Marcus Fernandes
A Surfrider é uma fundação norte-americana que se dedica à proteção dos oceanos e ambientes costeiros em todo o mundo. Além do ativismo ambiental, nos últimos anos ela vem se destacando pelos vídeos que embalam as suas campanhas.
A última delas foca o problema do descarte incorreto dos polímeros. Batizada de Rise Above Plastics, ela afirma que “(o plástico) …provoca mais de 1,5 milhão de mortes nos animais marinhos por ano”.
Para ilustrar a campanha, a Surfrider encomendou à agência Borders Perrin Norrander um vídeo que pode ser visto AQUI ou ao lado.
A mensagem é curta e direta, mas sem perder certa poesia – mesmo que nesse caso seja trágica. A realidade, porém, corrobora a criatividade dos publicitários.
46 mil fragmentos
Segundo o Programa Ambiental das Nações Unidas, existem 46 mil fragmentos de plástico em cada 2,5 quilômetros quadrados da superfície dos oceanos. Isso significa que esses resíduos já respondem por 70% da poluição marinha.
Estima-se que 267 espécies, principalmente pássaros e mamíferos marinhos, engulam resíduos plásticos ou os levem para seus filhotes julgando tratar-se de alimento. Há seis anos, uma baleia Minke foi encontrada morta na Normandia, no norte da França, com 800 quilos de sacolas plásticas no estômago.
No mar, sob a ação do vento e da água, os plásticos vão se degradando, ficando cada vez menores. O resultado desse processo recebeu o nome de ‘lágrimas de sereias’ (mermaids tears).
Na Nova Zelândia, por exemplo, foram verificados depósitos com mais de 100 mil pellets por metro linear de praia. No litoral da Bahia, um monitoramento indicou a presença de embalagens plásticas oriundas de mais de 60 países, principalmente dos Estados Unidos, Itália e África do Sul.
Nas praias da Baixada
Caso você nunca tenha visto um desses pellets, basta caminhar pelas praias da Baixada Santista. Se você reparar com atenção verá pequenas bolinhas misturadas na areia.
Elas podem ser brancas, meio amareladas ou mesmo coloridas, tendo entre um e cinco milímetros de diâmetro. O que são? Nada mais, nada menos do que resina sintética, em geral polipropileno ou polietileno.
É dessa forma, em pellets (bolinhas ou grânulos, em inglês) que a matéria-prima dos produtos plásticos é fabricada nas indústrias químicas. Separados em mais de 40 diferentes tipos, esses grãos são então transportados pelo mundo inteiro.
Quando chegam às fábricas, eles são colocados em máquinas que darão o formato final desejado, tais como copinhos, garrafas, baldes, mamadeiras, isolantes de fiação, réguas, canetas, bolas, bonecas enfim, milhares de produtos presentes no nosso cotidiano ´´ um processo que cresceu vertiginosamente a partir do final da 2ª Guerra Mundial, quando os polímeros começaram a ser produzidos em larga escala, provocando uma profunda mudança no cotidiano da humanidade.
Hoje, os minúsculos pellets são um problema mundial, com vários estudos publicados, principalmente no Japão, Estados Unidos e Europa.
Albatrozes
Essas ‘bolinhas’ não são uma exclusividade do litoral paulista, muito pelo contrário. A única diferença é que a Baixada Santista é a única região no Brasil a ter um levantamento sobre a quantidade de pellets na areia das praias.
O trabalho vem sendo coordenado pelo pesquisador Alexander Turra, do Instituto de Oceanográfico da USP (IOUSP). Em breve ele espera ter uma estimativa da quantidade desse microlixo na região.
Segundo o oceanógrafo, Frederico Pereira Brandini, da Universidade Federal do Paraná, um relatório da agência ambiental norte-americana revelou que os pellets já estão presentes nas areias das praias de todos os oceanos, sem exceção. Revelou também que a contaminação se dá ao longo do processo industrial de peletização, armazenagem, transporte e processamento do material.
“Vamos supor que haja uma perda mínima, irrisória, de 0,001% dessa matéria durante o transporte terrestre e marítimo. Isso representa 10 bilhões de nibs que podem chegar à zona costeira. Mesmo que minhas estimativas sejam exageradas, e que o número seja muito menor, os nibs duram de 1 a mais de 10 anos no mar. E é aí que vem o pior”, afirma Brandini.
Não ingerir
No mar, essas pelotas, esféricas, ovais ou cilíndricas, podem ser quase que imperceptíveis ao olho humano, mas são facilmente detectadas pelos animais, como tartarugas, peixes e aves, que as confundem com comida boiando.
“Pesquisas indicam que pelo menos 80 espécies de aves marinhas ingerem nibs, principalmente o grupo que inclui os albatrozes e petréis. Estudos indicam que os nibs podem permanecer no trato digestivo das aves entre 10 a 15 meses, ocupando espaço, diminuindo a eficiência alimentar e a absorção de nutrientes, causando enfraquecimento e morte dos animais”, explica o pesquisador paranaense.
A pesquisadora santista Tatiana Neves, coordenado do Projeto Albatroz, confirma o depoimento de Brandini. “Temos não só vários relatos desse tipo de ocorrência como a constatação da presença dos pellets nos estômagos e moelas de aves já analisadas”.
Segundo Alexander Turra, para os seres humanos os pellets ou nibs podem causar sérios problemas de saúde se ingeridos. “Eles têm a característica de adsorventes, ou seja, se passarem, por exemplo, por uma mancha de óleo, irão agregar partes dessas substâncias a suas superfícies”. O risco no caso do contato com a pele é reduzido.
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