Conexão Argentina: A crise no país e a indústria automotiva do Brasil

Nesta edição da coluna, Samuel Rodrigues fala sobre os impactos da crise argentina no Brasil

25/09/2018 - 18:33 - Atualizado em 25/09/2018 - 18:47

Nos últimos meses, houve uma queda na aquisição de veículos na Argentina (Foto: Divulgação)

A indústria automotiva brasileira já está sendo afetada pela forte crise na Argentina. Se eu fosse apostar na melhora do cenário no último trimestre de 2018 e em 2019, provavelmente perderia meus pesos.

Houve uma queda na aquisição de veículos por aqui nos últimos meses. Os dois principais motivos são o aumento da taxa básica de juro, de 27% para 60%, e a desvalorização do peso em relação ao dólar. A moeda americana, de grande importância na economia argentina, começou o ano na casa dos 18 pesos, e hoje custa mais que o dobro, em torno de 38.

As oscilações do dólar geraram reflexos insólitos, como a suspensão da venda de veículos por alguns dias nas primeiras semanas do mês, quando a moeda americana deu um salto de 30 para 40 pesos. Em meio ao desespero, quando o dólar não encontrava teto, muitas concessionárias não sabiam qual preço fixar, por isso preferiram não correr risco.

Obviamente quem tem dólares guardados e pretende gastá-los em um carro novo sai ganhando com toda essa oscilação. Um Chevrolet Onix Joy, por exemplo, custava em torno de US$ 13 mil em abril, segundo o preço de tabela. Hoje pode ser comprado por menos de US$ 10 mil, apesar de o valor em pesos ter subido de 270 mil pesos para pouco mais de 350 mil pesos.

Difícil é tomar a decisão, em meio à turbulência, de se desfazer dos dólares poupados para investir na compra de um carro. Em tempos de crise, o argentino costuma confiar ainda menos na moeda local e deixar as cédulas verdes bem quietinhas debaixo do colchão. Nesse ponto, aliás, não é de menor importância o fato de a gasolina estar subindo ao sabor do preço internacional do petróleo, com o agravante de que, por aqui, não existe a opção etanol. Já que o ônibus por aqui não é tão caro quanto em Santos, certamente muitos continuarão preferindo o transporte público.

O salto do juro básico, hoje o mais elevado do mundo, mexe muito com os financiamentos automotivos. Na Argentina, segundo a associação das concessionárias (Acara), metade dos veículos novos é comprada com crédito. O percentual vinha subindo até junho, mas começou a cair desde então. O declínio é natural, porque diante da incerteza em relação à economia, o consumidor tende a não querer se endividar. 

A inflação é outro fator fundamental porque, teoricamente, ajuda a pagar dívidas de médio e longo prazos. A conta é a seguinte: quando o juro é inferior à inflação estimada, o comprador costuma preferir financiar, porque com o tempo a parcela representa uma fatia cada vez menor do salário, que por sua vez tende a ser reajustado duas vezes por ano. Só que, com o juro básico em 60% ao ano e a inflação em 30% a 40% (dependendo da fonte da projeção), a conta não fecha.

Sete de cada 10 veículos exportados pelo Brasil têm a Argentina como destino e vice-versa. Se a Argentina pega um resfriado forte, as montadoras brasileiras podem se contaminar.

O panorama dos próximos meses é ruim. A menos que o presidente Mauricio Macri consiga cumprir as promessas de baixar a inflação, reduzir o desemprego e estimular o consumo, o comércio bilateral de veículos continuará prejudicado. Mas convenhamos: se houvesse algum cavalo chamado “recuperación económica” disputando corridas lá no Hipódromo de Palermo, certamente seria considerado um azarão.

Samuel Rodrigues é jornalista e tradutor. Ele escreve na coluna conexão quinzenalmente, às terças-feiras. 

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