EDIÇÃO DIGITAL

Segunda-feira

19 de Novembro de 2018

Alexandre Lopes

É Editor-Chefe de Web no Grupo Tribuna e responsável pelo G1 no litoral de São Paulo. No grupo desde 2008, já participou de coberturas em mais de 15 países. Atualmente, além de coordenar os portais, também apresenta o G1 em 1 Minuto e é comentarista da TRI FM.

Um filme de terror saudita

Os noticiários internacionais, durante os últimos anos, se concentraram quase que exclusivamente em investigar, criticar e rotular o regime do ditador Kim Jong-un na Coreia do Norte, um dos países mais misteriosos do planeta onde, aparentemente, a população vive em uma bolha digna dos maiores sucessos distópicos do cinema hollywoodiano e, acima de tudo, onde a imprensa é totalmente controlada pelo governo e as informações que chegam para a população são filtradas.

Muito dessa 'atenção' especial por parte da imprensa se deve, claro, ao fato de Kim ser quase que um antagonista de um seriado infanto-juvenil: ameaçador, dissimulado e, ao mesmo tempo, carismático. Ao mesmo tempo que passou anos ameaçando o mundo com seu suposto arsenal nuclear, despertou curiosidade, e até empatia, por se tratar de uma figura um tanto quanto exótica, pra não dizer engraçada.

Enquanto a novela 'Coreia do Norte' ganhava capítulos diários, o mundo se esqueceu de outro regime absolutamente retrógado e tão autoritário quanto o norte-coreano. A Arábia Saudita, que até outro dia não permitia que as mulheres dirigissem e, até hoje, limita quase que totalmente os direitos femininos, sempre ficou de fora dos noticiários e, por ser um dos grandes aliados dos norte-americanos, nunca sofreu qualquer tipo de questionamento do governo Donald Trump.

Tudo isso mudou nas últimas semanas por conta da morte do jornalista saudita Jamal Khashoggi. O articulista do 'Washington Post' foi morto dentro do consulado do seu próprio país, em Istambul, pela única razão de ser um dos maiores críticos do regime do Rei Salman. Com a morte de Khashoggi, foi enterrada qualquer esperança de que o ocidente acredite que a Arábia Saudita caminha para se tornar um país razoável, como tem se esforçado para mostrar recentemente.

A Arábia Saudita demorou para reconhecer que o jornalista havia sido assassinado dentro da Embaixada do país na Turquia. Tentou enganar o mundo com algumas das mentiras mais mal construídas da história. Agora, dia após dia, mais detalhes desse crime brutal contra a liberdade de imprensa e de opinião são descobertos e revelados pelo governo do presidente turco Tayyip Erdogan, o que tem aumentado a pressão para que Donald Trump realmente faça algo contra os intocáveis aliados.

Nesta sexta-feira (2), foi revelado mais um detalhe macabro do crime. Khashoggi teve seu corpo desmembrado para ser 'dissolvido' com mais facilidade. A suspeita é que o esquadrão da morte, que teria sido contratado pelas autoridades sauditas, tenha utilizado uma substância, feita com ácido, para apagar qualquer rastro do crime, ainda dentro do consulado, ou na residência do cônsul da Arábia Saudita.

Ataques a liberdade de imprensa acontecem, diariamente, na Coreia do Norte, na Arábia Saudita e em todo o mundo. Aqui no Brasil, não é diferente. Casos como o de Khashoggi não são raros mas, ao contrário da história do saudita, muitas vezes entram apenas no limbo do esquecimento e sequer são investigados pelas autoridades. Quem não se lembra da morte do jornalista Vladimir Herzog, encontrado enforcado no DOI-CODI de São Paulo, durante a ditadura militar? Apenas neste ano, mais de 40 anos após o crime, a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Brasil por negligência na investigação do assassinato do jornalista.

Exatos 43 anos separam a morte de Khashoggi e Vlado. Quatro décadas depois, vemos que pouca coisa mudou. Dois jornalistas, críticos aos regimes de seus próprios países, mortos a mando de quem, na verdade, deveria os defender acima de tudo. Que a morte de Khashoggi não tenha sido em vão e que os verdadeiros responsáveis sejam encontrados e, de fato, realmente punidos.