Alegria dá goleada em dificuldade

Cerca de 200 crianças e jovens com idade entre 6 e 18 anos participam de projeto de futebol em Santa Cruz dos Navegantes, Guarujá

13/09/2017 - 11:01 - Atualizado em 13/09/2017 - 11:38

Antes das atividades, uma roda de conversa em que não se fala apenas de futebol, mas também da vida

 

Primeiramente, um sermão. Não em forma de bronca, muito menos de reprovação, mas como um alerta, apelo preocupado, conselho amigo. Só então, depois de 15 minutos de roda de conversa trocando histórias e vida, mensagens de respeito, amizade e cidadania, soa o apito, e o treino começa.

Há três anos, o projeto Jogando com Alegria reúne cerca de 200 crianças e adolescentes para treinar futebol no Bairro Santa Cruz dos Navegantes, em Guarujá.

A ideia veio do construtor civil Gladston Santos Meneses, o Neném, de 40 anos. Desde julho de 2014, o morador da comunidade preside o núcleo e dedica horas de seus dias a jovens que frequentam, de graça, a escolinha.

 

Exercícios ocorrem no contraturno escolar, ou seja, quem estuda de manhã treina à tarde, e vice-versa

 

“A proposta era oferecer lazer, esporte e, principalmente, oportunidade. Hoje em dia, o maior medo de qualquer pai é perder o filho para uma vida errada, que leve a maus caminhos. E eu me sinto como pai de todos eles. Quase todos, vi crescer. São meus vizinhos, moram na minha rua, brincam com os meus filhos. Por isso, não podia deixá-los soltos, correndo risco”, conta.

Jogando com Alegria
Quando se decidiu pelo projeto, Neném tinha pouco dinheiro para financiar a escolinha. Persistente, reuniu amigos e vizinhos para formar uma comissão no bairro, ajudar na administração do projeto e pedir doações.“Um colaborador deu chuteiras. Outro, bola. Outro, luvas de goleiro... Tudo que a gente recebia era aproveitado”.

Já funcionando, não houve dificuldade para atrair a garotada. “Eles vêm, não precisa nem chamar. Era uma carência no bairro, algo que todos queriam. E, aí, fizemos acontecer”.

Mesmo com poucas condições e visibilidade, em semanas, dezenas de inscritos entre 6 e 18 anos estavam no Jogando com Alegria. Neném e a equipe dividiram a molecada em grupos de faixa etária equivalente para melhor aproveitamento das aulas.

Treino
Hoje, as atividades ocorrem no contraturno escolar. Para os que estudam de manhã, o treino é das 15 às 17 horas. Para os que estudam à tarde, das 9 às 11 horas.

Antes de qualquer prática, ouve-se a conversado preparador de goleiros Pedro Paulo Marques de Oliveira, de 37 anos.

“Trabalhamos conceitos muito além do futebol. Prezamos o respeito ao colega, ao professor, à família. Fazemos questão de lembrar que eles têm talento, valores, essência, que invistam nisso. Prezem pelo que é correto”, descreve.

A comissão técnica cobra presença. Quem não treina não joga. “São muitos meninos. Fazemos competição entre as ruas. Rua E contra Rua F, Rua A contra Rua D. É uma forma de praticar e sair das aulas de sempre. Corrida, chute a gol. Gera, ainda, o espírito esportivo de saber ganhar e perder. Mas quem não comparece fica o banco no dia da partida”.

Mesmo com a marcação cerrada dos professores, nem sempre o grupo está completo. “Eu sei o nome de um por um”, comenta Neném. “Se percebemos a falta de alguém, imediatamente tentamos contato com a família, os próprios meninos se mobilizam. É normal desanimar, entendemos. Mas queremos que eles saibam que pertencem à equipe, que somos mais fortes juntos”.

Necessidades
“Gostaríamos de ter os meninos uniformizados. Acho que isso é o mais importante e meu grande sonho também. Mas é muito difícil organizar isso. Não temos verba. Por duas vezes, conseguimos uniformes de doação, mas não são suficientes e eles perdem, (pois) crescem. Mas eu acredito que ajudaria até na coletividade, na integração”, afirma Neném.

Itens básicos, como chuteiras e bolas, também estão em falta. “Quando caem no mato, é o mais difícil, porque não conseguimos encontrar. E lá vamos nós correr para comprar mais algumas”.

Em dias de finais de campeonato, comerciantes participam com doações de pão, carne, frios e refrigerante. Mas Neném quer ainda mais. “Eu queria poder dar um lanche a eles. Boa parte chega de manhã sem comer. Os que vêm depois da escola, por vezes, não almoçaram. Pode ver que hoje estamos sem água”.

Esperança
Apesar dos contratempos, desistir é proibido. Exemplo disso é o goleiro Marcos Vinicius Nascimento Moura, de 27 anos, que, em 2010, saiu da Baixada Santista para jogar em Portugal. “Já estive no meio deles. Era um garoto de muitos sonhos. E ainda sou. Passei numa peneira para o Vitória do Pico, na Ilha dos Açores, e tive de voltar. Mas sei que posso conseguir de novo. Mesmo sendo mais velho, não paro de treinar. Ainda dá tempo”.

 

Marcos Vinicius Moura já esteve em Portugal e, aos 27 anos, persiste

Enquanto se prepara para novos testes, Marcos joga no Litoral Futebol Clube, de Santos, e auxilia no Jogando com Alegria.“Fico como um conselheiro, um orientador. É bom para observar talentos também. É na várzea que podem surgir os melhores talentos. A gente nunca sabe”.

Perfil

Projeto: Jogando com Alegria
O que é ? O Jogando com Alegria é um projeto comunitário que reúne crianças e jovens do Bairro Santa Cruz dos Navegantes numa escolinha de futebol gratuita.O intuito é promover lazer, educação e cidadania por meio do esporte.
Desde quando ? 2014.
Onde ? Guarujá.
Contato: gladstonmeneses@hotmail.com