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Segunda-feira

19 de Novembro de 2018

Arminda Augusto

Arminda Augusto é jornalista formada pela UniSantos, trabalha em A Tribuna há 22 anos e há quatro está como editora-chefe. Como repórter, cobria os setores de Educação e Meio Ambiente. Foi também professora universitária por dois anos

Corrupto, eu?

Antes da Prefeitura de Santos criar a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), era ela própria, por meio de agentes públicos, que fazia a fiscalização do trânsito, vendia cartões de estacionamento e registrava as multas no perímetro urbano. E a ocupação das vagas de agente de trânsito era feita por concurso público. Prestei um desses concursos quando tinha 18 anos. Eram apenas cinco vagas e uma infinidade de candidatos. Feitos os testes escritos, psicológicos e a entrevista, o resultado saiu: passei.

Em uma época em que a internet estava apenas começando, saber dos resultados implicava em ir pessoalmente ao prédio da Prodesan, realizadora do concurso e gestora do trânsito àquela época. Quando fui recebida para apresentar os documentos, a fiscal que me aplicou o teste me chamou no canto e me disse, com ar de surpresa, qual tinha sido o fator determinante para a minha aprovação. Uma das perguntas da entrevista era se eu, quando estivesse no exercício da função, faria vistas grossas caso um parente meu parasse em fila dupla ou estivesse sem cartão de ER numa zona azul. Eu respondi de pronto: sim.

Essa história me veio à lembrança esta semana depois de receber, pelo WhatsApp, um vídeo com um camarada falando sobre a mudança que o Brasil espera depois dessas eleições. “O Brasil vai mudar?”, pergunta o cidadão. “O Brasil vai mudar depois que o brasileiro aprender que o troco a mais na padaria precisa ser devolvido, quando você parar de fazer ‘gato’ na energia elétrica e no sinal a cabo, quando você parar de furar filas, quando você parar de discriminar negros, quando você marcar uma consulta particular ou no SUS e ir a ela ou avisar que não poderá ir, quando você parar de compartilhar fake news nas redes sociais”. E mais: quando você parar de pagar um laudo falso de deficiência física para comprar um carro isento de impostos e ainda poder usar as vagas demarcadas. E por aí vai...

Se fizéssemos uma enquete com nossos amigos e parentes, tenho certeza que outros tantos exemplos se somariam a esse vídeo, como a cena que vi dia desses, de uma mãe pedindo que os três filhos, na fila do caixa do supermercado, terminassem de comer os salgadinhos rapidamente porque ela queria colocar as embalagens vazias de volta na gôndola.

Fazer essa reflexão é desafio grande, porque parece que esses pequenos deslizes do dia a dia nada têm a ver com aquela corrupção maior, aquela “de Brasília”, dos órgãos públicos, das estatais, aquelas que nos tiram milhões, aquelas que envolvem grandes empresas e suas relações inescrupulosas com os homens públicos. Eu, corrupto? Afaste de mim essa pecha, diriam muitos. Mas que diferença há entre descartar a embalagem dos biscoitos sem pagar por eles e oferecer dinheiro por fora em uma licitação? O valor é a diferença ou o ato representa o mesmo princípio?

É certo que em um país banhado pelos escândalos milionários parece pequeno exigir que o filho devolva ao amigo o lápis que veio por engano dentro do estojo. Também pode parecer inexpressivo ir ao pronto-socorro simulando uma dor qualquer apenas para conseguir um atestado médico e emendar o feriado. Da mesma forma, falsificar a carteirinha da UNE para conseguir o desconto de estudante em cinemas, teatros, shows. Pode parecer pequeno, mas.....

Exigir que políticos sejam honestos e homens públicos cuidem bem do nosso dinheiro é via de mão-dupla, que só tem legitimidade se, ao menos, também nos policiarmos nesses pequenos desvios cotidianos.  Não é de uma lição de moralidade que se está falando, mas de uma postura que se esparrama nos ambientes por onde convivemos. Os bons exemplos não farão bem apenas para o coletivo e a replicação entre nossos pares. Farão bem para a alma.

Quis inaugurar esta seção do novo site falando sobre isso por dois motivos. Primeiro, porque estamos ainda no calor do pós-eleição; segundo, para revisitar aquela experiência de quando tinha 18 anos e disse à fiscal que sim, faria vistas grossas diante de um deslize. Escrevendo este texto me obrigo a refletir sobre as palavras e pensar: como eu agiria hoje? Ficarei com essa lição de casa! E você?