Encontro de culturas, pela preservação

Projeto organiza auxílio a aldeias indígenas

27/07/2016 - 10:20 - Atualizado em 02/09/2016 - 16:42

Em uma dinâmica na qual a troca e a doação são movimentos imperativos, o projeto Vivência na Aldeia serve como um ponto de conexão e reconexão entre povos, culturas e com o próprio indivíduo. A ideia, a princípio, parece simples: ajudar comunidades indígenas em tarefas estruturais na aldeia. Mas, no desenrolar, tece teias complexas quando cruza tradições, trança conhecimentos e fortalece potencialidades, provocando um impacto difícil de mensurar, mas que fica claro por trás dos sorrisos de quem participa.

A proposta é passar alguns dias em uma aldeia, deixando de lado a visão de um turismo consumista e mergulhando na experiência de viver a cultura indígena, aproximar-se da natureza e deixando, ao fim, algo que possa ajudar no combate pela preservação das tradições dos índios e as próprias tradições do País.

O Vivência na Aldeia, da organização Cultive Resistência, surgiu para ajudar na construção de moradias em terras indígenas situadas em áreas degradadas no Litoral Sul. O projeto fez-se ainda mais importante depois que a possibilidade de instalação de um grande empreendimento e, consequentemente a retirada de indígenas do local, dividiu a comunidade há alguns anos. O negócio não foi para frente, mas ao longo desse período, os índios tentam não só se reorganizar, mas combater o desaparecimento da própria cultura.

Por outro lado, o projeto abre as portas de aldeias da região a quem busca conhecer uma das culturas que formam a base do Brasil ou queira, de alguma forma, aprender sobre meio ambiente e sustentabilidade.

 

Início
Há uma década, um dos aldeamentos, que vivia impactos de uma mineradora, estava se organizando para construir casas tradicionais indígenas. Um grupo que tinha experiências com preservação ambiental, sustentabilidade e era sensível à causa resolveu ajudar. Andreza Poitena e Josimas Ramos já trabalhavam com bioconstruções e Marcos Ferreira, com educação ambiental. “Aí nasceu o projeto”, conta Andreza.

O primeiro passo, segundo ela, foi fazer junto com os índios o levantamento do que eles precisam. “O primeiro de tudo é fazer o levantamento do que é necessário, inclusive da alimentação para o grupo durante a vivência. Isso, de certa forma, é dividido entre os interessados”, explica.

Junto com a questão de ajudar no que a comunidade necessitava, o grupo achou importante integrar uma troca cultural. “A ideia era fortalecer as tradições indígenas, além de oferecer, a quem visitasse a aldeia, um momento de conexão com a natureza e com o sentimento de solidariedade. Por isso, entre as atividades, realizamos dinâmicas, jogos cooperativos e interações”, explica Marcos.

Na primeira vivência, foram erguidas bioconstruções, banheiros biológicos e também foi o ponto de partida para novas vivências. 

 

Em defesa das tradições
No último fim de semana, mochilas, barracas e rostos com olhos curiosos desembarcaram em Peruíbe e por um caminho, de frente para a praia, que segue em direção à mata, chegaram à aldeia Awa Porunga Dju.

A aldeia leva o nome do cacique que sonhava em estabelecer sua comunidade de frente para o mar, preservando construções tradicionais e a cultura do povo tupi-guarani. No ano passado, ele morreu, mas não seu sonho, que os filhos decidiram concretizar com a ajuda do projeto Vivência na Aldeia.

“É importante manter a tradição. As cidades são muito próximas, as crianças vão esquecendo a cultura. Às vezes, preferem ficar no celular a cantar nossas canções”, diz Dhevan Kawin Pacheco, professor da aldeia e filho do cacique morto.

O atual cacique, irmão de Dhevan, Awagwyra Ruxa, sabe que a troca é importante. “Nessa vivência, nós recebemos uma ajuda importante e mais do que isso, fazemos amigos que entendem nossa causa e isso é importante para preservar nosso povo tupi-guarani, que está próximo de ser extinto”.

 

Gente da região é minoria
Segundo Josimas Ramos, do projeto, a maioria dos grupos que se formam durante as vivências são compostos por pessoas do Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina e Minas Gerais e pouquíssimas vezes da Baixada Santista. “A gente gostaria de uma participação maior do pessoal daqui”, diz.

Maria Júlia Sallom e Arthur Baptista, de 20 e 23 anos, de São Vicente, representaram a região no grupo. “O que mais chama atenção é a coletividade, é você aprender a dividir com pessoas que você não conhece”, diz Maria.

Arthur garante que sai da experiência renovado. “Mais limpo e mais leve”, diz, entre sorrisos. “Só por dentro”, completa brincando, com o rosto sujo de barro da construção da opy.

Sônia Regina, de 47 anos, moradora de Cabreúva, no interior de São São Paulo, foi convencida pela filha a participar. “A gente, mesmo morando no interior, não vive esse contato com a natureza, não entende a gratidão e o trabalho coletivo. Aqui, a gente vive tudo isso. Eu nunca vou me esquecer dessa experiência”, diz ela.

“Eu vim aqui para ajudar, mas a gente aprende e ganha muito mais. É um redescobrimento”, diz Gabriel Godoy, 24 anos, vindo da Capital. 

 

Construir a opy, tarefa do dia
Um dos trabalhos realizados na Awa Porunga Dju durante a vivência foi a construção da Casa de Reza da aldeia, a opy em tupi-guarani. Uma verdadeira honra para quem participou, já que a opy (lê-se opã), é o lugar mais importante para a comunidade. É lá que os doentes são curados, as sementes abençoadas, os bebês recebem dos espíritos seus nomes e decisões fundamentais da comunidade são tomadas.

Com conhecimento de bioconstrução, foi possível fazer a estrutura da casa com bambu e o revestimento em barro. “Usamos sacos com areia e um pouco de cimento para a fundição. E, no final, palha no telhado”, explica Andreza.

No entanto, antes de começarem os trabalhos, todas as pessoas que ajudaram na obra passaram por um ritual de purificação. À frente da opy está o pajé Guaíra, o líder espiritual. “Decidi vir para cá porque também quero uma comunidade preocupada em fortalecer nossa cultura. Aqui temos um local para fortalecer nossa espiritualidade”.

 

Sensibilizar
Durante a vivência, os participantes são convidados a conhecer o artesanato indígena, têm os corpos pintados, e se alimentam de comidas típicas. Tudo isso também serve como sensibilização, já que conhecendo as tradições, também é possível lutar pela sua preservação.

 

Interação
O tempo todo as crianças correm, sobem em árvores, cantam e brincam. As cores das peles e dos cabelos se misturam. São índios, não índios, mas crianças que se entendem muito bem. “Isso aqui é incrível. Para a gente que brinca em shopping, é um outro mundo”, confessa Letícia Catenaci, de 12 anos, moradora de Curitiba. Kunha Djatsy Tátá, ou Kauany, de 14 anos, também se diverte com os visitantes. “Eu morei na cidade e achei ruim. Aqui, a gente fica em contato com a natureza. Então, eu gosto quando eles descobrem isso”. Samira Narly Jera Poty, de 13 anos, conta que vai muito pouco à cidade e que antes das vivências achava que as pessoas não ligavam para a cultura indígena. “Mas aqui conheci gente legal e que mostra que pode ajudar. E isso é importante, preservar a nossa cultura, é uma forma de preservar o passado e também a natureza”.

 

Perfil
Projeto Vivência na Aldeia

O que é: Um projeto realizado pelo coletivo Cultive Resistência com o objetivo de construir moradias e colaborar com aldeias indígenas do Litoral Sul. Além de sensibilizar para a questão indígena, promovendo vivências nas aldeias, também discute Meio Ambiente e sustentabilidade.
Desde quando? 2006
Contato? (13) 3426-4085 ou contato@vivencianaaldeia.org