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Quarta-feira, 11 de maio de 2011 - 08h25

Morte a bordo

PF indicia namorado de bartender

Lyne Santos


Créditos: Arquivo pessoal

Atualizado às 11h40

Após um ano e quatro meses, as investigações da Polícia Federal (PF) concluíram que a bartender do MSC Musica Camilla Peixoto Bandeira, de 28 anos, foi assassinada pelo seu namorado Bruno Souza Bicalho, garçom daembarcação. Os tipos de ferimentos identificados no pescoço da jovem indicam que a morte foi provocada por estrangulamento com as mãos.

A ex-tripulante do navio de cruzeiros foi encontrada morta no interior da cabine que dividia com o companheiro, no dia 10 de janeiro do ano passado. A PF trabalhava com duas hipóteses: suicídio ou homicídio. A possibilidade de Camilla ter tirado a própria vida foi levantada após Bruno garantir que a moça teria se enforcado com um lençol amarrado no tubo do ar-condicionado.

O garçom manteve o mesmo discurso nos cinco depoimentos prestados à PF, inclusive, durante a segunda reconstituição do crime, realizada a bordo, na qual estava presente.

Para o delegado da PF de Santos responsável pelo caso, Sandro Pataro, as declarações de Bruno acabaram ajudando nas investigações, já que apenas duas possibilidades foram investigadas desde que a Polícia Federal foi comunicada sobre a morte: Bruno a teria matado ou ela teria se enforcado com um lençol, conforme afirmou o seu namorado, o primeiro a encontrá-la morta. Ao descartarem, por meio de indícios de provas e laudos, que a bartender não usou um lençol para se matar, a autoridade policial ficou convencida que se tratava de um homicídio.

“Todos os pareceres técnicos e médicos chegam à conclusão de que o corpo nunca esteve pendurado e os ferimentos no pescoço dela não foram feitos por  um lençol. Então, por que Bruno criaria uma história justamente sobre um suposto enforcamento por lençol para justificar a morte da companheira, se ele não estivesse envolvido na situação?”, questionou o delegado, que apesar de cauteloso sempre se mostrou cético diante das contradições observadas nas declarações do namorado de Camilla.

Conclusões

A Polícia se convenceu recentemente de que a jovem foi mesmo assassinada após receber pareceres técnico-científicos do Instituto Médico Legal (IML) de Santos e de um médico-legista conceituado, do Rio de Janeiro, contratado pelos advogados da família de Camilla. Os materiais foram essenciais para complementar os primeiros laudos encaminhados à PF.

“Ambos os pareceres foram bem similares em suas conclusões. O que veio do Rio de Janeiro é um pouco mais claro nas suas afirmativas, é mais incisivo ao dizer que não houve suicídio. Ele afirma que os ferimentos no pescoço da Camilla não poderiam nem ser denominados sulcos, os quais possuem um traçado bem diferente do que foi detectado no pescoço de Camilla. Aqueles ferimentos seriam mais corretamente classificados como rastroses coriativos, ferimentos típicos de estrangulamento com as mãos”, destacou.

Jáo parecer do IML, elaborado pelo mesmo médico responsável pela necropsia do corpo de Camilla, foi feito com base em questionamentos do delegado, relacionados aos tipos de ferimentos, coloração, entre outras informações. A intenção da PF era fazer um diagnóstico diferencial entre homicídio e suicídio. Nesse caso, algumas respostas do IML foram substanciais para que o delegado tirasse as suas dúvidas.

“Bruno, na reconstituição do crime, alega que o nó estava na frente, por isso haveria ferimentos na parte de baixo do queixo de Camilla. Pesquisamos na literatura,verificamos querealmente existem casos – bem raros – de enforcamento com nó na frente. Mas, se o nó estava na frente, o peso todo iria para a nuca, então perguntamos o que poderia ser dito sobre isso, já que Camilla não tinha nenhuma marca do meio do pescoço para trás”.

Segundo Pataro, o IML afirmou que “é possível concluir que as lesões não correspondem ao que comumente observamos em casos de enforcamento (suicídio)”.

Já ao ser questionado sobre o posicionamentodo nó do lençol, o IML reiterou: “Mantemos nossas convicções,as lesões produzidas são atípicas, não parecem com enforcamento. Nos parece mais uma lesão de constrição cervical com apoio posterior da cabeça, a qual corresponderia às imagens do corpo”.

Um dos pareceres técnicocientíficos recebidos pela PF apresenta ilustrações de várias possibilidades de estrangulamento. Um deles chamou a atenção do delegado. Na referida figura, o agressor tomaria uma posição como que sentado sobre a barriga da vítima, dificultando a fuga, havendo ainda a possibilidade de os braços da vítima ficarem presos pelos joelhos do agressor.


“Qualquer tentativa de defesa ficaria ainda mais difícil. E, inclusive, poderia ser gerado atrito entre os sapatos do agressor e as mãos da vítima, o que explicaria os ferimentos nas mãos da bartender”.

Sobre a força aplicada no corpo de Camilla, o direcionamento apresentado pelo IML também chamou a atenção da PF, uma vez que tendeu à horizontalização, ou seja, foi de frente para trás. “Se o corpo estava pendurado, a força deveria puxar o pescoço para cima, mas os pareceres técnicos afirmam que a força foi ‘tendendo à horizontalização’. Esta simples constatação já desmonta a maioria das narrativas de Bruno, de que o corpo esteve pendurado, reforçando alegações de outras testemunhas, as quais realmente declaram não terem visto nenhum lençol pendurado no teto”, garantiu o delegado.

Investigação

Além do pedido de novos pareceres, o longo processo de investigação da Polícia Federal contou com depoimentos de amigos de Camilla e de Bruno, feitos a bordo do Musica, sempre que ele estava atracado no Porto de Santos. Também houve análise de listagens com registro de acesso à cabine do casal e dos telefonemas feitos no quarto e no bar onde trabalhavam, além de laudos diversos e perícias, tanto do local do crime, como do suposto lençol mencionado pelo namorado da jovem.

“Em resumo, Camilla morreu, conforme os pareceres técnicos recebidos, devido a um ferimento no pescoço causado por ação de outrem, que acreditamos ter sido o Bruno, por conta de todas as evidências que
constam nos autos”, finalizou. Com o fim da investigação, o delegado Sandro Pataro enviou umacarta precatória à PF de Divinópolis (MG) – cidade onde moraria o rapaz – para que fosse feito o indiciamento formal do acusado. Apesar de Bruno não ter sido encontrado no endereço fornecido à PF de Santos, o mesmo foi contatado por telefone e compareceu para o indiciamento.


O último passo da PF será concluir e encaminhar o relatório final ao Ministério Público Federal, que analisará o material e dará continuidade ao processo.


Questionado sobre a responsabilidade da MSC Cruzeiros sobre o crime, Pataro afirmou que “na esfera criminal, a companhia não tem relação direta comos fatos ocorridos. Não há nenhum tipo de imputação à empresa”.

Já a MSC reiterou que deverá se pronunciar apenas quando for oficialmente notificada sobre o resultado  das investigações.



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