Turismo une as pontas de Santos

Projeto da Caiçara Expedições integra comunidade do Caruara, na Área Continental da Cidade, à universidade e ao Poder Público

27/09/2017 - 10:45 - Atualizado em 30/10/2017 - 14:12

Viagem do Centro à Área Continental santistas é de aproximadamente 50 quilômetros. Na chegada, um
cenário simples e acolhedor e, ainda..

A saída é às 8 horas da manhã. Tudo que você precisa é uma garrafa d’água, protetor solar, câmera fotográfica e, sobretudo, estar aberto a viver novas experiências.

A partir da Praça Mauá, no Centro, onde fica o Marco Zero, são 50,6 quilômetros seguindo pela Via Anchieta e, mais adiante, a rodovia federal BR-101. No caminho, Mata Atlântica, braços de rio, cachoeiras e trilhas. Cerca de 40 minutos de estrada distanciam Santos de... Santos. Continental, dizem os moradores do Caruara - último bairro da Cidade antes de Bertioga.

A recepção é bem servida, com bolinho de taioba, salada quilombola, brigadeiro de mandioca, doce de mamão e muitos mais. Todos caseiros e fresquinhos. Talvez, sabores que nativos da Ilha de São Vicente nunca degustaram.

Além da comida, sorrisos aguardam. Abraços calorosos de uma comunidade animada, devidamente identificada com seus crachás informando nome e função no projeto. Tem seu Jorge Manoel da Silva, mateiro, Tallita Vilas Boas, da gastronomia, e dona Lygia Maria Mesquita Martins, artesã. Pessoas simples, mas com muito a oferecer.

Depois dos cumprimentos, é hora de se sentar para ouvir as histórias que só eles sabem contar. Assim começa, oficialmente, o passeio de turismo comunitário promovido pela Caiçara Expedições.

Turismo Social
A empresa, voltada para turismo social e humanizado, surgiu em 2009 para reunir visitantes e comunidades. Os fundadores, Renata Antunes da Cruz e Renato Marchesini, são antigos no contato com a natureza. Trabalharam com grupos na Amazônia e em outras áreas Brasil afora.

Nos últimos anos, o casal retornou à Baixada Santista e dedicou esforços a valorizar a região. “Muitas vezes, conhecemos outros lugares do Brasil e do mundo, mas não conhecemos bem nossa própria cidade. Aqui é Santos, esta comunidade é santista. Mas é tão rica nas diferenças que vale uma visita, uma vivência”, explica Renato.

Para o empresário, o turismo comunitário é transformador. “Sempre digo que transforma quem recebe e quem visita. Aos moradores, agrega, principalmente, autoestima. Eles sentem-se bem em poder mostrar, compartilhar sua realidade, seus costumes, suas receitas. A quem visita, garanto que a vida nunca mais será a mesma. Você se sente tocado, acolhido, parte da família deles”.

Mobilização
A parceria com a Expedições Caiçara virou fonte de renda para a comunidade, com organização oficial. “Todo mundo quer participar”, explica a diretora da comissão, Sandra Cristina Assumpção de Moraes. “Criamos um grupo no WhatsApp e, sempre que tem visita agendada, nos preparamos uns dias antes. Revezamos os guias da vez, para dar oportunidade a todos”. Turistas aventureiros têm à disposição o empresário Cleber Augusto Mesquita, da Guarujá Radical. “O que mais gosto é o rapel na cachoeira. São três quilômetros mata adentro. Podem ir adultos ou crianças a partir de 10 anos acompanhadas dos pais”.

...pratos da culinária local, sob supervisão de
professores da Universidade Católica de Santos
(UniSantos)

Além de Cleber, mais dois guias especializados escoltam um grupo de 20 pessoas, além dos auxiliares fora da mata, com orientação por rádio. “Antes de entrar, identificamos um a um com pulseiras e realizamos treinamentos de sobrevivência. Nunca aconteceu nada, mas fazemos questão de cumprir os protocolos”.

No almoço, culinária desenvolvida por profissionais capacitadas pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), apoiadora do projeto. “Cada receita passa pelo corpo docente da UniSantos e tem qualidade atestada. A ideia dos chefs é valorizar o que temos de mais singular, alimentos encontrados aqui. Os peixes são trazidos pelos nossos pescadores, as folhas são tiradas da nossa própria terra. Muito pouco se compra”, diz Sandra.

Aprendizado
Os visitantes não deixam o Caruara sem conferir as oficinas de artesanato. Entre elas, tapetes, almofadas, bonecas de pano, espelhos decorativos e pintura de crianças.

Adélia Hermínia Pires Fortes, de 70 anos, é a responsável pela confecção de flores a partir de tecido de guardachuvas.

“Onde eu vejo um, recolho, limpo e guardo. Tudo pode ser reaproveitado. Já faço a minha parte e não deixo poluir a natureza”. Ela garante que mesmo quem não tem habilidades manuais é capaz de aprender. “Pelo menos o básico, todos saem daqui fazendo”.

O fim do passeio é marcado por um grande clima de amizade. Após horas de convívio, os moradores do Caruara passam a morar, também, nos corações de quem os conhece.

O resultado é o famoso boca a boca. “Contamos com os visitantes para divulgar o passeio no Caruara e passar adiante nossas mensagens. Foi assim que recebemos visitas de grupos de São Paulo, Taubaté e São José dos Campos”, explica Nurcy Cordeiro, diretora da Unidade Municipal de Ensino Judoca Ricardo Sampaio.

“Aliamos o projeto à nossa grade curricular, com o ensino técnico de Turismo. Ensinamos o aluno a utilizar do potencial do próprio ambiente onde vivem. É a valorização da cultura caiçara, do conhecimento humano”.

Este e outros passeios da Caiçara Expedições podem ser encontrados no site www.caicaraexpedicoes.com. O telefone é 3466-6905. Para falar com a comissão do Turismo de Base Caruara, o e-mail é tbccaruara@gmail.com.

Perfil

Projeto: Caiçara Expedições
O que é? Empresa voltada para turismo social e humanizado.
Desde quando? 2009.
Onde? Rua da Constituição, 480 altos, Itararé, São Vicente.
Contato: www.caicaraexpedicoes.com