Endocrinologista explica por que dieta não é regime

Ele defende que, para emagrecer, tem que reduzir calorias e suplementar nutrientes

02/03/2018 - 20:26 - Atualizado em 02/03/2018 - 20:34

O endocrinologista santista Thiago Ferreira Lima, de 34 anos, deixou a Cidade para cursar Medicina e se especializar no Rio de Janeiro. Formado há cerca de dez anos, atuou na capital fluminense e em São Paulo, até perceber que era hora de montar o próprio negócio. 

A Clínica Seven, hoje, conta com unidades em Santos e na capital paulista e traz o Metabolic Seven, um protocolo de emagrecimento que visa resultados rápidos e definitivos. Na primeira etapa, para enxugar, é feita a preservação de massa muscular com o uso de aminoácidos. A segunda é de definição muscular e aumento do metabolismo. Já a terceira é de manutenção.

Nesta entrevista, ele fala ainda da importância não só da alimentação saudável, como de controlar a quantidade do que se come. “Muita gente diz que se alimenta bem. A questão é que precisa alinhar isso com a quantidade. Esse é um dos pontos”.

AÇÃO A obesidade tem várias causas, genéticas e ambientais – como sedentarismo e alimentação inadequada. Conhecer o que provoca o excesso de peso é fundamental para definir o tratamento?

É natural as pessoas quererem buscar um culpado. Eu creio – e é uma visão particular – que se perde muito tempo atrás disso, em vez de ir logo atrás da solução. 

É claro que é importante saber a causa. Mas se ela for X, Y ou Z, se não mudar o estilo de vida, não se obterá resposta no emagrecimento. Em 2012, participei de um congresso nos Estados Unidos, em que discutiam a Medicina do Estilo de Vida como especialidade. E por que chegaram nisso? Porque 85% das doenças relacionadas ao envelhecimento, como obesidade, diabetes e hipertensão arterial, estão ligadas ao estilo de vida.

Ou seja, o fator ambiental é muito mais forte do que o genético na maioria dos casos e, em termos de resposta ao emagrecimento, a mudança de estilo de vida é mais forte do que a causa isolada.

Então, nem sempre se emagrece mudando somente o estilo de vida?

Sim. Nesse estudo, inclusive, foi demonstrado que filhos adotivos desenvolveram as mesmas doenças dos pais, o que revela o peso do fator ambiental.

O que justifica também os números alarmantes de obesidade, diabetes e hipertensão em todo o mundo.

É demais mesmo. E o que a gente mais escuta no consultório são pessoas falando que é difícil se alimentar bem, especialmente quando se está fora de casa, viajando...

Mas hoje em dia há muitas opções, mesmo na rua, nos restaurantes... É questão de escolha. Para se ter uma ideia, nesta semana grandes empresas do setor de alimentos anunciaram que já sentiram a queda no consumo de alguns produtos, em detrimento de outros mais saudáveis (Kraft Heinz, Coca-Cola e Danone também anunciaram queda de faturamento).

O que compreende esse conceito de estilo de vida, além de alimentação equilibrada e combate ao sedentarismo? Há outros elementos?

Ainda não é uma especialidade médica por aqui, mas inúmeros colégios estão abertos a discutir essa visão de estilo de vida. E inclui, claro, alimentação, combate ao sedentarismo a partir da prática de atividade física e controle do estresse – que, na medida certa, faz bem, movimenta a gente. Mas, em excesso, o estresse provoca uma reação em cadeia, em todo o nosso organismo, muito prejudicial.

Agora, quando o assunto é emagrecimento, a gente coloca a alimentação com um peso de 90%.

Para o médico, após emagrecer, é preciso escolher uma dieta para a vida. (Foto: Vanessa Rodrigues)

PRÁTICA Tudo isso?

Falo da minha prática. Atendo pacientes com um nível de estresse muito maior do que outras pessoas, mas que conseguem resultado no emagrecimento mais facilmente. 

Costumo dizer que o mais difícil é fazer a pessoa querer emagrecer. Até porque, hoje, você só consegue mudar a vida de alguém se entregar resultado rápido. 

Qual o conceito de alimentação saudável?

De maneira geral, quanto mais in natura, melhor. Os orgânicos ainda não são tão acessíveis, mas isso não é um problema, nem deve servir de desestímulo.

Tem que consumir, sim, mais verduras, frutas e legumes. Mas as pessoas não vão à feira! É só observar o carrinho de quem vai ao supermercado, cheio de caixas, e o de quem vai à feira.

E quais são os principais vilões da alimentação?

Os principais são o açúcar e a farinha. Mas a grande questão mesmo é a quantidade, e poucos falam nisso. Se fosse para usar um pouquinho, não faria mal. Mas diante das porções que as pessoas consomem e das proporções em que são usados, fazem mal, sim. E isso vale para tudo.

O ideal, sempre, é procurar um profissional. E o nutricionista entende muito de comida, mais do que o médico. Outro erro é que, antes de buscar orientação profissional, as pessoas consultam a internet e acabam fazendo escolhas erradas ali também.

As dietas da moda entram nessas escolhas erradas? Você defende alguma dieta específica, restritiva, como a da proteína, glúten etc.?

Acredito que devemos escolher um tipo de dieta para levar uma vida saudável. Por exemplo, a low carb, com pouco carboidrato, a do Mediterrâneo, de que particularmente gosto mais (baseada no consumo de frutas, hortaliças, cereais, leguminosas, oleaginosas, peixes, leite e derivados, azeite de oliva e ervas)... 

Agora, para quem quer ter resultado de emagrecimento, a restrição é necessária. Às vezes, a pessoa diz: “Estou fazendo a dieta X e perdi dois quilos”. Mas não é por isso, é porque restringiu! Se só tomar água, também vai perder. 

Se você pesquisar no Google um método de emagrecimento, vão aparecer dez páginas. Já se colocar a dieta que emagrece...

Inúmeras!

Porque as pessoas ligam isso a um tipo de dieta. Na verdade, a dieta deve ser eleita para a vida: sou vegano, vegetariano... Agora, emagrecimento é quantidade. Tem gente que chega aqui e diz: “Não quero fazer dieta de jeito nenhum!” Mas faz dieta desde que nasceu, para engordar! 

Dieta não é regime. É importante isso ficar claro, porque senão as pessoas acabam levando uma vida incansável de dietas novas, e novas e novas... E sempre me perguntam qual é a dieta que faço na clínica.

E qual é?

Não temos. Você consegue ter um emagrecimento, saudável ou não, se diminui quantidade. O nosso ponto está em reduzir calorias e aumentar nutrientes para ter resultado. Depois, a gente orienta a pessoa na melhor dieta para a vida dela, com o que ela gosta. 

A partir da alimentação ou por meio de suplementação de nutrientes?

A gente suplementa, sim, porque se eu reduzo o aporte calórico, não consigo ter o mesmo efeito dos nutrientes. Mas quando falamos em termos de alimentação saudável, o que se come, em termos de nutrientes, resolve.

Mas, independentemente de suplementação, quem come mal e passa a se alimentar bem sentirá os efeitos positivos da mudança, certo?

Qualquer mudança é bem-vinda. Em uma semana, você já vai sentir a melhora: vai dormir melhor e, consequentemente, acordar melhor, o intestino vai funcionar bem... 

E o contrário também acontece: quando está longe de um padrão alimentar saudável, você fica mais cansado, mais irritado, com a autoestima lá embaixo...

AVALIAÇÃO Apesar de dizer que a causa não é importante, o paciente passa por exames para saber se não há, de fato, algo mais sério que o impeça de emagrecer?

Fazemos uma avaliação do fígado, rim, e pedimos exames para saber se ele não tem diabetes, anemia, colesterol alto... São avaliados, ainda, os perfis hormonal e metabólico. 

Aliás, não há nada no meio externo ao corpo humano capaz de fazer alguém emagrecer. O que emagrece é o metabolismo. Cabe à pessoa comer menos, de forma orientada, e a resposta virá. “Ah, doutor, estou com sobrepeso e não como muito”. Mas um dia comeu para chegar àquele peso. 

Qual o papel do metabolismo?

Em alguns momentos, ele pode se encontrar mais rápido e, em outros, lento. Mas não pode parar. E, por isso, faz de tudo para proteger o organismo. 

Um adulto consome em torno de 1 tonelada de comida por ano. E onde vai parar esse monte de alimentos? Trinta por cento são eliminados pela evacuação. O restante é o metabolismo que regula: 26% são consumidos pelo fígado, 23% pelo cérebro, 8% pelo coração, 17% são para as necessidades fisiológicas e 26% para os músculos, a grande chave. 

Por quê?

Em todo e qualquer processo de emagrecimento, há perda de músculo (massa magra). O corpo entende que você está comendo pouco, tem menos energia, e precisa economizar para a manutenção do que é vital, fica lento. 

O músculo é o menos vital, e é por isso que há perda, a partir de microlesões. Aí a pessoa volta a comer um pouco mais. E, por mais que coma menos que antes, tem um metabolismo menor e engorda. É quando acontece o efeito sanfona.

E em relação à atividade física?

Ela é o melhor remédio do mundo para tudo, mas, por si só, não emagrece. Coloca algumas pessoas fazendo atividade física comendo de tudo. E outras em casa, deitadas, comendo nada. Quem vai emagrecer mais? Quem não está comendo. 

Falam que a atividade física ajuda a aumentar o metabolismo, mas o ponto certo é começar a fazer um trabalho de emagrecimento com dieta restritiva e atividade física leve (caminhada), protegendo essa massa muscular com suplementos de aminoácidos. Depois disso, entra a atividade física mais intensa. 

Por que aminoácidos?

Uma molécula de proteína é quebrada em cem aminoácidos. A leucina, por exemplo, é um dos grandes regeneradores musculares. Se você faz uma dieta com esse aporte, terá menos lesões musculares, diminuindo menos o metabolismo.

São cápsulas?

Sim, cápsulas. Mas há outras vias de acesso e cabe ao médico escolher a melhor para cada um. Por via oral, a absorção aproximada é de 25%. Quando é injetável, 100%. 

E há três formas: subcutânea, intravenosa e intramuscular. A subcutânea é a mais lenta, a que indico para algumas pessoas. Mas não é isso o que emagrece. É um processo de mudança de hábitos. E tudo isso é classificado como alimento, não há medicamentos. 

Qual a melhor atividade física?

Musculação, porque é a que mais gera ganho de músculo. E se isso acontece, terei uma taxa de metabolismo mais alta e o conforto de comer um pouco mais ou um pouco menos. 

Isso explica também a diferença de emagrecimento entre homem e mulher. Ele, naturalmente, tem mais músculos. E ela vai emagrecer quando a proporção de músculo no corpo for maior do que a de gordura.

Quais os riscos dos anabolizantes?

Anabolizante não tem a finalidade de emagrecer e a utilização deve ser para corrigir deficiências hormonais. Há riscos de desenvolver problemas hepáticos, renais, cardiovasculares... 

Infelizmente, quem faz uso dessas substâncias não admite. E aí é que está o problema: o outro que não consegue emagrecer ou obter bom ganho de massa muscular logo se acha incapaz e se frustra. 

Emagrecimento rápido não faz mal?

Gordura é veneno, certo? Se você for intoxicada com veneno de cobra, você vai querer tirá-lo devagar ou rapidamente? É a mesma coisa. 

Tem que proteger o músculo e, depois, mudar o estilo de vida para manter a máquina. A perda rápida deveria ser vista como estímulo para a manutenção. 

Veja Mais