Da perda, veio amor para doar

Projeto Luann Vive age contra receptação

09/08/2017 - 10:37 - Atualizado em 10/08/2017 - 09:05

A morte de Luann Oshiro, de 18 anos, assassinado durante um assalto, comoveu Santos em outubro de 2015. Por trás da comoção, estava Paulo Oshiro, seu pai, encarando a dor sem medida que acompanha as tragédias. Dor potencializada pela inversão da ordem (que deveria ser) natural de um pai nunca enterrar um filho. Mas ele transformou o luto em luta e, da perda, fez amor para doar. Assim, de alguma forma, tornou eterna a presença do filho ao criar o projeto Luann Vive.

Hoje, a iniciativa é referência em assistência social. Na sede, na Avenida Afonso Pena, há brinquedos, livros e roupas para doação. E uma rede de amigos, quando mobilizada, doa tempo, seja para trabalhos em aldeias indígenas, festas do Dia das Crianças ou leitura para idosos em asilos.

Iniciativa tem sede no Bairro Aparecida, em Santos, aonde são encaminhados brinquedos, roupas e livros 

Apesar disso, a principal ação é contra a receptação. A campanha Receptação é Crime visa a alertar sobre o risco da compra de produtos de origem duvidosa - exatamente porque foi por causa de um celular que Luann perdeu a vida, sem nem mesmo reagir.

“Luann era um garoto estudioso e estava se preparando para a faculdade. Ele fazia cursinho e brincava com a fama de japonês dizendo para os amigos: ‘Não se preocupa, sua vaga é minha’. Mas a verdade é que ele ajudava todo mundo. A partida do Luann aconteceu uma semana antes do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e abalou demais os amigos de cursinho”, lembra Paulo.

Ele conta que não teve tempo de vivenciar o luto do filho porque foi para a porta das universidades dar apoio aos amigos de Luann que prestariam o Enem. Não queria que os garotos, abalados, deixassem de fazer a prova. “Os meninos fizeram uma camiseta em homenagem ao Luann: ‘Relaxa, minha vaga é sua’”, diz, emocionado.

Na aldeia
“Passada a questão do Enem, eu fui refazer alguns passos do Luann. Soube que uma semana antes ele tinha visitado uma aldeia, a Rio Silveira, em Boraceia”, conta Paulo. Ele decidiu ir também.Coincidentemente, antes de sua ida, um colégio entrou em contato comunicando que tinha alguns quilos de alimentos arrecadados que Paulo e os amigos poderiam levar. Lá, perceberam algumas dificuldades da aldeia, e o grupo decidiu ajudá-la e realizar uma festa de fim de ano.

“Mas, para nossa surpresa, fizemos um levantamento e tinha 450 crianças. Era bastante coisa para arrecadar”. Era mesmo. Apesar da campanha, nos primeiros dias Paulo cogitou vender o carro para comprar os brinquedos, que custavam a chegar. Mas, depois, a mobilização começou a surtir efeito, e uma doação grande fez com que o grupo conseguisse promover a festa na aldeia e ficar com material para uma próxima ação. Porque haveria outras. “Quando voltamos de lá, eu sabia que não poderíamos parar”.

A ação mais recente do projeto foi dar cara nova ao castelo do playground do Complexo Rebouças, na Ponta da Praia. A ação, denominada Reformando Sonhos, ocorreu em parceria com o grafiteiro Carlos Silva Catts e deu à construção cores vivas e personagens para mexer com o imaginário das crianças.

“Nós não queríamos que a partida do meu irmão virasse só uma estatística. Por isso, iniciamos tudo. E, agora, o projeto nos ajuda a lidar melhor com isso. A dor vem, mas aí a gente olha para as ações do projeto, vemos o quanto aqui somos uma família. A gente ajuda e é ajudado”, conta Noah Oshiro, irmão de Luann.

É possível aprender sobre si mesmo Cida Moreira precisava de um marceneiro para fazer um móvel para sua cozinha. Paulo Oshiro, marceneiro, precisava de trabalho para tentar retomar a vida logo após a morte do filho.

“Uma amiga me indicou ele, e foi logo depois do que havia acontecido com o Luann. Eu ainda perguntei para essa amiga se ele estaria bem para trabalhar”, relata.

Quando Paulo chegou, discutiram um pouco sobre o móvel e a cozinha, mas logo começaram a falar da dor de perder alguém. Como Paulo, que enfrentava a dor de perder o filho, Cida ainda chorava pela tristeza de perder o marido.

“Foi quando eu percebi que talvez ela se interessasse em estar com a gente na visita à aldeia Rio Silveira, porque ela estava muito triste. E, para minha surpresa, ela realmente foi, e se envolveu. E foi surpresa ainda maior ela voltar para outras atividades e ficar”, afirma Paulo, lembrando que os dois nunca mais discutiram sobre a cozinha - que acabou ficando sem o móvel. 

Chirlene Muniz e Cida Moreira se integraram ao projeto de formas diferentes, mas com mesma dedicação 

 

 

“Eu me aproximei do projeto na esperança de curar a dor. Tinha perdido meu marido, me comovi com a história do Luann. Vi no projeto uma forma de me solidarizar e de dizer que poderíamos passar por tudo aquilo. A cada atividade do projeto percebi que a gente pode passar por dores e ainda assim ficar de pé e, principalmente, ajudar outras pessoas”, explica Cida.

E, para ela, cada um ajuda da maneira que pode. Por isso, pensa ser importante o projeto ter várias vertentes. “Nessa de se doar por uma causa, aprendemos muito sobre nós mesmos”, considera.

Amigos
Desde pequeno, Vinícius, filho de Chirlene Muniz, estudava com Luann. Depois da morte do garoto, Vinícius foi se aproximando do projeto. “E eu comecei a acompanhar. Mas, na festa que eles realizaram na aldeia, o projeto me ganhou de vez. Ver os jovens reunidos lá, a seriedade das coisas... Eu quis ficar”, conta Chirlene. Depois da aposentadoria, ela tem dedicado cada vez mais tempo aos trabalhos do Luann Vive. “É muito bom você sentir que faz o bem. Dar um abraço, emprestar os ouvidos. Muitas pessoas só precisam ser ouvidas. Eu acredito que, se o Luann estivesse aqui, era isso que ele estaria fazendo também”.

“Fiz do projeto minha oração”

Paulo Oshiro, pai de Luann, atua contra
receptação de mercadorias 

Apesar das ações sociais, o principal foco do projeto é contra a receptação. Paulo Oshiro conta que tinha o desejo de cremar o corpo do filho, mas houve barreiras burocráticas pela morte do garoto ser decorrente de latrocínio.

 

“E, nessas idas e vindas e conversas com delegados, tomei consciência de que, se não houvesse quem comprasse produtos frutos de roubo e de origem duvidosa, assaltos e furtos diminuiriam. Quem sabe, até, meu filho estivesse vivo”, diz. Foi assim que ele idealizou uma campanha contra receptação que acabou ganhando apoio de entidades. Paulo também visita escolas para conversar com jovens sobre o assunto.

“Perder um filho é a pior dor que um pai pode sentir. Mas maior do que essa dor é o amor que sinto pelo Luann. Eu podia escolher entre ser levado pela dor ou pelo amor. Talvez fazer o que eu fiz seja o mais difícil. Mas eu decidi fazer uma história bonita. Eu sinto saudades do meu filho todo dia e, por isso, preciso de batalhas todos os dias. Fiz do projeto minha oração e é por isso que eu não paro. É minha forma de orar, de continuar. Eu preciso fazer. Muita gente quer mudança sentada no sofá.

Eu quero fazer”, afirma Paulo, de uma vez e com muitas lágrimas.

Perfil
Projeto: Luann Vive
Oque é? O projeto é uma homenagem à vida de Luann Oshiro, de 18 anos, morto durante um assalto em 2015. O projeto faz campanhas contra receptação e também realiza ações sociais na região
Desde quando? 2015
Contato: (13) 99762-3859