Corte e costura moldam a cidadania

Projeto ensina a gerar renda com confecção

16/08/2017 - 10:26 - Atualizado em 13/11/2017 - 12:09

Projeto Costurando Cidadania já formou mais de 200 alunos em capacitação de corte e costura, em dois
anos e meio de atividades

Um nome composto por duas palavras despretenciosas, mas que não poderia ser mais preciso em seu significado. Costurando Cidadania. É exatamente o que esse projeto, na Zona Noroeste, em Santos, está fazendo.

Há dois anos e meio atendendo moradores de Santos e São Vicente, já são mais de 200 alunos formados, em quatro turmas. O intuito? Oferecer capacitação profissional gratuita e de qualidade, para que os acolhidos possam, ainda no período do curso, exercer uma atividade que gere renda e, principalmente, satisfação pessoal.

Lucineya Marques de Lima Souza, presidente da CooperDique.

“Sabe aquela história de não dar o peixe e, sim, ensinar a pescar? É o que acontece aqui; Não adianta só cobrar o governo e não fazer nossa parte. Ficar dependendo de auxílio isso, auxílio aquilo... a dignidade vai embora”, diz Neya (Lucineya) Marques de Lima Souza, de 58 anos.

A líder comunitária preside a CooperDique - Cooperativa de Mulheres da Vila Gilda. E aliou-se, no início do ano, ao projeto Costurando Cidadania, da Fundação Settaport que só vê sucesso na parceria.

“A CooperDique nos completou de um jeito incrível. Nós entramos com o espaço e as professoras. E a Neya veio com as máquinas e a oportunidade para os alunos darem segmento ao trabalho. Fortaleceu ainda mais a proposta”.

Primeiros pontos
O Costurando Cidadania começou em 2014, na Vila Valença, em São Vicente, numa antiga confecção desativada. “A proprietária havia falecido e o marido não sabia o que fazer com todas aquelas máquinas boas e industriais. Por meio de um amigo em comum, ele contatou a Settaport, reconhecendo os trabalhos sociais em diversos setores, como educação, esporte, geração de renda e meio ambiente”, explica a coordenadora executiva da Fundação Settaport, Naira Alonso.

Ao visitar o local, o presidente da entidade, Francisco Nogueira, aprovou a viabilização do curso e firmou parceria com o proprietário. “As professoras eram quatro ex-funcionárias da confecção, que se dedicaram a passar seus conhecimentos às novas alunas”.

Entre 2014 e 2016, o Costurando Cidadania formou 200 alunas, todas de um grupo específico na sociedade. “Direcionamos a ação a mulheres acima de 30 anos, que são o maior percentual dentre os desempregados de São Vicente. Esta escolha não foi ao acaso e, sim, baseada em pesquisas que fizemos nos próprios índices de IDH disponibilizados pela Prefeitura da cidade”.

Cooper Dique
No fim de 2016, o proprietário da confecção pediu o imóvel de volta e, com ele, todos os instrumentos de trabalho. “Foi quando o anjo Neya entrou nas nossas vidas”, afirma Naira.

“A Cooper Dique também passava por dificuldades. Tínhamos as máquinas, mas faltava um lugar para trabalhar. Nesse momento, tudo caminhou para que a negociação desse certo e pudéssemos completar o trabalho um do outro”, lembra Neya.

Um imóvel na Praça José Lopes Oliveira, 30, no Jardim Radio Clube, foi o ponto escolhido para trazer de volta o Costurando Cidadania a todo vapor. O retorno foi marcado por pequenas, mas importantes mudanças no perfil dos alunos.

“Decidimos não mais restringir por sexo ou faixa etária.Hoje, também temos homens e pessoas de 18 a 70 anos. Nossa proposta é proporcionar muito mais que uma formação profissional. Oferecemos relacionamento interpessoal, amizade, autoestima, e, de quebra, um jeito de ganhar dinheiro”, conta a supervisora do projeto Eliana Sena, de 52 anos.

“Deu muito certo. Temos centenas de histórias vitoriosas. Pessoas que tinham síndrome do pânico e depressão, que não saíam de casa... começaram a vir aqui e superaram todas essas situações. Diminuíram os remédios. Só de interagir com os colegas do curso e ver, em si, uma espécie de luz que não viam antes. Sentir-se forte, capaz de realizar algo. Isso é o mais importante”.


Edineia da Silva, de 67 anos.

“Sempre gostei de costurar. Às vezes eu pegava um zíper para fazer em casa... Sou afastada do serviço, moro só eu e meu neto. É sempre bom ter um trabalhinho, né?É com esse dinheiro que eu me viro. Me faz muito bem vir aqui,as amigas são muito queridas, a professora é ótima...Tudo de bom”.

Bruno Galindo e Heverly Rabelo, ambos de 32 anos.

“Eu já tinha interesse em costurar, já fiz um cursinho pela Prefeitura, mas queria me aprimorar um pouco mais. Porque lá eu só aprendia mexer na máquina. Não aprendi a costurar, fazer acabamento... E comprei uma máquina caseira”.

Heverly trabalhava numa empresa de ônibus, mas acabou saindo num período de corte. Bruno, estudante de Engenharia de Produção, trabalhava numa empresa de Logística e também perdeu o emprego recentemente.

“Decidi vir com ela para o curso. Melhor que ficar parado em casa, com certeza. Aqui estou aprendendo muitas coisas legais e que podem, mesmo, me render algo no futuro. Me formando na faculdade, penso em entrar em uma empresa de moda para aliar os estudos  ao hobbie. Enquanto isso, já estou complementando o aprendizado com um alfaiate que eu conheci no Centro da Cidade para pegar mais o jeito de fazer uma bainha, uns ajustes”.


Carlos Alberto Araújo da Silva, de 22 anos.

“Eu já trabalhava com costura, mas aqui pude me aperfeiçoar. Curto muito. Um dia passei em frente e vi a plaquinha. Já entrei em contato e perguntei se podia participar. Agora, depois de um mês, sei fazer bainha, bolso... Meu sonho é montar um ateliê”.

Perfil

Projeto: Costurando Cidadania
O que é? Um projeto que alia o curso de seis meses de costura a uma cooperativa que costura por encomenda. O intuito é ensinar cidadãos uma forma de gerar renda, mas também de autoestima, por meio de capacitação e socialização.
Desde quando? 2014
Onde? Na Praça José Lopes Oliveira, no Jardim Rádio Clube, em Santos.
Contato? (13) 3394-0624 | 3213-4900 | fundacao@settaport.com.br