Uma festa de carinho, pela boca

A cada quinze dias, a Clínica de Odontologia da Unisanta se transforma em um grande salão para atender pacientes mais do que especiais

06/09/2017 - 11:05 - Atualizado em 06/09/2017 - 18:18

A clínica foi criada em 2002, ano em que se formou a primeira turma de Odontologia da universidade;
de lá pra cá, diversificou-se

Novos e antigos convidados reunidos para uma grande festa de doação, carinho, amor e, principalmente lições de vida.

No “salão” do evento, toda a decoração digna para uma noite mágica: balões coloridos, plumas, brinquedos, enfeites... A diferença é que, nesse baile de gala, os anfitriões não usam vestidos ou ternos. Seus trajes são impecavelmente brancos aventais, luvas de silicone, toucas e máscaras. E os convidados, por sua vez, não vão para comer ou dançar. E, sim, para cuidar da saúde.

Esta é a Clínica de Odontologia da Unisanta onde, quinzenalmente, às quintas-feiras, estudantes e professores atendem gratuitamente pacientes com necessidades especiais.

Rica em diferenças
A clínica foi criada em 2002, ano em que se formou a primeira turma de Odontologia da Universidade. A princípio, com atendimento gratuito a quem se interessasse pelo serviço. “Imediatamente, começamos a receber pacientes de todas as cidades da Baixada Santista e do Vale do Ribeira. Alguns, contando com auxílio das prefeituras para conseguir o transporte”, conta a coordenadora, Rosângela Aló Maluza Florez.

Segundo Rosângela, na época, já era uma satisfação para alunos e professores atender moradores sem condições financeiras de pagar por um tratamento.“Fomos capazes de fazer sorrir quem nunca havia conseguido. É um momento inesquecível, que só sabe quem vive”.

Aposta certa
Foram oito anos de sucesso e milhares de atendimentos. Ainda assim, em 2010, o então aluno Paulo Bonavides sentiu que nem tudo estava perfeito.

“Tínhamos um paciente, autista, que comparecia à clínica toda semana, mas nunca se permitia ser atendido. Nunca abria a boca para ninguém”. Mesmo assim, ele resolveu arriscar e fazer o seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) na clínica, com o paciente. “Coloquei minha graduação em risco porque eu acreditava”.

Sob os olhos atentos do paciente, professores e membros da comissão avaliadora, o estudante, ao mesmo tempo em que começava o procedimento, também se vestia de palhaço.

“Era incrível a reação dele. Eu pegava um objeto, e colocava a alça de palhaço. Pegava outro e vestia a camisa. Coloquei nariz, maquiagem e peruca. No fim da consulta, ele percebeu que seu dentista era um palhaço completo. Ficou tão encantado que me deixou atendê-lo”.

O sucesso de Paulo emocionou profissionais e a família do paciente, que não largava mais o palhaço-dentista. “Tive de explicar a ele que o palhaço não era só dele. Era, também, de outros pacientes”.

 

Às quintas, o atendimento vira festa, para alegria das crianças com necessidades especiais atendidas

Personagens
Por dois anos, o palhaço-dentista foi voluntário na Clínica de Odontologia da Unisanta. Até que, em 2012, na pós-Graduação em Odontopediatria, teve de repensar sua estratégia.

“Profissionais mais experientes me mostraram que em casos de maior complexidade, como cirurgias, eu não conseguiria atender fantasiado. Então, recorri ao Plano B. Trouxe funcionários da Hora de Brincar, companhia de festas da minha família, fantasiados de personagens dos desenhos animados para exercer esse papel”.

Agora professor, Bonavides é um dos maiores incentivadores do atendimento social e humanizado. “São pacientes sensíveis, de histórias sensíveis. Pessoas que nunca se permitiram ser atendidas em outras clínicas e encontram aqui, na Unisanta, um ambiente onde se sentem bem, a ponto de confiarem nos profissionais”.

Amor
Em datas especiais, como Páscoa, Dia das Crianças, Natal, super-heróis, princesas, cowboys, monstros, e muitos outros visitam os 70 pacientes especiais e os 150 dentistas.

Carinho que tocou a família de Guilia Gabriela Ferreira Rodrigues, de 15 anos, que, desde 2008, nunca perdeu uma noite de atendimento.

“É uma alegria quando ela sabe que está vindo para cá. Já passamos por diversas turmas de atendimento e a atenção que nos dedicam é sempre a maior possível”, explica a mãe, Rosana dos Santos Ferreira.

Para Lucas Santos Oliveira, de 20 anos, um dos novos dentistas de Giulia, receber a paciente tão conhecida é um privilégio e um desafio. “O nome dela é um dos mencionados pelos professores nas aulas teóricas, preparatórias à clínica. Muita responsabilidade, né? Continuar o bom trabalho que os colegas faziam. Mas eu e minha parceira, Juliana Paulino, estamos determinados”.

Já o estudante Thiago Ramos, de 38 anos, que assumirá as consultas de Julliane Lima Guimarães, de 32 anos, juntamente com o amigo Marcelo Henrique dos Santos, acredita que sua experiência com pacientes delicados será valiosa.

“Cresci numa casa de médicos, meu pai era pediatra e eu já lidei com pacientes especiais. Apesar da Julliane ser adulta, o carinho e a forma de falar tem de ser os mesmos que usamos para as crianças. Tenho certeza de que vamos criar um grande vínculo”.

Perfil

Projeto: Clínica da Unisanta
Oque é? A clínica de pacientes especiais da Unisanta é um projeto do curso de Odontologia que atende, duas quintas-feiras por mês, pessoas com necessidades especiais.
Desde quando? 2008.
Onde? Rua Dr. Cesário Mota, 8, Boqueirão, Santos.
Contato: recepcaoodonto@unisanta.br