Entenda por que tantas pessoas andam agressivas e amarguradas

Especialistas ensinam a melhor forma de lidar com o chamado ressentimento social

27/07/2017 - 16:18 - Atualizado em 27/07/2017 - 16:18

As redes sociais e sentimentos como a inveja ajudam a aumentar o ressentimento (Foto: Shutterstock)

“Olha a situação de um ator da Globo” - essa é a voz de um monstro moderno, o ressentimento social, dita mais de uma vez num vídeo gravado de celular, que percorreu as redes sociais no final de junho. Mostrava Fábio Assunção caído na sarjeta e passando outros vexames na cidade pernambucana de Arcoverde. A situação não era mesmo bonita, mas seria o caso de compartilhá-la com prazer? E o que dizer da atitude de comemorar e satirizar a morte de alguém? Além de posts e memes, houve buzinaço na frente do hospital e até quem soltasse fogos quando Marisa Leticia, ex-primeira dama, faleceu. 

Ressentidos também criticaram ferozmente a decisão de outra dupla de famosos por adotar uma criança do Malawi. “Se queria tanto um filho, deveria ter feito o dele” e “Com tanta criança precisando aqui, para que adotar uma lá na África?” foram alguns dos comentários dirigidos a Bruno Gagliasso e a mulher, Giovanna Ewbank, que o ator respondeu com “rótulos não me definem como pai”. E mesmo não sendo famoso, você deve pensar várias vezes antes de opinar sobre temas quentes como política e orientação sexual; ou vai se decepcionar com alguns amigos devido aos julgamentos ferozes. 

A psicóloga e mestre em educação Iara Chalela Genovese percebe que o ressentido acredita ter mais direitos do que realmente possui. “E isso o faz ter revanches piores do que a própria atitude que critica. Caso do suposto ladrão, que teve a testa tatuada com a frase ‘eu sou ladrão e vacilão’, por duas pessoas que quiseram fazer justiça com as próprias mãos, mostrando nas redes sociais. Estamos em uma situação tal que qualquer motivo faz explodir uma bomba já armada, como se todos estivéssemos prestes a soltar a agressividade sobre o mais próximo”, avalia.

Nada neste mundo consome mais depressa um ser humano que a paixão do ressentimento, já dizia o filósofo Nietzsche no século 19. E as redes sociais viram um tribunal virtual de julgamentos morais, potencializando um sentimento que vai na contramão da democratização, liberdade e empatia. Ele encontra eco quanto mais a audiência estiver faminta por escândalo, denúncias e linchamentos, conforme detalha o livro Redes de Indignação e Esperança, do sociólogo espanhol Manuel Castells. Há até uma palavra nova, haters, para definir internautas que se especializaram em destilar ódio contra pessoas, ideias, comportamentos, instituições ou vertentes políticas. 

• Um passado vivo. Antes de tudo, o que é ressentimento? O dicionário Houaiss define como “mágoa que se guarda de uma ofensa ou de um mal que se recebeu; rancor”. Segundo a psicóloga, re-sentir-se, re-voltar-se significa continuar a sentir algo não elaborado, não digerido. Geralmente um passado triste, de contradições, frustrações e desencantos. “Na real (ou imaginária) impossibilidade de a pessoa reagir frente às agruras impostas/aceitas, torna-se ressentida, revoltada, pois verteu para si a agressividade que poderia descarregar de alguma forma – na iniciativa, na criatividade, na superação, no enfrentamento, por exemplo. Daí, fica fácil culpar o outro, que não evitou e nem a poupou ou a ajudou a sair daquilo”, diz ela, que tem 30 anos de experiência em consultório, com ênfase em psicologia analítica. 

Frase famosa atribuída ao dramaturgo Shakespeare resume essa explicação com maestria: “Guardar ressentimento é como tomar veneno querendo que o outro morra”. Iara concorda que é uma espécie de envenenamento, sim, pois a vida fica impedida de seguir adiante sem abandonar velhas mágoas, especialmente as consideradas uma injustiça (real ou imaginária): “Por despertar reações negativas, ambivalentes e sombrias, ninguém quer admitir que o sente. Com isso, esse sentimento se torna mais poderoso e autônomo no nosso inconsciente”.

Ela explica que, além de não se reconhecer como tal, o ressentido ainda se ofende com o “atrevimento” de quem não age como ele. “Se o outro tem um poder que ele não tem (mais dinheiro ou status, por exemplo), por que não o protegeu do sofrimento? 

Além disso, se o ressentido se submete hoje a uma situação desfavorável, por que o outro também não o faz? E por que não foi punido? Tudo isso representa um imenso fardo de pedras que impede a caminhada. Uma posse dolorosa e difícil de largar”, alerta a psicóloga.

• Opa, virou questão social! Todos nós, em alguma medida, ficamos insatisfeitos quando recebemos promessas nitidamente desconectadas da vida real. De uma forma intensa e dolorosa, sentimos isso, por exemplo, quando pessoas, empresas, governantes ferem a lei de que somos iguais e merecemos oportunidades similares. Também é comum haver ressentimento social em relação a quem se mostra bastante diferente na forma de pensar, agir, orar, amar... 

Nos dias de hoje, o maior acesso à informação deveria favorecer a ampliação de opiniões, pontos de vista, experiências, depoimentos. Só que, segundo a psicóloga, a não submissão do outro a valores que nos impulsionam, mas também nos oprimem, parece estar provocando extremo sofrimento: “Porque representa a viva contradição entre muito do que nos foi ensinado (e reprimido) de um lado e, de outro, a diversidade querendo dizer que existem outros paradigmas. Re-volta. Re-sente. Re-pugna. Como eles se atrevem?”

• Quando isso mexe com você. Para perceber quando está caindo nessa, o caminho é a auto-observação do que o faz sofrer em relação à vida alheia. “Por que incomoda que várias pessoas de quem não gostamos tenham sucesso? E por que ter satisfação quando alguma delas sofre um revés? Portanto, o ressentimento é uma vivência do mal, frequentemente embalada no desejo de culpar ou castigar o outro, junto com o pensamento ‘bem feito, quem mandou torcer para outro time, nascer em outro lugar, desejar um parceiro do mesmo sexo ou defender outro partido político?”, exemplifica Iara. 

A psicóloga pondera que não é fácil uma pessoa perceber que odeia o diferente. Pelo contrário, muitas gostam de se gabar de sua suposta ausência de preconceitos, mesmo que despejem vários nas entrelinhas. “Para interromper o ciclo vicioso do ressentimento, é necessário enfrentar os próprios condicionamentos e valores, muitas vezes com o auxílio de amigos lúcidos e privilegiados, um coach, um terapeuta, um líder religioso esclarecido”. 

Quem quiser não se ver enredado por isso deve ser grato pelo que tem, sabendo que mais importante do que grandes conquistas econômicas é estar com o coração e a consciência em paz. “Além disso, entender que a sorte não alcança a todos, pois se alcançasse não seria sorte. Poucos têm o privilégio da prosperidade material e cabe a esses a função na sociedade de, com seus investimentos, trabalho e arte, permitirem que mais pessoas tenham empregos, renda e diversão”, afirma o escritor Fabio Blanco, também advogado, palestrante e idealizador do Núcleo de Ensino e Cultura (NEC). 

• Humanidade e foco no futuro. Para se comportar de forma mais humana, e menos ressentida, diante dos acontecimentos, cada um precisa também entender os seus limites. “Não somos onipotentes, nem quem nos criou era. Nossos ancestrais quiseram nos apresentar um mundo ideal e idealizado. Para alguns, pode ter funcionado por um tempo acreditar que Papai Noel premiaria os bonzinhos”, opina Iara, alertando sobre a importância de desenvolver sempre a capacidade de abandonar as pedras das antigas frustrações e entender que, hoje, o fluxo existencial nos chama para a ampliação de nossa consciência. “E isso implica em assumir a responsabilidade pela vida que desejamos ter e abdicar da ideia de que o outro é culpado sempre, caso queira viver de forma diversa da nossa”, reforça a psicóloga. 

Para ela, o melhor é dirigir a energia – leia-se, agressividade, iniciativa, criatividade – para o futuro. “Não quer dizer que não se faça justiça, mas sim que se a faça igualmente a todos que a tenham infringido. Sem desrespeitar o outro em sua essência como pessoa. Não ficamos melhores sentindo prazer com a desgraça alheia (e isso ainda demonstraria similaridade com quem condenamos). Reconhecer e elaborar os sentimentos de rancor e vingança que sentimos, para que se aquietem. Além disso, aceitar que as pessoas têm ao menos dois pontos que as igualam: a finitude e a imperfeição”, orienta Iara.

• Uma ponta de inveja. Fabio analisa a questão por este ângulo: “A fonte de todo ressentimento é a sensação de que o outro possui algo que essa pessoa acredita que também poderia ter, mas não tem. Em sociedades estáticas, como a hindu ou a medieval, onde a possibilidade de alguém passar de um estrato social para outro é remota, o ressentimento não era tão presente. Um plebeu não tinha ressentimento do nobre por não vislumbrar ser nobre. Já nas sociedades industriais modernas, um simples operário pode tornar-se dono de empresa, milionário, artista ou exercer qualquer outra atividade que lhe coloque em posição de superioridade social. Sendo assim, ressente-se com mais força”. 

Na visão do escritor, ao ver seu alvo numa posição superior que, acredita, poder ser sua, a pessoa se deixa envenenar pela inveja, alimento do ressentimento. “Junte-se a isso uma cultura, disseminada no Brasil, que insiste na ideia de que todo patrão é explorador, todo rico é usurpador e toda autoridade é tirana. Acrescente-se, ainda, a nossa realidade de desigualdade material, tão evidenciada e chocante; e estará pronta a receita para haver cada vez mais ressentidos”, detalha ele.

• Um famoso por perto. Por fim, há ainda a aproximação virtual de celebridades com seus fãs. E saber das virtudes e dos defeitos de atores, cantores, apresentadores, antes intocáveis e inalcançáveis, pode estimular ressentimento. “Afinal, se o outro é tão normal como aparece na tela do meu smartphone, por que tem o privilégio do sucesso, e eu não? Diante disso, fica fácil entender os motivos para as pessoas reagirem com virulência contra o ator Fábio Assunção. Inclusive, por fatores políticos, por causa de suas equivocadas manifestações anteriores”, diz o escritor. 

Mas ele faz uma ressalva: “Como o ressentimento está espalhado em nossa cultura, pode ter tido um peso naquela lamentável situação com o ator. Mas não explica tudo. O povo não pode ser o único responsável pelo que houve em Pernambuco. Muito do ódio de alguns surge de um ressentimento social, típico de sociedades desiguais, como a nossa, onde há uma mistura de restrição às oportunidades, instigação à inveja e exaltação materialista. Porém, é preciso separar o ressentimento sem causa, oriundo de uma mentalidade apequenada que vê o outro como injustamente agraciado, da reação causada pela frustração diante de uma atitude errônea de quem se espera algo mais. Ser uma personalidade reconhecida atrai não apenas as benesses da fama, mas também a responsabilidade de ser o centro das atenções”.

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