Um mundo novo, da força das mãos

Uma aula diferente do curso de Arquitetura da UniSantos foi o embrião do Instituto Elos, que hoje se dedica a mudar ruas e bairros

04/10/2017 - 09:27 - Atualizado em 06/11/2017 - 13:28

O principal projeto é o Guerreiros sem Armas, que reúne jovens voluntários em ações de melhorias
em bairros e áreas carentes

Quantos passos separam o mundo em que vivemos do mundo com que sonhamos? Para o Instituto Elos, organização santista dedicada a revitalizar comunidades na região e no País, são apenas sete.

“O olhar, o afeto, o sonho, o cuidado, o milagre, a celebração e a re-evolução”, explica o arquiteto e co-fundador da entidade, Rodrigo Rubido Alonso. “Cada um deles tem, por trás, um significado e um trabalho conjunto. Conforme avançamos, descobrimos coisas maravilhosas e, ao fim dele, transformamos a comunidade e nos transformamos também”.

O Elos surgiu antes mesmo do nome. Foi em 1995, por um grupo de alunos de Arquitetura da UniSantos.

“A iniciativa dos estudantes daquela época é que, durante uma semana, tivéssemos aulas do lado de fora da universidade. Observando os locais, as construções, as necessidades... estivemos no Valongo, no Paquetá, no Dique da Vila Gilda, no Forte da Barra, na Ilha Diana. Ouvimos os moradores e nos atentamos ao que queriam para o bairro deles”.

Em poucos dias, os estudantes projetaram e revitalizaram praças e sedes sociais do bairro. “Foi quando percebemos que dava para fazer, dava para ajudar o próximo com pouco. Precisávamos, somente, dos nossos conhecimentos e de força de vontade”. Animados pela capacidade de realizar mudanças positivas, os jovens arquitetos se engajaram em um novo projeto: uma campanha do Rotary Club para recuperar o Museu de Pesca de Santos. “Entendemos que a sociedade deveria ser ouvida. Fizemos pesquisas, perguntamos a idosos e crianças como imaginavam o museu, o que gostariam de ver lá”.

A atitude chamou a atenção da mídia e, com essa projeção, o Governo e a Petrobras decidiram investir. “Ganhamos notoriedade no Brasil e na América Latina. Jovens de vários países começaram a vir e ajudar. Na última fase das obras, 60 pessoas de todas as idades e áreas de estudo estavam reunidas, colocando a mão na massa”.

Guerreiros sem armas
O resultado da obra, em 1999, fez os amigos novamente analisarem seu papel social. “Todos estavam formados ou se formando. E aí? Como dar sequência?”, lembra Rodrigo. “Precisávamos trabalhar e começar a ganhar dinheiro com a nossa profissão, no entanto, o que todo mundo queria era se dedicar ao projeto”.

Aqui, os jovens guerreiros em ação no Morro do
José Menino, em 2015: projeto reconhecido no mundo

A ideia, então, foi transformar a vivência do grupo em um curso. “A princípio, para estudantes de Arquitetura, mas começamos a perceber que seria mais rico à medida que abríssemos para todos. Recebemos desde universitários da América Latina, até a liderança indígena de tribos na Amazônia”.

 

O nome, Guerreiros sem Armas, tem inspiração no termo txucarramãe, disseminado pelo escritor e ativista indígena

Kaká Werá. “Quer dizer que não precisamos de armas ou inimigos para lutar. Podemos lutar em conjunto, para um mundo melhor”.

O curso, em julho, tinha duração de 30 dias. E visava passar adiante os ensinamentos de cativar e efetivar mudanças.

“Voltamos à Vila Gilda e à Ilha Diana. Envolvemos a comunidade e direcionamos seus talentos para a transformação local. Se um é marceneiro, faz o banco da praça; outro é pintor, se encarrega do acabamento das paredes. As moças costuram, fazem toalhas de mesa... dessa forma, a gente termina o nosso trabalho, mas, quando saímos de lá, os moradores aprendem como fazer para dar sequência às melhorias”.

Crise
Entre 2000 e 2005, o Guerreiros Sem Armas seguiu com o curso e promoveu benfeitorias em muitas cidades da Baixada Santista e Vale do Ribeira. Todavia, apesar dos bons ideais e preocupação com o próximo, a parte financeira da entidade não ia tão bem. “Éramos jovens, não sabíamos nos organizar financeiramente. Pegávamos empréstimos para as ações e o dinheiro acabava sumindo das nossas mãos”.

Nesse período, o projeto já havia ganhado visibilidade de lideranças norte-americanas.“O Instituto Berkana, em Nova Iorque, enviou membros para nos visitar. Chegaram bem quando pensávamos em desistir. Não deixaram. Nos ensinaram a pensar uma forma financeiramente autossustentável de realizar nossas ações, de forma que não necessitasse muita verba. Nos apresentaram ao mundo das ONGs e de como poderíamos conseguir verba e patrocínio”.

As orientações americanas duraram dois anos e transformaram o trabalho brasileiro em algo profissional. “Entendemos que não dava para manter escritórios de arquitetura e trabalhar fora, que devíamos nos dedicar a isto aqui. E que os profissionais da entidade deviam, sim, ser remunerados. Não para ficar ricos, mas para se sustentar. E manter o Instituto como sua única função”.

Perfil

Projeto: Instituto Elos
O que é? Organização Social que auxilia bairros e comunidades com pequenas obras e reformas
Desde quando? 1995
Onde? Rua Marechal Hermes, 37, Boqueirão, Santos
Contato: www.institutoelos.org