Ao corpo, comida; à alma, abraço

Projeto Entrega por Santos distribui a moradores de rua mantimentos, cobertores e, sobretudo, carinho

12/07/2017 - 17:47 - Atualizado em 09/08/2017 - 09:42

As coisas mais importantes da vida não foram feitas para pedir, mas sim para entregar. Com essa frase no peito, um grupo da região tem levado, além de mantimentos, doação em forma de conversa e abraços. Abraços que envolvem e conversa que remedia a dor da rua com o papo de quem senta ao lado, no chão. Além de donativos, o grupo Entrega por Santos dá também carinho a quem está na rua, carente de atenção.

São cerca de 60 pessoas que se reúnem todo último sábado de cada mês, na Praça da Aparecida, no bairro Aparecida, em Santos. Lá, eles apenas separam o material arrecadado em pontos de coleta e seguem em carreata por rotas já pré definidas para entregar sacolas a pessoas em situação de rua de Santos e São Vicente.

Cada sacola separada na praça tem um kit com papel higiênico, sabonete, escova e pasta de dentes, bolacha, preservativo e uma garrafa de água. São cerca de 350 sacolinhas por encontro. Mas há quem também traga cobertores, colchonetes, roupas limpas e em bom estado e principalmente calçados masculinos e roupas íntimas. De lá, todos se dividem entre os carros dos participantes, fazendo novas amizades.

Tudo começou em abril de 2015, quando duas amigas, Mariane Valencia e Barbara Ferreira, decidiram fazer uma campanha para juntar agasalhos e entregar no que seria uma única ação, em Santos. Mas, na mesma época, a imprensa mostrou um grupo chamado Entrega SP, comunidade cujo principal objetivo era entregar não só comida ou agasalho, mas sentar e conversar com as pessoas que não tinham só fome de comida.

Nasce a entrega
Encantadas com o trabalho, as amigas entraram em contato com o grupo da Capital. Para ajudar, eles desceram a Serra e ajudaram na distribuição de cobertores das santistas. Era 30 de maio de 2015. E, no final da ação, convidaram as meninas a promover o Entrega por Santos, nos mesmos moldes do projeto paulistano. E assim aconteceu desde então. Mesmo com chuva o Entrega por Santos se reúne todo último sábado do mês, pois sabe que os problemas não se esvaem pelos bueiros, como a água.

Renato Coelho, fotógrafo de 34 anos, é responsável por mostrar a ação nas redes sociais com as imagens captadas, com todo o cuidado e respeito, para não explorar a dor de ninguém. “Normalmente tento captar a emoção, sem registrar a miséria. Porque a gente mostra que mesmo quem não tem quase nada, pode se sentir feliz, melhor”, explica.

Matheus da Silva Oliveira, de 22 anos, lutador de MMA, é outro dos participantes. “Quando a gente entra na ação, é realmente algo diferente do convívio com um amigo. Quando a gente conta a nossa história para um morador de rua e ele conta a dele para nós, ele passa a fazer parte da nossa vida e a gente, da dele. Aí não tem mais lance de quem mora na rua ou se é homem abraçando homem. Fica todo mundo igual”, conta ele.

A ação já engajou não só gente de toda a região. Após Santos, já se formaram também o Entrega por Campinas e Entrega por Cuiabá.

O próximo encontro é dia 29. Quem quiser ir basta comparecer à Praça Aparecida, com ou sem doações, às 20 horas.

Onde doar ao projeto
❚ Doca 59 Tatoo | Av. Doutor Pedro Lessa, 1.920, conjunto 76 - Ponta da Praia, Santos 
❚ Galeria Campos Elíseos Vilma Salão - Loja 6 | Av. Mal Floriano Peixoto,13 - Gonzaga, Santos
❚ Loja Achei Papelaria | Av. Senador Pinheiro Machado, 600 - Loja 4 - Marapé, Santos
❚ Nosso Bolo 1 | Av. Antonio Emmerich, 1.378 - Vila São Jorge, São Vicente
❚ Nosso Bolo 2 | Av. Eleonor Roosevelt, 423 - Vila São Jorge, Santos
❚ Nosso Bolo 3 | Rua Governador Pedro de Toledo, 108 - Boqueirão
❚ Nordestão do Litoral | Av. Nossa Senhora de Fátima, 727 - Caneleira, Santos
❚ Nutrindo o Corpo Empório e Saúde | Av. Pedro Lessa, 3.097 - Embaré, Santos
❚ Salão Stylo Rio | Rua Ministro Xavier de Toledo,143 - Campo Grande, Santos
❚ Vertical Brasil Turismo | Rua Jurubatuba, 145 - Ponta da Praia, Santos

Psiu, sabedoria para as crianças
Psiu! Quem chama é o fantoche de barba grande e branca que, com a sabedoria da idade, conta sobre a realidade das ruas para as crianças. Ele faz isso sem assustar, sem aterrorizar. Pois Psiu é o personagem criado pelo Entrega por Santos para integrar os pequenos na causa.

O boneco é inspirado no livro Psiu, de Jeff Vasques. E quem dá vida ao Psiu é a jornalista Rafaella Martinez Vicentini, atuante do Entrega por Santos desde as primeiras edições.

“A gente não leva as crianças para a rua para as entregas, porque há usuários de drogas, pessoas embriagada. Mas também entendemos que eles são o futuro e precisamos trabalhar na formação deles”, conta Rafaella, explicando que as crianças atuam no engajamento para arrecadação dos materiais doados e na separação antes das visitas, ainda na Praça Aparecida.

A maior parte dos pequenos que integram a roda para ouvir o Psiu falar é do Núcleo Santos dos Bandeirantes – uma equipe que atua justamente para ensinar valores positivos a cerca de 50 crianças da Cidade, com idades entre 7 e 12 anos.

Sem promessas
Rafaella conta que assim como a conversa é importante para os adultos que vivem em situação de rua, é essencial aos pequenos.

“Na rua a gente não tem meios de tirar a pessoa das drogas, da bebida, dos vícios, então não entregamos promessas. Muitas vezes a conversa é mais importante que isso. E a conversa com as crianças é ainda mais especial. São eles que farão uma sociedade mais justa, igual e com mais amor se entenderem isso”, diz.

Um jardim de recordações
Tem muita gente que passa indiferente pelas flores. Muita gente que, na correria, passa sem enxergar o jardim. Jardim é o apelido de Edilson Martins de Souza, ou como é visto, um Zé Fulano como outros tantos pouco percebidos pela cidade. Um Jardim, no caso, com muita história para contar e também muito a multiplicar.

Nascido em São Paulo, o homem de 53 anos mora na Praça Aparecida há oito. Seu apelido vem do gosto por cuidar de flores, mas porque décadas atrás fez o jardim que até hoje está de pé em sua antiga casa, perto de Interlagos. Lá, ele plantou aos filhos alface, rúcula, agrião, mini tomate, cebolinha, coentro, cheiro verde. “Tem tudo até hoje. Nessa época, minha esposa estava grávida”, conta o homem, que é sempre referência para o Entrega por Santos – quando tem mais doações do que o necessário, o grupo deixa com ele, para que distribua aos amigos.

Mais trabalho
Jardim não esquece de suas sementes que deram frutos. Apesar de ter escolhido a rua após a morte dos familiares e a separação da esposa, ele guarda muitas lembranças boas dos filhos Evelyn e Cleyton.

Antes da derrocada pessoal, o seu Jardim lembra que trabalhava como porteiro de madrugada e depois carregava caminhões no Ceagesp. “Meus filhos diziam para eu voltar para casa e descansar, mas não. Queria mais trabalho para garantir mais conforto a eles”, conta.

Jardim mostra com orgulho que, apesar de esquecido por muitos, ele agora é lembrado. Teve um livro sobre a vida dele escrito por universitários. Ele não sabe de que curso, apenas que são da Unifesp. E sobre o pessoal do Entrega por Santos, esse ele tem como amigos.

“O que eles fazem é muito bom. É bom ter gente que faz a diferença”, conta o homem que, com a ajuda da comunidade, vai regando os próprios sonhos: “arranjar emprego, pois já trabalhei como porteiro, confeiteiro e comida sei fazer, sim senhor. Aí, um dia alugo uma casa e faço uma surpresa. Cozinho o almoço e chamo meus filhos para me ver”, diz.

 

Perfil
Nome: Entrega por Santos 
O que é: Uma mobilização social que entrega sorrisos, abraços e conversa a pessoas em situação de rua, oferecendo também sacolinhas com kit de higiene pessoal, roupas, calçados, cobertores, entre outros. 
Desde quando: maio de 2015.
Contato: facebook.com/entregaporsantos