Flexível e de baixo custo, coworking é modelo eficiente de trabalho

Movimento começou nos Estados Unidos, em 2005, quando um engenheiro decidiu trabalhar com amigos

17/10/2017 - 16:36 - Atualizado em 17/10/2017 - 16:50

Mais do que um escritório, o coworking é um modelo de trabalho do futuro (Foto: Shutterstock)

Que tal ter um lugar para trabalhar de modo instantâneo, com flexibilidade, baixos custos, inspirações profissionais e companhia para emendar com o lazer depois? “Este movimento começou nos Estados Unidos, em 2005, quando o engenheiro de software Brad Neuberg decidiu trabalhar com amigos. Além de mais prazeroso, o grupo percebeu que a troca de ideias e experiências resultava em melhor produtividade. Logo, o conceito se espalhou pelo mundo, chegando ao Brasil em meados de 2009”, explica Ernisio Martines Dias, presidente da Associação Nacional de Coworking e Escritórios Virtuais (Ancev), que visa desenvolver a atividade em todo o País e, principalmente, regulamentar o segmento.

“Os grandes diferenciais, a meu ver, são a chance de economizar para sua empresa até R$ 50 mil por ano e ainda ampliar a rede de contatos para gerar negócios”, comenta Matias Vazquez, dono do Sharing EC, coworking na Capital com mais de 300 usuários, que exemplifica isso por meio de alguns de seus clientes: “A empresa de aluguel de carros por demanda Zazcar contratou os serviços da agência de publicidade Tamanduá, ambas com sede na mesma unidade. Já a arquiteta Carolina Zavitsanos fechou contrato para fazer o projeto da nova unidade do coworking. A agência de comunicação LuAr Conteúdo foi contratada pelo produtor Juliano Pozati para assessoria de imprensa de seu novo documentário. E a GamePlan fechou negócios com a Central de Notícias”. 

Matias é também idealizador do Coworking Day, que aconteceu neste ano em 11 de agosto. O evento conecta espaços a potenciais usuários e permite que você seja um coworker por um dia, de graça, no endereço de sua preferência dentre os inscritos. 

Em relação a reduzir custos com locação, esse modelo impressiona mesmo, pois geralmente a pessoa pensa apenas em aluguel e condomínio, sendo que há despesas como IPTU, seguro fiança, seguro obrigatório do escritório, materiais de consumo (material de limpeza e café, por exemplo), luz, manutenção, telefonia, internet e pessoal de suporte (TI, limpeza e atendimento), de acordo com Fernando Bottura, diretor-executivo da Gowork, que estava locando cada estação de trabalho por R$ 900 em junho último. “Colocando esses valores numa planilha e comparando com o custo de um espaço de coworking, você possivelmente terá uma surpresa”, explica Bottura, que calcula uma economia de até 40% na versão compartilhada.

• Existem outros benefícios. Os móveis e outros utensílios de escritórios já fazem parte do pacote e evita-se o isolamento do modelo home office, que se mostra por vezes improdutivo. Por essas e outras, Carla Tenório Guassaloca, proprietária do Smart Center, no Gonzaga, acredita que já é o escritório do presente, e não mais do futuro. “Há 18 anos, quando iniciamos nesse ramo, acreditávamos que seria o formato do futuro, junto com o de escritório virtual. Além do custo-benefício em compartilhar espaço e serviços, o networking só depende dos próprios profissionais”, diz. No seu espaço Smart Café, há happy hour, palestras e workshops com feras. Em julho, por exemplo, houve um evento fechado para todos os clientes em comemoração aos 18 anos, com cardápio mexicano, música ao vivo, serviços de beleza e até massagem. “Há sempre muita energia boa e alegria”, garante Carla.

• Para quem quer se dar bem. Carla conta que alguns clientes vêm passar algumas semanas, enquanto estão reformando seu espaço convencional, e acabam ficando por anos. “Aconteceu com uma que é dona de vários imóveis próprios e veio passar apenas dois meses no Smart Center. Quando experimentou o conforto e a praticidade, mudou de ideia e está aqui há mais de 10 anos. Meu principal conselho para se relacionar trabalhando em um local coletivo: aproveite o networking formado com clientes, fornecedores e parceiros. Esteja presente nos eventos, converse com os colegas, divulgue seu trabalho no grupo da internet. Pois comunicação é a grande chave do sucesso hoje”. 

"Em um ambiente colaborativo, participar dos eventos propostos, querer saber sobre as empresas com quem divide espaço e facilitar oportunidades de negócios são atitudes que geram frutos. O que você dá, recebe de alguma forma. Networking é algo que se cultiva todos os dias, uma questão de hábito”, concorda Aline Bottacin Brito, gerente do Espaço Certo, na Vila Mathias. Porém, alerta que a lei da boa vizinhança se aplica no coworking como em qualquer outro ambiente de trabalho. E aconselha usar fones de ouvido em conferências, não falar alto ao telefone e ter discrição sobre conversas alheias que eventualmente tenha escutado. Ou seja, não é para todo tipo de pessoa e de atividade.

• O que observar ao escolher o seu? “Por ser um ambiente que o cliente vai frequentar todos os dias, ao visitar alguns, pergunte a si mesmo se sente vontade de voltar àquele ambiente, se tem a ver com seu estilo e se há identificação com as pessoas que trabalham ali. Outros pontos relevantes: se há estacionamento, local para refeições, salas de reunião, internet de qualidade e horários de utilização que atendam aos seus interesses (alguns preferem trabalhar à noite, por exemplo)”, responde Aline.

Carla complementa que a localização e o tempo no mercado importam: “Procure conhecer a história de cada espaço, para não acabar sendo despejado repentinamente. E não se iluda com valores praticamente nulos, pois não existe milagre. Tem muito escritório aventureiro abrindo por aí. E também avalie qual trabalho de fomento ao networking é feito”.

O compartilhamento é tendência em diversas áreas da vida, lembra Aline: “Até a mobilidade urbana vem sendo favorecida pelo uso coletivo de bicicletas públicas e aplicativos de carona. E é possível alugar um quarto na casa de outra pessoa em qualquer local do mundo. No corporativo, ao escolher um coworking, o usuário será enriquecido com experiências e oportunidades de negócios, terá mais flexibilidade e poderá focar no crescimento da sua ideia, em vez de se preocupar com a infraestrutura de um escritório convencional”.

No Espaço Certo, há palestras com temas voltados aos empresários, além de parcerias com movimentos, como o Café com Empreendedorismo para Mulheres. “Também realizamos happy hours chamando parceiros e dispomos de um espaço de jardim, para nossos clientes promoverem eventos e fazerem relacionamento com outras empresas de uma forma descontraída”. 

Um caso curioso foi de uma cliente que acabou se tornando professora de inglês, por advogar no mesmo coworking que uma empresa de idiomas. “Se ela tivesse optado por um escritório convencional, talvez não tivesse se dado conta de que poderia mudar de atividade e realizar-se mais com a nova escolha. Muitos clientes iniciam projetos profissionais no coworking. Quantas histórias de crescimento e evolução!”, garante Aline.

• Trabalhar, dormir e surfar. Que tal unir três interesses quando você viaja? Mix de escritório, pousada e escola de surfe, a rede internacional The Surf Office surpreende com essa proposta. É um coworking que os clientes usam alguns dias por ano, seja quando viajam a Lisboa, seja quando passam férias em Barcelona ou nos outros três endereços. “Quando você vem ao Surf Office é porque não quer trabalhar nas tarefas do dia a dia. Chegam querendo desenvolver novas estratégias de negócios, provocar novos problemas, e combinam tudo com as atividades de construção de equipes (surfe, passeios etc.)”, explica o fundador, Peter Fabor. “Quase todos os nossos clientes são da Europa ou dos Estados Unidos. Ainda não recebemos empresas brasileiras”. 

No Brasil, há iniciativas fora da caixa como essa. Há dois anos, a Oficinalab, no bairro paulistano da Barra Funda, investe em um espaço de colaboração voltado para a marcenaria como meio de propagar a cultura do faça você mesmo. Colaboração porque, além de ser uma oficina do fazer, permite experimentar por meio de cursos oferecidos por parceiros. Com isso, recebe de arquitetos e designers a advogados. Já a Casa Laço Coworking Familiar, também na Capital, proporciona que mães e pais produzam melhor com seus notebooks ficando perto dos filhos, que brincam no andar de baixo, com cuidadoras. É possível alugar salas de reunião e de atendimento para quem é psicoterapeuta, psicopedagoga, massoterapeuta, coach ou instrutora de ioga, por exemplo. “O conceito de coworking abrange mais que um espaço físico com mesas e salas. É uma filosofia na qual a colaboração impera e uma sinergia é criada entre usuários de desafios e interesses semelhantes”, analisa Ernisio. 

• Uma gama de serviços. “Alguns tendem a ser mais descolados, ganhando a conotação de modernos, outros possuem ambientes mais sóbrios. Mas observo que ambos tendem a se aproximar um do outro na gama de serviços prestados. O grande desafio é ser moderno e eficiente sem deixar de ser agradável”, comenta o presidente da Ancev.

Uma crescente gama de segmentos está utilizando os serviços de escritório virtual e coworking, que a associação prefere chamar de escritórios compartilhados. A começar por profissionais liberais e pequenas empresas que trabalhavam em casa, mas precisavam de um local para receber seus clientes. Também empresas de médio e grande porte que necessitam de espaços por curtos períodos ou por outros motivos de contingência.

“Temos casos de multinacionais querendo testar um mercado local antes de se estabelecerem, assim como as inúmeras empresas embrionárias, especialmente startups.

Sabemos de companhias aéreas selecionando e treinando comissários de bordo; e até de um ministério ocupando sala para seus técnicos e funcionários desenvolverem um projeto específico. A atualização do nosso senso, que ocorrerá no segundo semestre de 2017, estima um número próximo a mil escritórios compartilhados, estando no estado paulista aproximadamente 25% desse total”, finaliza Ernisio, destacando ainda a diversidade presente nos escritórios compartilhados. Afinal, o que não faltam são experiências de vida, de cultura e de profissões interagindo em um mesmo espaço!

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