Aprenda a recuperar a concentração por meio do esporte

Distração atrapalha a produtividade, que pode ser melhorada com atividades físicas

14/11/2017 - 17:20 - Atualizado em 14/11/2017 - 17:20

Exercícios físicos ajudam a manter o foco nas situações do dia a dia  (Foto: Shutterstock)

O que mais temos ao nosso redor são ladrões de atenção, como barulhos, preocupações, interrupções de colegas ou familiares, para nos distrair dos nossos objetivos. “Percebo isso na prática, quando faço uma pergunta e a pessoa parece dispersa”, detalha André Franco, estrategista comportamental para alto desempenho, com pós em gestão da qualidade de vida na empresa. “As distrações ameaçam a produtividade. Por isso, nos atendimentos, lembro a cada cliente que aquela hora é dele e peço concentração total”. 

Como o esporte exige máxima concentração, o que podemos aprender para sermos vitoriosos em nossos desafios? “Quando jogamos basquete, futebol ou nos dedicamos a uma modalidade individual (corrida, surf, ginástica), sabemos que o grau de satisfação e desempenho está relacionado a quanto nossa mente permite que estejamos presentes no agora", analisa Bruno Pasquarelli, doutor em biodinâmica do movimento e mestre em fisiologia do exercício, especialista em treinamento desportivo. Por se tratar de uma atividade social, interativa e dinâmica, quando estamos jogando, encaramos situações que mudam a todo instante. E temos que estar concentrados para perceber e agir de acordo com as situações que o jogo nos traz.

“Entramos em um estado mental de atenção capaz de constantes trocas de foco atencional. E quanto mais conseguimos melhorar nisso, mais informações do jogo temos, elevando as chances de vitória. Pois essa capacidade de nos mantermos alertas, atentos e conscientes daquilo que estamos fazendo é a concentração. Extrapolando para a o dia a dia, sim, o esporte pode ajudar a desenvolvê-la e a selecionar os estímulos necessários para as tarefas da vida cotidiana”, diz Bruno, que é treinador de futebol na Next Academy e colaborador da Universidade do Futebol. 

É verdade que cada modalidade de esporte requer níveis de concentração diferentes. O que Bruno ressalta é que aquelas com maior controle postural e de movimentos (ginástica, tênis de mesa, surf, balé, ioga) exigem grande atenção interna, voltada ao próprio corpo. Já jogos de futebol, basquete e outros pedem dos atletas maior atenção aos estímulos do ambiente externo. “Os dois tipos são importantes. No futebol, um cobrador de faltas deve treinar a percepção do seu movimento (atenção interna) para ser preciso na hora H. Em contrapartida, com a bola rolando, a atenção aos elementos da partida (a movimentação dos outros jogadores, a interpretação das situações...) vai guiá-lo de modo a jogar bem”, exemplifica Bruno.

O expert acrescenta que, no Brasil, o Atlético Paranaense é um clube de futebol que se preocupa com esses aspectos: “No corpo técnico do time principal, há quatro especialistas em trabalhar os aspectos da mente. Eles buscam melhorar o desempenho mental e, portanto, cognitivo dos jogadores dentro e fora de campo. Isso implica desenvolver a capacidade de ler o jogo, controlar as emoções em situações adversas e melhorar as tomadas de decisões táticas”. 

Um caso de sucesso americano foi realizado pela equipe do americano Phill Jackson, quando era treinador de basquete, ao introduzir técnicas de meditação e mindfulness (atenção plena). “Essas boas práticas deram resultados e a equipe sagrou-se campeã da NBA por algumas temporadas”, relembra Bruno, acreditando que uma mente treinada é a solução para uma consciência corporal. “Na visão moderna da neurociência, a mente está integrada ao corpo e vice-versa. Portanto, no momento em que uma pessoa se movimenta conscientemente, está unindo o que nunca deveria considerar como estruturas separáveis: corpo e mente. Quem pratica algum tipo de exercício sistematicamente sabe que, enquanto movimenta o corpo, está também exercitando a concentração, o raciocínio e, de certa forma, ajudando a relaxar a mente da imensa quantidade de informações da vida cotidiana”.

• A diferença entre objetivo e desejo. Um dos aspectos mais difíceis de se trabalhar, sob o ponto de vista da psicologia esportiva, é a definição dos objetivos, de acordo com João Barros, psicólogo, professor, mestre e diretor da Faculdade de Educação Física (Fefesp/Unisanta). É o “para que” o atleta vai se mobilizar tanto, técnica, física e psicologicamente, visando atingir o ponto máximo da sua performance. “A definição daquilo que se pretende, em termos de resultados, deve ser clara para esse esportista – assim como para qualquer pessoa que se propõe a executar uma tarefa –, o que inclui saber todo o trajeto, as escolhas e o custo delas”, explica o psicólogo.

Isso determina a ação (determinação) e motivo (motivação), que são combustíveis para se manter o foco até alcançar o objetivo. Ou seja, é diferente de somente ter o desejo. “Isso posto, voltamos para a questão de que vivemos num mundo de respostas rápidas, superficial e cheio de distrações, com o celular passando a ser o terceiro braço no corpo humano. Muita informação dificulta a concentração. Se temos as respostas à mão, por que deveríamos perder tempo e energia psíquica com grandes concentrações?”, questiona João, reforçando que foco requer motivo e treinamento para determinar uma ação ou tarefa.

“Como isso é incompatível com um mundo veloz e povoado por respostas nem sempre certas, mas disponíveis, praticar algum esporte pode ser útil. Vai ensinar que resultado é fruto de mudança de comportamento. E que não existe vitória ou produtividade sem um mínimo de objetivos claros, caminhos a serem percorridos, escolhas e renúncias, preços a pagar por essas escolhas, foco, determinação e resiliência. Ter vitórias é consequência”, afirma o psicólogo.

Todo esporte se revela por meio de um gesto de precisão, segundo o diretor da Unisanta, e é nisso que reside a beleza das modalidades competitivas: “O melhor será, via de regra, aquele que performar acima dos concorrentes naquele momento único, seja uma corrida de nove segundos ou de duas horas. Atletas talentosos são capazes de executar movimentos precisos com altos níveis de concentração. Isso é treinável”.

Quando alguém chega para realizar uma tarefa, na avaliação de João, presume-se que tenha se preparado com o devido tempo e domine aquilo a que se propõe. Como disse o famoso nadador Mark Spitz, após vencer sete provas nos Jogos Olímpicos de Munich (1972): “Nas finais olímpicas, todos estão física e tecnicamente preparados. Ali, o que leva é a cabeça. São os aspectos psicológicos que regem as ações, o foco e a motivação”.

• Picos de atenção e de relax. Outro segredo dos atletas é trabalhar de forma intervalada física e mentalmente. “Não somos máquinas para atender a uma alta demanda de concentração por um longo tempo, sem trégua, sem descanso. Isto é, você tem que saber intercalar picos de produtividade com outros em que relaxa a cabeça e o corpo”, orienta André, que já desenvolveu programas para vários esportistas e outros profissionais da indústria do entretenimento, e atua ainda como dublê de ação para cinema e TV.

“Segundo vários estudos de neurociência, a mente não consegue manter muito foco e concentração numa atividade por longos períodos, geralmente de mais de 90 minutos. Um deles mostrou que os participantes, após uma hora de atividade, quando se distraíam, demoravam 23 minutos para voltar a se concentrar no que estavam fazendo. Ou seja, em uma hora perder 23 minutos com a interrupção é bastante”, fala o estrategista. 

Por isso, ele ensina seus clientes a fatiar as atividades em blocos temporais, fazendo pequenas pausas a cada 60 ou 90 minutos. “Isso facilita restabelecer uma série de componentes cerebrais, para voltar mais ativo e focado para o próximo bloco. Um roteirista me relatou ter aumentado a concentração para escrever. Fazia pequenas pausas em que se levantava, tomava água, fazia outra coisa, e depois retomava. Já uma executiva, que antes emendava uma reunião na outra, criou rituais de preparação (que incluem técnicas de respiração) entre cada uma, o que a ajuda a recuperar a energia e o foco”. 

• Cérebro bem hidratado. André lembra ainda que cerca de 80% do cérebro são compostos de água, e estudos mostram que a hidratação interfere na velocidade de resposta: “É um dos elementos que deixa o cérebro mais otimizado e, por consequência, mais concentrado. Já a falta de hidratação não afeta só o corpo, mas torna o raciocínio mais lento”. 

• Técnica diária de uma vencedora. “Dizem que a concentração em si dura pouco tempo. Por isso, devemos fazer algo para melhorá-la no trabalho e nos comportamentos simples do dia a dia. Por ser um exercício diário, assim como o esporte, devemos treinar sempre. Por exemplo, focando em um objetivo pessoal que queremos muito”, indica a triatleta Rosecler Costa, conhecida como Ironmãe, que incentiva a todos que façam algum esporte nas horas livres.

Ela dá o exemplo de uma pessoa sedentária que precisa iniciar uma atividade física para emagrecer. Intensifique os pensamentos em torno desse objetivo, sempre que o excesso de estímulos digitais ou outras distrações atrapalharem. “Quando seu objetivo se sobressai na sua mente, a concentração volta a reinar. Não é fácil, mas esse exercício dá resultado se for treinado continuamente”, anima Rosecler.

Para mães que são multitarefas como ela, a Ironmãe dá dicas personalizadas. “Comece sempre pelo que é prioridade no seu tempo, no seu dia, na sua semana. Também crie uma rotina que respeite as necessidades do seu corpo (se sente fome ao meio-dia, essa é sua hora de almoçar). É claro que não precisa ser uma rotina maçante. Apenas coloque as atividades principais nos horários ideais, sem ficar mudando, para o cérebro se acostumar. Daí, encaixe as outras nos horários restantes”.

Para quem pensa que, ao seguir os conselhos de Rosecler, só vai cumprir obrigações, sem nenhuma folga para o prazer, ela lembra que o dia tem 24 horas. “O que precisamos é aproveitar cada segundo. Se diz que não tem tempo para a atividade física, sabe aquela meia horinha entre o final de expediente no trabalho e o jantar? Introduza uma caminhada, e essa prática vai refletir na sua concentração”.

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