Adolescentes num lance de cidadania

Associação Realizar se destaca em projeto de handebol com meninas de 13 a 16 anos, que une jogadoras e famílias e permite sonhos

11/10/2017 - 10:23 - Atualizado em 30/10/2017 - 17:56

Jovens são divididas nas categorias infantil e cadete. Às sextas-feiras, há treinamento misto, com foco em técnicas específicas e sem impacto

O som ritmado do impacto da bola no chão da quadra denuncia que, neste grupo, ninguém veio para brincadeira. Seja pela inspiração de atletas como Duda Amorim ou Fabiana Diniz ou apenas pelo prazer de praticar esporte de forma comprometida, ao entrar no jogo, o objetivo é um só: vencer.

Não se trata de superar, necessariamente, outras equipes. Na maioria das vezes, o empenho é para vencer o medo, o preconceito, a descrença, a ociosidade e a falta de oportunidades.

“Temos atletas de maior estabilidade financeira, moradoras das áreas mais nobres da Cidade, e também as de outra realidade, que encontraram, no handebol, um ambiente sem diferenças, já que, em quadra, cor e condição financeira não alteram nada. O que importa é saber jogar”, conta o presidente da Associação Realizar, Thiago Souza dos Santos.

O projeto do handebol é mais antigo que a própria associação. Surgiu em 2009, quando o técnico Eduardo Soares Freire foi apresentado ao ativista Wladimir Mattos, simpatizante. Ali, iniciaram-se as conversas sobre desenvolver um trabalho com jovens santistas. “Acreditávamos na importância da prática do esporte com viés social. Em princípio, não pensamos em títulos, troféus. Já ganhávamos apenas por dar oportunidade a essas meninas”, lembra Eduardo.

Após muito diálogo, em 2014, quatro amigos apaixonados por esporte e pela Baixada Santista - entre os quais Wladimir - fundaram a Associação Realizar. “Esporte em geral: futebol, basquete, vôlei, judô... O sonho deles era, por meio do esporte, oferecer algum tipo de ocupação e desenvolvimento para os jovens da região”.

Atualmente, a entidade reúne equipes das mais diversas modalidades. Mas são as meninas do handebol que cativam de forma especial o coração da associação. “A preocupação era dedicar algo a elas. Aproveitamos o grande momento vivido pela seleção brasileira feminina de handebol e acreditamos que o resultado viria”.

O time, completo no início do ano, teve sua principal formação por meio das seletivas realizadas pela comissão técnica. Ainda assim, talentos continuam sendo observados e descobertos em escolas e instituições de todas as cidades da Baixada Santista. “As copas de handebol escolar são uma grande vitrine de atletas. Existem colégios se especializando no esporte, e é bom vê-lo ganhando destaque e visibilidade”.

Parceria
Enquanto a associação se consolidava, o projeto do handebol foi enviado ao Ministério do Esporte para análise. “Registrar o Realizar como um time de verdade, como o Pinheiros, a Metodista, deu trabalho. Tivemos de elaborar um cronograma financeiro rígido, que incluísse gastos com treinos, uniformes, viagens, campeonatos, vale-transporte das meninas... Agora, nos orgulhamos em dizer que, sim, conseguimos”, conta Thiago.

Mas, para manter o Realizar funcionando, a verba não vem do Governo. A entidade teve de buscar parcerias com empresas privadas, que aceitassem destinar sua renúncia fiscal ao projeto.“São processos detalhados, com uma série de exigências, por isso levou certo tempo, até que, em dezembro de 2016, conseguimos”.

A Associação foi aprovada na seletiva da Sabesp, que escolheu o grupo dentre todos os inscritos da Baixada Santista. “Eles confiaram na nossa mensagem de que o esporte transforma e proporciona educação e melhores condições. Nossa missão é aproveitar os recursos e destiná-los para o melhor treinamento a que as meninas tenham direito”.

Treinos
O trabalho começa na comissão técnica, composta por atletas e ex-atletas, especialistas e preparadores de goleiros, comandados pelo técnico Eduardo. “Nossas equipes dividem-se em infantil, com meninas de 13 e 14 anos, e cadete, para atletas de 15 e 16 anos. Os treinos acontecem de segunda a sexta-feira, das 15 às 17 horas, variando as dificuldades”.

Às segundas e quartas-feiras, entram em quadra as meninas da categoria infantil. “Desde as seletivas, em janeiro e fevereiro deste ano, notamos uma boa evolução delas. Não só na agilidade, mas nas noções de responsabilidade e dedicação”.

Às terças e quintas-feiras, ocorre o treino da categoria cadete, as atletas de ponta do Realizar. “Dentre elas, já tivemos duas sondadas pela seleção brasileira. Uma, infelizmente, sofreu uma torção no joelho e estamos acompanhando o quadro. A outra está préconvocada para o acampamento nacional da seleção, local onde as candidatas são avaliadas e convocadas”.

Às sextas, o treino é misto, integrando maiores e menores, com foco em técnicas específicas, sem impacto. “É o dia em que reunimos as meninas para trabalhar com bola e aprimorar passe, recepção e arremesso, além da importância de integrar todas as participantes”.

Acompanhamento
Mais só que a atividade esportiva, o objetivo do Realizar é oferecer cidadania. As atletas recebem acompanhamento psicológico e escolar, trabalho das amigas Flávia Antonia da Silva e Natália Minéro.

“Mantemos contato com as escolas de cada uma, justamente para saber se estão comparecendo, estão tirando (boa) nota... E fazemos a ponte entre a associação e a as famílias. Por enquanto, o retorno que temos é positivo”, conta Natália, responsável pelo setor administrativo da instituição.

Flávia, com experiência em outras organizações da sociedade civil, entrou no projeto para ser porta-voz dos pais das jovens perante o Realizar. “Fazemos reuniões mensais para entender suas exigências, e eu as encaminho à diretoria da entidade. Por exemplo, eles acham fundamental poder assistir aos jogos, torcer, e nós notamos que realmente surte efeito positivo nas meninas".

Perfil

Projeto: Associação Realizar
O que é? Organização da Sociedade Civil (Oscip) voltada para projetos esportivos com jovens da Baixada Santista. A entidade também mantém times de basquete e futebol
Desde quando? 2014
Onde? Rua Leonardo Roitmann, 27, conjunto 21, Vila Mathias, em Santos
Contato: www.associacaorealizar.org.br ou no facebook.com/associacaorealizar