Rede de amigos doa sangue e esperança

Projeto leva informações sobre o transplante de medula óssea a quem precisa dele e aos doadores. O resultado? Um elo que salva vidas

02/08/2017 - 11:31 - Atualizado em 09/08/2017 - 15:29

Uma das ações do ProMedula é incentivar a doação de sangue para o Redome localizar possíveis doadores
de medula. No último ano, o grupo conseguiu cerca de 2 mil participantes

Quando soube que a amiga Cecília Bianchi precisava de um transplante de medula óssea, Adriana Rodrigues iniciou uma corrida contra o tempo, contra a falta de informação, contra as estatísticas e, principalmente, contra a morte. Começou a tirar dúvidas sobre o assunto com o objetivo de aumentar o número de doadores e, consequentemente, as chances da salvar a vida da amiga. Uma semana antes da primeira campanha de doação, Cecília não resistiu ao mieloma múltiplo leucemizado.

Porém, sua despedida foi também o nascimento de uma rede, costurada com luta, amor e sangue, que vem trazendo  esperança e salvando vidas na Baixada Santista: o ProMedula Santos.

“A Cecília era minha amiga, professora como eu. Em 2014, ela soube da doença e o transplante de medula óssea foi indicado. E eu quis ajudar, mas logo percebi que a maioria das pessoas tinha muitas dúvidas sobre o transplante de medula”, conta Adriana.

Por isso, o primeiro passo era encontrar um serviço de divulgação e de informação para esclarecer e, depois, mobilizar os doadores. Exatamente o que ela não encontrou na região. Mas nessa procura chegou ao ProMedula que fazia este trabalho no Rio de Janeiro, mas não tinha atuação na Baixada Santista. E foi então que Adriana decidiu ser o ProMedula aqui. “Infelizmente, não deu tempo de ajudar a Cecília, mas percebi que precisava continuar”, lembra. 

O projeto foi criado em 2015 por Adriana Rodrigues (ajoelhada à esq.). Depois, vieram Gabriela
Carvalho (ajoelhada à dir.) e outros voluntários

 

 

Foi assim que os trabalhos começaram em 2015. Hoje, o projeto é multifacetado sendo muito mais fácil explicá-lo como uma verdadeira rede de boas ações. No Facebook, são compartilhadas informações sobre a doação e casos de pessoas que procuram doadores. O grupo também leva essas explicações por meio de palestras.

Pela atuação, o ProMedula muitas vezes faz um trabalho de apoio às famílias que, diante da angústia da doença e da busca por um doador, sentem a necessidade de ser ouvidas e acolhidas. O projeto também mobiliza doadores de sangue e de cabelos (para perucas) que podem ser necessários durante o tratamento.Há casos em que as famílias precisam de doações de comida ou de pequenos sonhos como uma bicicleta ou um passeio de escuna.

No último ano, o grupo conseguiu cadastrar cerca de dois mil doadores durante as campanhas. “Em uma das últimas conversas que eu tive com a Cecília, ela agradeceu a mobilização e disse que se não fosse para ela, seria para outros. Na verdade, a gente faz a parte fácil, a parte difícil fica com eles no tratamento. Por isso que eu falava para ela: firma daí que eu firmo daqui. E se ela não desistiu, quem sou eu para desistir? Portanto, tenho muito orgulho deste trabalho”, afirma Adriana.

Perdas
Gabriela Carvalho é uma das coordenadoras do projeto ao lado de Adriana. A chegada dela ao ProMedula, de certa forma, também foi um esforço por não desistir. Ela conta que já era doadora de sangue e voluntária na doação de medula quando uma vizinha precisou.

“A Cacau precisava de doação frequente de sangue e eu ajudei na mobilização. Mas em abril de 2015, a Cacau morreu. Logo depois disso, eu vi a campanha da Adriana e senti que era um recado para eu não parar. Fazemos um trabalho bonito, mas lidamos com a perda, com ansiedade do doador compatível e temos que entender que não mudamos destinos, mas podemos dar esperança”.

Paulo Oshiro também está à frente do projeto. Ele perdeu o filho Luann em um assalto e também coordena a Ong Luann Vive. “Elas precisavam de um monge budista”, brinca, mas depois fala sério.“Eu conheci a morte e a dor bem de perto (com a morte do filho). Então, passei a lutar de todas as maneiras pela vida. Por isso, quando Adriana me procurou pedindo ajuda, eu embarquei no projeto e hoje trabalhamos em parceria.

“Cecília viveu 17 meses de luta”

Ronaldo é viúvo de Cecília Bianchi

“A doença da Cecília apareceu do nada em dezembro de 2014. Ela dava aula de microbiologia, então entendeu tudo sobre o que tinha. Os artigos diziam que a sobrevida era de seis meses. Ela viveu 17 meses de luta”, lembra Ronaldo Alves Soares, viúvo de Cecília Bianchi - amiga que inspirou Adriana Rodrigues a criar o ProMedula.

 

Ele conta que a esposa tinha quatro irmãos e nenhum foi compatível, mas a família tinha esperança com o transplante. “O assunto era pouco comentado, as pessoas ainda tinham dúvidas sobre a doação (de medula). Por isso, o trabalho da Adriana foi importante e é importante. Hoje, fico feliz quando chega a notícia de que alguém conseguiu um doador por meio deste trabalho porque sei que tem um pouco da Cecília ali”, diz.

 

 

 

 

 

Ajudar o outro é fonte de amor

Caio também é voluntário da ação

Aos 17 anos, Caio de Assis luta desde 2012 contra uma leucemina linfoblástica aguda depois de quatro meses de dores intermináveis. “Passei por vários hospitais e fui diagnosticado com várias outras doenças até finalmente descobrir que eu não tinha nenhuma artrite ou doença reumática”, conta.

 

Em 2015, ele terminou o tratamento, mas em 2016 a leucemia voltou. “Temi que a doença pudesse tomar o que eu sou. Vivo agora para ser mais que a doença. E conhecer a Adriana (criadora do ProMedula) me ajudou nisso porque me envolvi de cabeça no voluntariado, que é um caminho para um verdadeiro mundo porque nós costumamos viver numa bolha. Ser voluntário me fez conhecer outras realidades e também responder pela minha própria realidade”, afirma Caio.

 

 

Grupo encontra doador para Léo

Valci acompanha a cura do filho

Leonardo tem hoje 11 anos. Em 2009, foi diagnosticado com leucemia. Em 2013, teve a indicação de um transplante de medula óssea. Na época, ele chegou a encontrar um doador compatível no Registro Nacional de doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome). No entanto, os médicos decidiram por descartar o transplante.

 

Há um ano, a doença voltou e a busca pelo doador também. “Mas aquele voluntário que se cadastrou e tínhamos encontrado em 2013, não encontramos desta vez”, conta Valci Gomes dos Santos Ramos, mãe de Leonardo.

Segundo Adriana Rodrigues, coordenadora do ProMedula Santos, uma das lutas do projeto é conscientizar os voluntários a manteremos cadastros atualizados para serem encontrados, caso sejam apontados como compatíveis com algum paciente. “E nossa busca começou novamente e eu procurei o ProMedula. Só tenho a agradecer a Deus por ter colocado eles no nosso caminho”, diz a mãe.

Léo encontrou um doador compatível e realizou o transplante no último dia 18. “Fico sem palavras porque é um trabalho lindo. Não só pelo Léo, mas por todos que precisam”.

Perfil
Projeto:
ProMedula
O que é? Um projeto que realiza campanhas informativas sobre doação de medula óssea, além de mobilizações para cadastros de possíveis doadores de medula e sangue. O projeto também recolhe cabelo doado para a confecção de perucas.
Desde quando? 2015
Onde? www.facebook.com/promedulasantos