Após vencer o câncer, santista larga tudo para viajar pelo mundo

Formada em Turismo e com pós em Marketing, Carolina Sanovicz é um exemplo de superação

29/01/2018 - 20:55 - Atualizado em 29/01/2018 - 20:56

Carolina diz que, com o câncer, descobriu o quanto
podia ser forte. (Foto: Arquivo Pessoal)

Conversar com a santista Carolina Sanovicz sem perguntar sua idade é ter a impressão de se estar falando com alguém entre 40 e 50 anos. A maturidade e a percepção sobre a vida e seu lugar no mundo pouco lembram uma jovem de 28 anos. 

E se é verdade que parte desse perfil já nasceu com ela, também é verdade que a outra parte se consolidou a partir de 2015, quando, aos 25 anos, descobriu o câncer na mama. Tirou as duas, fez quimioterapia, engordou e ficou careca durante o tratamento, enfrentou os olhares tortos e os próprios medos. 

Mas também ganhou milhares de fãs nas redes sociais, onde relatava o passo a passo do tratamento, as descobertas, os sentimentos, as pequenas e grandes vitórias. No ano passado, vendeu tudo que tinha, saiu do emprego em São Paulo e “caiu no mundo”. 

Neste exato momento, ela está no Vietnã, mas estão no seu roteiro países nada convencionais para um viajante: Laos, Camboja, Mianmar, Cingapura, Zimbábue. “O câncer me ensinou a viver. Me matou e depois me disse: outra chance, vai lá e faz. Espero não decepcioná-lo”.

Dados oficiais indicam que apenas 7% das mulheres com menos de 40 anos são acometidas pelo câncer de mama. Como foi receber essa notícia com 25 anos? Quais foram os sentimentos e pensamentos mais imediatos?

Até o último momento, admito que eu não esperava, achava que nunca ia acontecer comigo. Apesar do choque, em casa câncer nunca foi sentença de morte e em nenhum momento entrei em pânico. Lembro de ligar ao meu pai (que é um sobrevivente de câncer também) e ele me disse: “Não se preocupe mais que o necessário, estou indo pra sua casa”. 

E, na verdade, o que sinto é que não tive tempo de sucumbir, porque na hora em que as coisas acontecem, o que resta é agir. E no dia seguinte ao diagnóstico, minha vida já tinha mudado completamente: do escritório para exames que duravam o dia inteiro. Dos exames para a cirurgia, da cirurgia para químio. 

O que quero dizer é: não me deu muito tempo para racionalizar o que estava acontecendo. Sou prática. Eu apenas pensava: o que precisamos fazer agora? Qual é o próximo passo? Então faremos e ficará tudo bem.

Desde que recebeu o diagnóstico você começou a postar o passo a passo da doença, o tratamento, as descobertas. E ganhou um sem-número de seguidores, espaço em revistas, TV e sites. Você esperava esse feedback? 

Eu nunca imaginei que nada disso fosse acontecer. Na verdade, antes eu era bastante cuidadosa nas redes sociais. No entanto, toda essa história me faz acreditar ainda mais que tudo acontece como tem que acontecer, porque essa rede que acabei criando pela internet me deu forças imensuráveis. 

Tudo começou porque a reação das minhas amigas, quando ficavam sabendo do meu diagnóstico, era de incredulidade pela minha idade. E sempre me faziam comentários como: “Nossa, não vou ao médico há meses”. 

Isso me fez pensar que precisava fazer um alerta de alguma maneira, precisava contar às pessoas que podia, sim, acontecer com elas, como tinha acontecido comigo, e que precisávamos estar alertas. A mensagem era: cuide-se. 

Essa publicação, feita em agosto de 2015, teve mais de 200 mil likes e 60 mil shares. E foi assim que tudo começou.

E você tem conhecimento de que seus posts ajudaram pessoas a diagnosticar a doença?

Eu fiz amigas por isso, amigas do peito, como dizemos que somos. E recebi mensagens que fizeram tudo valer a pena. Nunca passou pela minha cabeça que meus textos despretensiosos pudessem ajudar tanto pessoas que estavam passando pelo mesmo que eu. Que houvesse tanta gente que precisava escutar o que eu tinha pra dizer. 

Isso foi incrível, criamos uma rede bastante bonita de amor. Conheço duas pessoas que foram ao médico graças ao meu post e foram diagnosticadas. Estão hoje também curadas. Se isso não é suficiente para dar sentido a tudo que aconteceu, não sei o que mais poderia pedir!

Em um dos seus posts no Facebook, você diz que "a iminência da morte nos aproxima da vida". Essa percepção você teve logo no início da doença ou é fruto dos primeiros passos nessa caminhada? 

Eu acho que isso é algo que todos nós sabemos, mas temos dificuldade em viver. Quantas fotos com frases de efeito por aí que passam mensagens do tipo “viva cada dia como se fosse o último”? O problema é que não vivemos. 

E é mesmo difícil, porque, afinal, a vida geralmente segue e não temos como fugir do caminho. Viver sem pensar no amanhã também pode ser inconsequente. Todavia, o diagnóstico do câncer é como um alerta de que de fato a jornada pode acabar antes do esperado. 

Para mim, isso foi libertador. Acho que se alguém está me dizendo que há uma chance de que eu de fato vá morrer antes do que tinha planejado, a única coisa que me vem à cabeça é que preciso viver até lá da maneira que me fará morrer feliz. É isso que mudou e é isso que tenho feito.

Ainda sobre seus textos nas redes sociais, a gente percebe uma Carolina forte, determinada e muito focada na cura. Você foi sempre assim ou o surgimento da doença te fez forte?

Sempre fui bastante positiva e prática. Gosto da palavra prática, porque acho que ela define bastante a maneira com que lidei com tudo isso, tentando simplificar as coisas. Claro, tive momentos ruins, tive noites tristes, questionei por que isso estava acontecendo comigo. Mas de maneira geral meu pensamento sempre foi fazer o que era necessário. 

Confiei nos médicos e segui em frente. Como se fosse um trabalho, uma meta, algo que você se propôs a fazer e precisa fazer. Não acho que o câncer me fez mais forte, mas com certeza me fez enxergar o quão forte eu sou – sempre fui e talvez não soubesse.

Qual você diria que foi o momento mais difícil dessa jornada?

É engraçado pensar nisso, porque desde o primeiro dia de diagnóstico até o fim do tratamento, eu sempre fiquei esperando o momento onde eu fosse desmoronar e de alguma forma ele não chegou. 

Antes da cirurgia eu pensava: bom, quando eles me arrancarem os seios fora, não vou aguentar. Aguentei. Depois pensava: quando meu cabelo cair, não vou aguentar. Aguentei. E assim foi continuamente. 

No início eu imaginava que haveria aquele momento de novela, no qual eu deslizo pela parede chorando, maldizendo a vida por ter me feito passar por isso. Não teve. O que teve, sim, foram pequenos momentos de tristeza profunda. O momento de injetar a agulha no cateter que doía tanto que trazia lágrimas aos olhos. Entende? 

Eram momentos. Momentos que me faziam sentir extremamente exausta, momentos em que o que eu queria era que alguém me pegasse no colo e me dissesse que tudo tinha sido brincadeira e tudo ia voltar ao normal. Mas os momentos eram rápidos e eu não permitia que me ocupassem tempo demais. 

Fui mais feliz do que triste durante todo esse tempo e sigo tentando levar esse ensinamento para minha vida. Os maus momentos vêm, mas lhes dou apenas o tempo necessário para aprender com eles e sigo em frente.

Você continuou trabalhando mesmo durante o tratamento e, em alguns posts, fala dos olhares estranhos de alguns por você aparecer careca ou com aparência debilitada. Como definiria esse olhar e em que ele interfere no dia a dia de quem está em tratamento?

Nós, seres humanos, infelizmente somos assim. Raramente conseguimos evitar o olhar a alguém que tenha qualquer tipo de debilitação. Alguns olham com pena, outros com curiosidade, outros apenas olham porque nunca viram. 

Sempre andei careca pela rua e isso obviamente chama atenção. Eu entendo e não sou hipócrita ao ponto de dizer que talvez se eu estivesse no lugar deles não faria o mesmo. O que acredito que devemos mudar, como espectadores, é a pena. Nunca tive pena de mim e não tenho pena de nenhuma das mulheres que vejo em tratamento por aí. 

Tenho admiração. Sei que são fortes, sei que merecem ser vistas como tal. Eu sempre tive muito orgulho de andar pela rua careca e, quando recebia olhares de pena, ensaiava minha melhor postura e seguia em frente. 

Espero que um dia todas as mulheres em tratamento tenham forças pra caminhar orgulhosas pela rua e todos nós, espectadores, tenhamos maturidade pra olhá-las com nada mais do que admiração. 

É isso que merecem. Não só as pacientes oncológicas, como todos os seres humanos que saem todo dia de casa com algo “diferente” que não têm a possibilidade de esconder. 

Em um dos últimos posts, quando a químio já estava terminando, você agradece ao câncer. O que ele te ensinou?

Sou muito grata a tudo que me aconteceu e costumo dizer que o câncer me trouxe mais coisas boas do que ruins. Sou uma pessoa muito melhor hoje e com certeza é graças a ele. O câncer me ensinou que a casca não é tudo e, mesmo que hoje eu ainda sofra com os padrões de beleza impostos pela sociedade, sei que minha história e minhas marcas me fazem ser muito, muito mais do que isso. 

O câncer me ensinou a ter paciência, a saber esperar, me ensinou que as coisas não vão acontecer sempre da maneira que eu espero, mas vão acontecer da maneira que devem acontecer. 

O câncer me ensinou a julgar menos e a entender mais. O câncer me deixou mais doce, muito mais conectada com as pessoas do que com as coisas. O câncer me ensinou que todos os clichês são verdades e que se esperarmos muito não teremos tempo de vivê-los. Só existe o hoje, o agora. E ele é incrível.

Seja o passado no pós-cirúrgico ou viajando o mundo... O câncer me ensinou a viver. Me matou e depois me disse: outra chance, vai lá e faz. Espero não decepcioná-lo.

Que recado você daria às pessoas que foram surpreendidas por um problema de saúde semelhante e que se desesperaram diante da iminência de um tratamento longo?

Tenho consciência do quanto sou privilegiada, pelo acesso a tratamento de alta qualidade e por um suporte familiar que, infelizmente, nem todos têm. Dito isso, e considerando unicamente a relação da pessoa consigo, eu diria: não se entregue. Não deixe que o medo de morrer (sim, eu sei que dói) te mate. 

Se nos entregamos ao sofrimento, estamos nos matando antes que o câncer o faça. Viva mais! Lute, passe por todas as fases loucas que essa doença traz e viva cada uma delas intensamente. 

O câncer é a vida nos dizendo que existe uma chance de o nosso tempo aqui ser menor. Há algum motivo mais lindo para viver a vida que você sempre quis?

Viajar pelo mundo já era um sonho antes da doença, surgiu depois dela ou foi agilizado em função de tudo isso?

Sempre fui uma obcecada por viagens. Vivi fora do Brasil pela primeira vez quando tinha 16 anos e desde então sempre soube que era mais feliz na estrada. O sonho de viajar o mundo sempre existiu, mas sempre me pareceu um pouco impossível. 

Depois da doença, comecei a levar mais a sério a possibilidade de realizá-lo e percebi que não era tão impossível assim. Agora estou aqui. Estou transbordando de felicidade e acredito que estou exatamente onde deveria estar. Fazendo o que deveria fazer. 

Isso, na minha vida, significa que se por acaso meu oncologista me disser daqui a seis meses ou dez anos que meu tempo acabou, estarei feliz e realizada com o caminho que percorri até lá.

No seu roteiro há países nada convencionais para a maioria dos viajantes, como Cingapura, Vietnã, Camboja, Zimbábue, Laos. Por que esse roteiro?

Essa viagem para mim está mais ligada a pessoas do que a lugares. Gosto de encontros, gosto de contar minhas histórias, gosto de ouvir histórias de pessoas que nunca vi. Nada me deixa mais feliz do que estar ao lado de alguém que não conhecia há três dias e sentir que essa pessoa faz parte da minha vida de forma superimportante. 

Estou priorizando roteiros e países que sei que me trarão mais encontros genuínos. Quero ver o que há de mais diferente do que vivo. Gosto da beleza de entender que existem pessoas que vivem de formas com as quais jamais sonhamos. Gosto de não entender o idioma, de me perder, de me encontrar. 

Estou priorizando a Ásia e a África nessa viagem porque sinto que será onde serei mais feliz. Mas não há nada engessado, posso mudar de ideia. Não tenho passagem de volta e não compro nada com mais de uma semana de antecedência, simplesmente para estar aberta ao acaso. 

Quando você está viajando conhece pessoas, amigos, amores que mudam seu rumo. Quero poder mudar de rumo o máximo possível. Isso pra mim é viver.

O que você espera trazer desse ano sabático? E o que pretende fazer quando retornar ao Brasil?

Que pergunta difícil. Estou tentando não criar um objetivo, uma meta: voltar assim, voltar assado. Sei que quero viver um ano incrível, já estou vivendo.  Quero encontrar a minha maneira de ser feliz. Sou feliz na estrada, mas dinheiro não cai do céu, então, estou buscando encontrar um meio-termo que possa pagar minhas contas e me preencher a alma. 

Acho que essa é a busca, um futuro no qual responsabilidades e felicidade caminhem juntas sem uma machucar a outra. Sempre tive vontade de abrir um hostel e cada vez mais tenho certeza de que é isso que vou fazer. 

Hoje, é a vida que me parece mais próxima do que chamaria de felicidade. Quero receber pessoas, quero estar perto dos viajantes, quero contar minhas histórias, ouvir as deles e ajudá-los a ter uma boa noite de sono no meio da jornada. 

Bons anfitriões são para os viajantes como bons enfermeiros para os doentes, podem ser o melhor ou o pior de tudo. Quero ser o melhor para todos os mochileiros que cruzarem meu caminho! 

Estudar, fazer faculdade, arrumar um emprego, comprar uma casa e um carro, casar, ter filhos e reproduzir esse modelo aos seus descendentes. Como está sendo fazer algo diferente desse roteiro?

Está sendo incrível. Sempre questionei muito se isso me faria feliz e hoje tenho certeza que não. Isso não quer dizer que um dia não vá me casar, ter filhos e comprar uma casa. Mas isso não norteia nenhuma das minhas decisões.

Na estrada, conhecemos muita gente que está refletindo a mesma coisa. Não queremos isso, então, o que queremos? Como conseguir? Somos todos questionadores e não conseguimos evitar. É uma turma complicada, viu? Mas muito consciente, e de alguma forma acredito que estão iniciando um movimento, um novo modelo. 

Estou apenas sendo sincera comigo mesma e com o que me faz feliz. Acho que isso basta.

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