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Segunda-feira

19 de Novembro de 2018

Arminda Augusto

Arminda Augusto é jornalista formada pela UniSantos, trabalha em A Tribuna há 22 anos e há quatro está como editora-chefe. Como repórter, cobria os setores de Educação e Meio Ambiente. Foi também professora universitária por dois anos

Finados, Dia dos Vivos

Resisti o quanto pude, mas sempre tem aquele momento em que todas as ferramentas de resistência falham e você precisa ceder.  Foi assim neste Dia de Finados. Visitar cemitérios, ou como sempre disse minha mãe, visitar os mortos, nunca foi um passeio agradável quando éramos crianças. Mas minha mãe insistia, ainda mais no "dia dos mortos", quando assistíamos a missa, acendíamos velas e rezávamos pelas almas daqueles que já não estão mais entre nós.

Neste finados repeti o ritual. Não por mim - jamais -, mas por ela, que me pediu companhia, do alto de seus respeitosos 81 anos. 

Em 45 minutos de visita e peregrinação pelas alamedas do cemitério, uma infinidade de descobertas. Enquanto ela rezava pelas almas e pedia abrigo às que eventualmente ainda não tenham encontrado a luz, me detive lendo as lápides, uma depois da outra, e fazendo contas diante de cada campa. Contava especialmente o tempo de vida em que aqueles seres humanos habitaram esta terra: 83, 54, 21, 94, 38, 17, 20, 53. 

Enquanto contava e observava atenta as fisionomias naquelas fotos, pensava: foram felizes? Viajaram pelo mundo, casaram, tiveram filhos? Como gastaram o tempo que lhes foi concedido neste universo? Perdoaram e foram perdoados?

Em muitos países - e aqui mesmo no Brasil - visitar cemitérios é um passeio turístico e muito rico de cultura e conhecimento. Mas para além do que representa estar no túmulo de famosos, como Martins Fontes, Benedicto Calixto, Martin Luther King, John Lenon, Madre Tereza e Ayrton Sena, visitar um cemitério é um convite à introspecção. Nunca se sai dali da forma como se entrou, porque pensar sobre a morte é refletir sobre a vida.

Quando éramos crianças, sempre ouvi da mãe críticas severas àqueles que não cuidam das campas de seus entes queridos, que deixam o mato crescer, as flores morrerem, o vidro quebrado e a foto, esmaecida. E também àqueles que sequer mandam fazer a placa com os dados completos do morto: o nome e a data ficam para sempre escritos no sulco do cimento.

Não é bem assim, diz a adulta que me tornei. Campas bonitas e floridas, com peças de metal reluzentes e vidros impecáveis não refletem, necessariamente, um zelo que se teve durante a vida de seus entes. Às vezes, bem ao contrário.

Ir ao cemitério neste Finados foi um convite à reflexão, sim. Não importa o tempo que se tem antes de chegar ali, mas é preciso que esse "durante" seja intenso e feliz. E do "durante" devem fazer parte os amigos queridos, os familiares de vida e os de alma, os pais de verdade, aquele tio para quem você liga a qualquer momento,  o colega de classe e de trabalho com quem você divide os seus maiores segredos. Do durante devem fazer parte todas aquelas pessoas que se afinam com você e sabem o que você pensa mesmo no silêncio. Ou no olhar.

Finados é, então, o Dia dos Vivos, e a música da Ana Vilela ("Trem Bala) diz, em outras palavras, o que isso de fato significa:

Não é sobre tudo que o seu dinheiro é capaz de comprar

E sim sobre cada momento, sorriso a se compartilhar

Também não é sobre correr contra o tempo pra ter sempre mais

Porque quando menos se espera a vida já ficou pra trás

Segura teu filho no colo, sorria e abrace teus pais enquanto estão aqui

Que a vida é trem-bala, parceiro, e a gente é só passageiro prestes a partir