Semear e Crescer, a vida nos eixos

Pais de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) encontram em Praia Grande o apoio para o desenvolvimento dos filhos

23/08/2017 - 11:22 - Atualizado em 24/08/2017 - 11:39

Além de crianças e brinquedos, o que lota a sala de espera feita de improviso no imóvel alugado, em Praia Grande, é a esperança. “Ouvi falar desse trabalho e, como já havia tentado outros com o meu filho, decidi conhecer. Me apaixonei e ele também. A maior dificuldade, agora, é levá-lo embora depois da consulta”, brinca Monalisa Pessoa de Lima Silveira, de 31 anos.

O filho da estudante de Pedagogia, Davi Luis Silveira, de 4 anos, é uma das 135 crianças atendidas pela Associação de Pais e Amigos dos Autistas de Praia Grande - Semear e Crescer. Antes de frequentar o local. Davi não interagia, não conversava, nem apresentava raciocínio lógico. Mas, em pouco tempo, tudo mudou.

“Andávamos na rua e ele viu um homem usando muletas. Imediatamente, me perguntou: ‘mamãe, por que o moço anda assim?’.Eu fiquei tão surpresa por ele ter reparado, que não consegui responder. Em seguida, continuou: ‘temos de ajudá-lo’. Ver meu filho não só reparando em outras pessoas, mas se preocupando com elas, foi um momento incrível para mim. E tudo graças ao tratamento que ele recebe aqui”.

 

O projeto nasceu a partir de uma mãe que queria oferecer ao filho com TEA as melhores condições

Semear e crescer
A Semear e Crescer foi criada por Talita Maria Silva, de 36 anos. A inspiração foi o filho, Eros Estevan Monteblanco, de 7 anos, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Preocupada com o desenvolvimento dele, Talita arregaçou as mangas e pôs-se ao trabalho. “Ele precisa disso. Não é por luxo, mas por saúde”.

Nas redes sociais, a mãe encontrou outras famílias com histórias parecidas e promoveu um encontro, no fim de 2015, para dar início ao grupo.

“Quando a ideia ganhou forma, aluguei esta casa. Logo na primeira reunião, todos os pais vieram aqui e decidimos o que seria feito. Nunca houve dúvida se daria certo. Tinha de dar. Só quem é pai, mãe, de crianças com TEA sabe a importância do trabalho”.

Estrutura
Dentre as especialidades no Semear e Crescer, estão Psicologia, Psicopegagogia, Nutrição, Educação Especial, Terapia Educacional e Psiquiatria, todas oferecidas por profissionais voluntários.

O imóvel que sedia a instituição não é o mais apropriado, mas, com criatividade, o grupo encontrou formas de adaptá-lo. “Quem chega para a consulta, aguarda onde seria uma garagem. No andar inferior, estão a cozinha e o administrativo. Em cima, os consultórios”.

A Semear e Crescer segue rigorosa agenda de atendimentos, principalmente com o objetivo de acolher a todos. “Não conseguimos receber todo mundo, mas fazemos o possível. Uns vêm duas, três vezes por semana. Outros vêm todos os dias. Em breve, pretendemos sanar a lista de 70 nomes na espera”.

Finanças
O único departamento que não está tão favorável é o caixa do grupo. “Às vezes, pagamos uma conta, deixamos outra em aberto... faz parte. Nunca exigimos colaboração financeira dos pais. Sabemos que existem aqueles que não podem contribuir. Aos que podem, pedimos uma taxa mínima de R$ 35,00 para manter a casa”.

Sem fins lucrativos, a iniciativa está caminhando para se tornar uma ONG. “Estamos pesquisando o que é necessário para efetivar a ideia. Nosso site já nos define como organização e não como comércio. Mas faltam ajustes, principalmente para estabilizar a verba”.

Enquanto isso não acontece, a Associação organiza eventos para arrecadar fundos.“ Já fizemos caminhadas na praia pela conscientização sobre o autismo, festas juninas, Páscoa. De tudo um pouco”.

No sábado, os amigos realizam um rodízio de pizza beneficente, com convites a R$ 25,00. “Contamos com o apoio da população de Praia Grande e das outras cidades, para que possamos continuar com o trabalho”.

Receptividade da equipe é ressaltada
Unânime entre pacientes e familiares é a receptividade da equipe. Gabriel José Lemos da Silva, de 17 anos, é autista. O jovem, no entanto, não se considera um paciente do serviço. Ele faz questão de participar. “Eu passo pelas consultas e terapias uma vez por semana. E já estou muito melhor. Mas não saio e vou direto para casa. Gosto de ficar aqui, ajudar no que eu posso... é muito legal”.

Quem também sentiu-se acolhida foi Kelly de Peder, de 36 anos. Ela é mãe do Enzo Felipe de Peder, de 5 anos. Eles se mudaram recentemente do Paraná para Praia Grande.

“Precisava de um lugar para continuar o tratamento dele. Desde os dois anos, ele vem passando por fonoaudiólogos e psicólogos e já melhorou muito. Mas não é sempre que dá para pagar. E aqui, mesmo que não recebam, eles fazem um trabalho incrível. Não resisti e decidi me envolver”.

Psicóloga há 15 anos, Kelly passou a contribuir nas terapias e se encantou com os resultados do filho.

“A tudo que é visual, auditivo, colorido, lúdico, ele responde de uma maneira interativa e muito satisfatória. Hoje, meu filho já consegue prestar atenção às pessoas, posar para uma foto... é nítida a melhora nos campos de fala, coordenação motora, socialização... agora ele está na escola e as notícias são sempre boas”.

Perfil
Projeto: Semear e Crescer
O que é? Um projeto sem fins lucrativos que atende crianças e adultos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) em todos os níveis. Conta com psicólogos, nutricionistas, psicopedagogos e educadores especiais.
Desde quando? 2015
Onde? Rua Teófila Vanderlinde, 372, Cidade Ocian, em Praia Grande
Contato: www.semearecrescer.org e nos telefones 3356-5388 | 99781-3539 | 98180-0016