No tatame, educação é ‘arma’ que muda vidas

Eis a lição do projeto Jiu-Jítsu Bom Combate

19/07/2017 - 09:34 - Atualizado em 09/08/2017 - 09:31

Uma luta milenar do Japão que consiste em imobilizar o adversário, sem machucá-lo, está mudando o comportamento de jovens no bairro da Alemoa, na Zona Noroeste de Santos. O jiu-jítsu, que prima pela disciplina do participante, está sendo ensinado a crianças carentes daquela região, dentro do sonho de um instrutor da modalidade: fazer a diferença e plantar a semente desta filosofia no coração das pessoas.

Esse é o desejo de André do Nascimento Lima, que, no início do ano, procurou a Associação Biblioteca Comunitária em Contêineres (ABC) em busca de um espaço onde pudesse trabalhar com as crianças da região todos os conceitos do esporte.

E foi desta conversa que nasceu o projeto Jiu-Jítsu Bom Combate. “Cheguei aqui e já vi que já tinha uma estrutura boa, com um espaço grande, coberto, onde só faltavam detalhes finais para começar a atuar com os garotos”, lembra o instrutor faixa roxa, que há seis anos se dedica ao jiu-jítsu nas horas livres.

Mas, para que o trabalho estreasse com os meninos da Alemoa, ainda faltava um detalhe muito importante: o tatame. “Fui para casa, pensando nisso e lembrei que tinha uma prancha de surfe parada, encostada e sem uso num canto. Coloquei a venda pela internet na mesma hora”, conta o professor. A venda do equipamento possibilitou que André comprasse 35 metros de tatame usado para que as aulas começassem.

Hoje, o projeto atende 22 jovens, com idades entre cinco e 15 anos, e tem capacidade de chegar a 30 alunos. Aos sábados,os inscritos passam a tarde na Associação treinando. Alguns pais acompanham os exercícios de perto.

É o caso de João Fabiano Ribeiro, de 36 anos. Assim que as atividades começaram no bairro, ele atendeu aos pedidos do filho, Fabio Souza Ribeiro, de 11 anos, e o inscreveu no projeto.

“Aqui não tem muito o que a criançada possa fazer. Então, para não deixar na rua, onde os pensamentos podem se desviar, ele acabava ficando muito dentro de casa. Agora, além de uma atividade, meu filho ganhou um novo comportamento. É nítido como ele mudou com o jiu-jítsu”, comemora o pai.

O menino concorda. “Está sendo muito importante para mim. Aqui a gente aprende a ter disciplina de verdade, o que é respeitar pai, mãe e professor. Uso tudo isso no meu dia a dia, na escola”.

“No começo, eu queria só focar a atuação da Associação em Educação e Cultura. Não pensava em entrar na área do Esporte”, conta o presidente da ABC, José Givanildo Batista. Ele acabou convencido de que a prática esportiva colaborava comas outras. “O Esporte também pode educar e a atividade está complementando tudo o que já fazíamos aqui”, afirma.

Ajuda
Para melhorar os treinos, a entidade procura ajuda para que todos os alunos um quimono. “Só temos metade, vindo de doação, para que eles usem. E sabemos que isso faz diferença na autoestima da garotada”, diz Batista.

“Quem pratica o jiu-jítsu preza por uma qualidade de vida melhor. Para ser atleta, se alimenta melhor, come melhor. Procura dar bons exemplos, não briga na rua e mostra tudo isso na escola”, finaliza o instrutor, que acredita que muitos dos alunos da Alemoa tem potencial de virar atletas de destaque.

Esporte abre novos horzontes
A prática do esporte na Alemoa transformou a vida de uma família do bairro. Comportamento, foco e novas perspectivas de vida surgiram depois que o grupo passou a frequentar o projeto.

Acompanhando os filhos na atividade, a sommelier Hemely Andressa Pereira Xavier, de 32 anos tomou gosto pelo esporte e começou a aprender os principais conceitos da arte marcial. “Vinha de uma síndrome do pânico, que não conseguia nem sair de casa. Acompanhando eles no treino, minha vida deu uma guinada”, conta.

Além de perder peso e se curar da síndrome, ela passou a disputar campeonatos de jiu-jítsu.

Mais lutadores
Os filhos, Phelipe, de 10 anos, e Hyago Gabriel, de 8 anos, também passaram por uma transformação. “Antes, eles estavam sendo criados sem freios. Depois que começaram no esporte, na última reunião de escola, só receberam elogios. Estão mais centrados, focados no estudo”. 

Associação quer expandir projetos
A Associação Biblioteca Comunitária de Contêineres surgiu de uma vontade de membros daquela comunidade em levar cultura a qualquer ponto que pudesse abrigar um contêiner para implantação de um espaço de leitura. Com cerca de quatro mil livros, o projeto foi destaque no Prêmio Comunidade em Ação, em 2014.

Com livros, computadores e, agora, uma área para a prática de jiu-jítsu, o presidente-fundador da entidade, José Givanildo Batista, sonha em ampliar ainda mais a atuação para a população do entorno. Desta vez, o desejo é trabalhar com a capacitação para a geração de renda.

“Já temos um espaço no fundo da associação e estamos guardando pallets. O objetivo é dar noções de marcenaria e mostrar para esses jovens que com esse material é possível construir móveis bacanas”, diz Batista, que já planeja colocar a ideia em prática nos próximos meses.

Perfil
Projeto: Jiu-Jítsu Bom Combate
O que é? Projeto desenvolvido pela Associação Biblioteca Comunitária em Contêineres, que oferece gratuitamente aulas de jiu-jítsu para crianças e adolescentes da Alemoa com o objetivo de integrar os conteúdos do esporte à Cultura e à Educação.
Desde quando? Janeiro de 2017
Contato: 99642-0984