Doença na pele pode causar profundo sofrimento

Dois a cada três pacientes com grau moderado a grave da doença têm coceira por mais de 12 horas por dia

20/10/2017 - 18:12 - Atualizado em 20/10/2017 - 18:12

Dermatite atópica é doença inflamatória crônica causada por reação do sistema imunológico (Foto: Shutterstock)

Imagine alguém que não consegue tomar um simples banho por ter lesões em sua pele que doem quando a água cai sobre ela. Pense em alguém que, por ter lesões em praticamente todo o corpo, não tem vontade de sair de casa para ir ao trabalho ou à escola, porque não aguenta mais o estigma que elas provocam. Visualize um bebê que não tem aquela pele que se espera que tenha, lisinha e macia, porque ela apresenta feridas, descama e incomoda demais. Os casos graves de dermatite atópica são exatamente assim: limitantes e provocam profundo sofrimento no portador e nos familiares também.

Doença inflamatória crônica causada por uma reação do sistema imunológico – que, em vez de proteger a pele, a ataca –, a dermatite atópica traz ainda sinais como coceira intensa e inchaço, gerando impactos físicos e emocionais. Estima-se que atinja cerca de 20% das crianças e até 3% dos adultos. Normalmente, esses pacientes têm histórico pessoal ou familiar de rinite alérgica ou asma – as três doenças, inclusive, são chamadas de tríade atópica. 

Segundo a diretora da unidade de Imunologia da Sanofi, Ana Cristina Kattar, são três os graus de manifestação: leve, moderado e grave. “Quanto mais severo, maior o impacto na qualidade de vida”, ela diz, reforçando que de dois a cada três pacientes com grau moderado a grave têm coceira por mais de 12 horas por dia. “Além disso, um em cada dois apresenta dificuldade para dormir pelo menos cinco noites por semana. Se uma noite maldormida gera um impacto importante para a gente no dia seguinte, imagine ficar quase que a semana inteira sem dormir adequadamente, por causa da coceira! Nos casos mais severos, é assim que acontece”.

Por tudo isso, com o objetivo de conscientizar a população sobre a doença, a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai) e o laboratório se uniram para instituir o Dia da Dermatite Atópica (23 de setembro), data em que foi lançada a campanha nacional (nas redes sociais, procure por DesapareciDA).

Chefe do ambulatório de dermatite atópica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC/FMUSP), Ariana Campos Yang afirma que, dentro da imunologia, esta é a doença mais difícil de entender. “Por outro lado, o diagnóstico é simples, porque traz uma lesão muito característica: o eczema. E não existe dermatite atópica sem pele seca”. 

Apesar de poder atingir grandes extensões do corpo, as áreas mais afetadas são a cabeça, pescoço, cotovelos, mãos, joelhos e tornozelos. “Mas o que se vê por fora é reflexo do que está acontecendo por dentro da pele”. 

Para se ter uma ideia, a inflamação ocorre a partir do aumento da liberação de duas citocinas (IL4 e IL3) – substâncias liberadas pelo sistema imunológico para regular reações inflamatórias e de defesa do organismo. E é justamente o descontrole nessa liberação que vai desencadear o processo inflamatório exacerbado.

Detalhe: mesmo quando não há lesões, a pele do paciente apresenta uma inflamação persistente em suas camadas mais profundas (são 20 no total). Assim, deixá-la sempre hidratada é uma medida fundamental para manter a doença sob controle. Outros cuidados são:

• Evite banhos longos e muito quentes.

• Use sabonetes e hidratantes neutros.

• Escolha roupas que não agridam a pele – de preferência, de algodão. Tecidos sintéticos retêm calor e o suor pode provocar incômodo intenso.

• Identifique os fatores que desencadeiam as manifestações e evite-os.

“Apesar do estigma causado pelas lesões, a doença não é contagiosa, até porque tem origem genética. Os pacientes podem conviver normalmente com outras pessoas, sem nenhuma restrição”. 

Ainda de acordo com a especialista do HC, a maior parte dos casos leves na infância vai melhorar antes da adolescência. O contrário também é verdadeiro: os graus mais severos têm uma chance maior de perdurarem na vida adulta. “E a dermatite atópica é muito mais do que uma doença de pele, porque traz frustração, vergonha da aparência, desejo de se esconder, isolamento social, ansiedade, depressão, distúrbio do sono, irritabilidade e déficit de atenção”.

O tratamento vai depender da gravidade e da necessidade de cada um, mas inclui restauração da barreira cutânea, terapia anti-inflamatória (com antibióticos, antifúngicos e antivirais), controle ambiental (para eliminar o que provoca as crises) e controle da disfunção imunológica. 

Oacompanhamento médico é fundamental – até porque o uso de corticoides, especialmente tópicos, é comum nesses casos. “Existe uma corticoidefobia. Mas o risco está no mau uso desses medicamentos”, diz Ariana Campos Yang.

Recentemente, a Food and Drug Adminstration (FDA), nos EUA, aprovou uma nova opção de tratamento para quem sofre de dermatite atópica de grau moderado a grave não controlada com as terapias atuais ou para pacientes que não toleram o tratamento com corticoides. 

Primeiro agente biológico desenvolvido especificamente para tratar a doença, no Brasil, o dupilumabe está em avaliação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O medicamento inibe a resposta inflamatória exagerada do organismo aos estímulos externos e reduz a coceira e as lesões na pele.

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