Mendoza e Chubut. Nas redes sociais, leem-se analogias com a piora da situação financeira, principalmente dos mais pobres, após dois anos e meio de governo do presidente Mauricio Macri, e há temor de novos incidentes. E quem aderiu a uma nova modalidade de empréstimo hipotecário ajustado pela inflação, o chamado crédito UVA, teme não poder pagar as parcelas ou precisar ampliar o prazo da dívida.

Em meio à disparada do dólar, Macri eliminou ministérios, embora sem grande impacto no orçamento, e deu um raro discurso no qual afirmou ter passado pelos “cinco piores meses da minha vida depois do meu sequestro”, fazendo alusão à ocasião em que o hoje presidente, de família milionária, passou 12 dias sob o controle de bandidos, 27 anos atrás. A declaração caiu mal. No período, Macri apareceu na mídia, por exemplo, fazendo um safári na África e jogando golfe no norte do país em meio a demissões e fechamentos de empresas devido à crise. No mesmo discurso, ele culpou o aumento do juro nos EUA, a crise financeira na Turquia, a seca e até o Brasil pelos problemas financeiros da Argentina – mas não lembrou de culpar suas próprias políticas.

Se antes a imprensa se mostrava compassiva, agora alguns dos principais nomes do jornalismo argentino começam a criticar o governo. Jorge Lanata escreveu no sábado, no Clarín, que “qualquer coisa é melhor que continuar aumentando o gás e o transporte público”. Em seu programa na Rádio Continental, Nelson Castro disse que “temos um ministro da Economia totalmente desvalorizado”. Luis Majul, outra referência do jornalismo local, avisou no portal Infobae que, “se (a inflação) acelerar, os próximos dias, semanas e meses serão de forte tensão social”.

O respiro no fim da semana passada custou caro: o Banco Central precisou subir a taxa básica de juros a 60%, a mais elevada do mundo, e queimar US$ 2,6 bilhões em intervenções no mercado de câmbio, ou 5% de suas reservas internacionais.

De certa forma, a relativa tranquilidade alcançada se deve também aos sinais de que o governo está prestes a fechar um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), que emprestaria a soma recorde de US$ 50 bilhões para a Argentina equilibrar suas contas. Parte do mercado financeiro avalia a medida como necessária. Parte do povo teme a dívida a ser paga amanhã.

Se houver amanhã, é claro.


Samuel Rodrigues é jornalista e tradutor. Ele escreve na coluna conexão quinzenalmente, às terças-feiras. 

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