Um abraço que alivia a dor do câncer

Associação Brasileira de Apoio e Combate ao Câncer Infantojuvenil ajuda pacientes e famílias no tratamento e em suas necessidades

18/10/2017 - 10:33 - Atualizado em 31/10/2017 - 11:48

Abraccii tem espaço de acolhimento para famílias cadastradas, denominado Norma Couto Gonçalves, avó de Raphael, um dos fundadores

Lê-se “abrace”. Do verbo abraçar, descrito no dicionário como tomar entre os braços, unir-se de modo muito próximo, admitir sem relutância, receber bem. São princípios da Associação Brasileira de Apoio e Combate ao Câncer Infantojuvenil (Abraccii) em seus três anos de funcionamento.

Em caso de dúvida, basta perguntar às 120 crianças abraçadas pela entidade. “Pelo câncer, temos 37 meninos e meninas cadastrados. Mas como você vai, por exemplo, dar um brinquedo de Dia das Crianças a eles e deixar seus irmãos de fora? Mesmo que seja pelo motivo de ter câncer e os irmãos não, criança não vê dessa forma. Se você abraça um, você abraça todos”, diz o presidente, Raphael Gonçalves Diegues.

Virando a chave
Kelly Cristina Santos Vieira e Raphael Gonçalves Diegues se conheceram numa empresa de recuperação de crédito, em 2012. “A gente trabalhava cobrando as pessoas. Situação chata e muito estressante, porém necessária, sabemos”, conta Raphael. “Depois de um tempo juntos, percebemos o potencial que essas ligações tinham de fazer um bem muito maior: coletar fundos para uma causa nobre como câncer infantil”.

A ideia partiu de Kelly. Ainda na empresa, mobilizava funcionários para doações no Natal e em outras datas. “Mas tudo era feito de forma que a gente não tinha muito contato com quem estava recebendo. Foi quando eu senti que não era mais suficiente e fiz uma proposta a ele”.

Cada vez mais envolvida, Kelly sugeriu a Raphael que se dedicassem à causa do câncer. “Ela perdeu pessoas próximas com câncer, eu perdi muitos na família. Principalmente minha avó, Norma Couto Gonçalves, que me criou. Eu a chamava de mãe. Em quatro meses, o câncer a levou. Para mim, é uma doença particularmente difícil de lidar”.

Ainda relutante, aceitou o desafio. “Gostamos de dizer que viramos a chave. Se antes a gente ligava para cobrar, com um discurso preocupado, agora ligamos descontraídos, para cativar e trazer mais pessoas para nossa corrente do bem”.

Primeiros atendimentos
Antes de mergulhar de cabeça na forte realidade que é o câncer, o casal dedicou-se a conhecer instituições paulistanas do gênero. “Ficamos alguns dias em São Paulo e visitamos o Instituto Ronald McDonald, a Casa Hope, a Casa Ninho e, por fim, o Graacc. Foram passos decisivos para assumir a responsabilidade de trazer essa ideia para a Baixada Santista”, explica Kelly.

Em julho de 2014, a Abraccii surgiu num espaço comercial na Cidade. “Mantenho grandes amigos desde a época do colégio e recorri a eles para dar o pontapé inicial da entidade. Começamos montando cestas básicas para famílias com crianças atingidas pela doença. Eles já têm tantas despesas... Pelo menos nisso pudemos ajudar”.

A primeira criança abraçada pela entidade foi trazida pelo pai de Kelly, Wanderment Gomes Vieira, de 65 anos. “Eu sou voluntário há 20 anos na Vila Margarida, em São Vicente, e sempre vejo pessoas necessitadas. Fiquei feliz pela minha filha realizar um trabalho como este e passei a ajudar”.

Trabalho
Por três anos, a Abraccii manteve sede no edifício comercial, mas a ação prática era nas ruas, por Raphael e Wanderment.

“Rodamos os bairros mais carentes de toda a Baixada Santista entregando cestas básicas e brinquedos às nossas crianças cadastradas”.

Kelly trata de administrar e buscar recursos. “Também faço o contato com famílias que descobrimos com histórias marcantes. Hoje, contratamos duas pessoas para a arrecadação de verba por telefone. Ainda temos nossa psicóloga, dois advogados, e assessor de imprensa. Todos voluntários”.

Entre os atendidos, a propaganda é feita boca a boca. “Na recepção dos hospitais, enquanto aguardam as crianças passarem pela quimioterapia, as mães conversam. E uma vai contando para a outra sobre a Abraccii e o que fazemos”.

O foco são moradores de Bertioga a Peruíbe, mas a associação chegou a Boraceia, entre Bertioga e São Sebastião. “Era um jovem nosso, que morava aqui na região. Com a crise, teve de mudar-se para mais longe. Não íamos abandoná-lo”.

Casa Norma Couto
Buscando ampliar o espaço da entidade, Raphael e Kelly alugaram um imóvel de 190 metros quadrados na Rua Silveira Lobo, 1, Vila Mathias. “Doar as cestas básicas não eram mais o suficiente para nós”, lembra Raphael. “Queríamos um ambiente para essas famílias, onde pudessem descansar, comer”.

Cento e vinte crianças são atendidas pela instituição, considerando-se 37 com câncer e os parentes delas

Enquanto acompanhava parentes em tratamento na Santa Casa, Raphael rodava a Vila Mathias em busca do local ideal. “Ao invés de gastar 20 reais de estacionamento e ficar parado duas horas esperando, eu usava esses R$ 30,00 com combustível para dar umas voltas por aí. Quanto mais próximo do hospital, melhor”.

Agora, pacientes e responsáveis têm para onde ir após as sessões de quimioterapia: a Casa Norma Couto Gonçalves, batizada em homenagem à avó de Raphael. “Ficávamos desolados em ver mães sem poder lavar uma roupa. Sentadas em bancos, nas praças, ou na saída do hospital, até chegar o transporte da Prefeitura. Viemos para dar esse acolhimento”.

Com sala de convivência, brinquedoteca, banheiro, cozinha, lavanderia, espaço para tratamento psicológico e quarto de repouso, o novo núcleo já recebe as famílias cadastradas. “A gente vem do Samaritá, em São Vicente, e não tinha onde ficar”, afirma

Tatiane Santos do Nascimento, mãe de Rebecca Santos do Nascimento, de 4 anos, com câncer ocular.

Apoio
Mesmo atuando por conta própria e com doações esporádicas, o que a Abraccii mais pede são sócios contribuintes ou empresas apoiadoras. “Pequenas ajudas são suficientes. E, acreditem, esta ação social é mais benéfica para nós, para nossos corações, que para eles”, diz Raphael.

Perfil

Projeto: Associação Brasileira de Apoio e Combate ao Câncer Infantojuvenil (Abraccii)
O que é? Casa de apoio a crianças com câncer e suas famílias
Desde quando? Julho de 2014
Onde? Rua Silveira Lobo, 1, Vila Mathias, em Santos
Contato: 3345-7800